sábado, 19 de setembro de 2020 - 19:56 h

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / O degelo da Antártida e os ursos canibais

O degelo da Antártida e os ursos canibais

Matéria publicada em 6 de março de 2020, 12:48 horas

 


Temperaturas altas provocaram degelo das calotas polares; na base brasileira o termômetro subiu até os 21 graus

No mês passado o calor atingiu temperaturas recordes no continente Antártico, provocando um degelo inédito. Termômetros na base Esperanza, situada na extremidade norte da península Antártica, registraram temperaturas de 18,3 graus centígrados. O que equivale a média na cidade de Los Angeles, na Califórnia. Na base brasileira o termômetro subiu até os 21 graus, algo que nunca tinha sido visto antes no continente gelado. O degelo provocou a descoberta de uma ilha que estava enterrada sob a calota polar há mais de quatro mil anos. Imagens da Ilha da Águia, obtidas do espaço pelo satélite Goes 8, nos dias 5 e 13 de fevereiro, mostram como a neve e o gelo derreteram rapidamente, revelando o terreno rochoso marrom que havia por baixo e formando lagoas azuis com a água derretida.
Ouvido pelo site da agência espacial Nasa, o pesquisador Mauri Pelto, glaciologista do Nichols College, disse que durante o “evento de aquecimento”, como ele chamou o fenômeno, cerca de 1,5 quilômetros quadrados da ilha ficaram saturados com água derretida. Cerca de 20% da neve acumulada sobre a ilha derreteu durante o pico do calor, entre os dias 6 e 11 de fevereiro. “Eu nunca tinha visto lagoas de água derretida se formarem tão rapidamente na Antártida”.
Esse degelo rápido foi provocado pela manutenção de temperaturas altas, acima do ponto de congelamento. Esse calor persistente nunca tinha ocorrido na Antártida antes do século XXI, e se tornou recente nos últimos anos. O calor de fevereiro de 2020 foi causado por uma combinação de fatores. Um centro de altas pressões se formou sobre o cabo Horn, no início do mês, o que permitiu o aumento de temperatura e a formação de uma massa de ar quente. Tipicamente a península Antártida é protegida dessas massas de ar quente por uma faixa de ventos fortes, os westerlies do hemisfério sul, que circundam a extremidade sul da América. Todavia, esses ventos enfraqueceram o que permitiu que o ar tropical quente cruzasse o oceano austral, atingindo a península Antártida.
E o problema não aconteceu apenas na ilha da Águia. Outras imagens feitas pelos satélites da Nasa mostra o derretimento da geleira Boydell. Essas ondas de calor estão se tornando frequentes e aconteceram em novembro de 2019 e em janeiro deste ano. “Se pensarmos neste único evento, de fevereiro, ele não seria significativo, o problema é que está se repetindo com frequência”, disse Pelto.

Degelo: A ilha da Águia vista pelo satélite Goes

Fauna

Mas, o problema não é apenas na Antártida, o Ártico também vem sofrendo um degelo recorde, o que causa efeitos terríveis na fauna local. Os ursos polares famintos estão devorando seus semelhantes em um caso inédito de canibalismo. Normalmente os ursos se alimentam de focas, que eles caçam em cima da banquisa de gelo. Com o derretimento da banquisa eles não conseguem matar focas e passam fome. Mas, não é só os ursos que sofrem com o aquecimento do planeta. O degelo das regiões árticas está liberando o metano e o gás carbônico aprisionados na permafrost, o solo outrora eternamente congelado. O metano é um gás do efeito estufa dezenas de vezes mais potente do que o dióxido de carbono. O que cria um efeito de retroalimentação. Quanto maiores as temperaturas, mais metano e dióxido de carbono são liberados na atmosfera, o que esquenta ainda mais o planeta.
Foi um efeito de retroalimentação como este que transformou o mundo vizinho da Terra, Vênus, em um inferno com temperaturas de 400 graus centígrados.

Tragédia: Ursos famintos estão se devorando

 


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)

Um comentário

  1. Avatar

    Assisti ontem um documentário onde era mostrada a vida selvagem no Ártico e a dificuldade que o urso polar tem em caçar focas, pois tem cada vez menos gelo sólido para espreitar suas presas…

Untitled Document