domingo, 11 de abril de 2021 - 19:51 h

TEMPO REAL

 

Capa / Ciência – Por Jorge Calife / O destino das Híades

O destino das Híades

Matéria publicada em 7 de abril de 2021, 14:46 horas

 


Massa invisível está desmanchando o aglomerado de estrelas

Perturbação: As Híades na imagem do Gaia

As Híades são um famoso grupo de estrelas situado na constelação do Touro, bem ali, no meio do zodíaco. Nesta época do ano é difícil vê-las porque as Híades se escondem logo depois do por do sol. Mas quando chega o verão elas se erguem gloriosas no horizonte leste, precedendo a constelação do Orion. E formam o panorama celeste característico das noites de dezembro e janeiro.

Situadas a 150 anos-luz da Terra, o que é relativamente próximo, na escala de distancias cósmicas, as Híades tem uma forma de um “V”, cercando Aldebaram, a grande estrela vermelha que forma o olho do Touro. Relativamente jovens, essas estrelas tem uma idade entre 600 milhões e 700 milhões de anos. São crianças estelares, comparadas com o nosso Sol, que tem 4,6 bilhões de anos. Conhecidas desde a antiguidade, as Híades receberam o nome das irmãs da mitologia grega, que morreram de tristeza e foram transformadas em estrelas por Zeus, o pai dos deuses.

Esse grupo de estrelas foi citado por Homero no ano 750 a.C. e por Hesíodo, cinquenta anos depois. Elas são parte da face familiar do firmamento, mas o que parece eterno, para nós humanos de vida curta, encontra-se na verdade em lenta mutação. Recentemente os astrônomos europeus, que trabalham com o satélite Gaia, da Agência Espacial Européia, descobriram que as Híades estão se desmanchando. Os instrumentos do satélite detectaram duas “caudas” formadas por estrelas que estão sendo puxadas para fora do aglomerado por alguma força invisível.

Essas caudas são chamadas de caudas de maré, porque são o resultado de marés gravitacionais atuando sobre grupos de estrelas. Elas são comuns em galáxias que sofreram colisões, como a famosa Galáxia das Antenas. No caso das Híades o satélite Gaia detectou duas caudas. Uma que se projeta na direção do centro da nossa galáxia, a Via Láctea, e outra que se afasta. Mas o que intrigou ainda mais os astrônomos é que não existe nenhum objeto visível, nenhuma estrela ou buraco negro gigante que possa estar exercendo essa força de atração sobre as Híades.

Um estudo publicado no mês passado na revista Astronomia e Astrofísica sugere que as Híades estão sendo perturbadas por uma massa de matéria escura. Segundo a astrônoma Tereza Jarabkova a massa responsável seria igual a de 10 milhões de sóis. O que pode ter a massa de 10 milhões de sóis e ser totalmente invisível? Para os astrônomos a culpada pode ser uma nuvem de matéria escura. Um tipo de matéria que nossos instrumentos não podem detectar mas que seria responsável por 27 por cento da massa do universo.

Em teoria essa matéria escura teria ajudado na formação das galáxias. E restos dela ainda existiriam, espalhados entre as estrelas.

A cauda das Híades que aponta para o centro da nossa galáxia contem muitas estrelas. Já a outra cauda é rala, e parece estar se dissolvendo. O que sugere a direção da massa invisível. De qualquer forma o panorama que vemos no céu, durante o verão, não vai mudar  durante nossas vidas. Durante os próximos séculos as Híades vão continuar formando aquela estrutura em “V” perto de Aldebaram e suas posições relativas só apresentarão mudanças significativas daqui a milhões de anos. As vidas das estrelas são muito longas comparadas com as nossas e é a partir dessa ilusão que chamamos o céu estrelado de firmamento.

 

Jorge Luiz Calife

 


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*

Untitled Document