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O dia em que o dragão foi às compras

Matéria publicada em 15 de abril de 2021, 14:37 horas

 


Falso dragão de Komodo aterrorizou mercado em cidade da Tailândia

A imagem, e o vídeo, estavam em todos os sites de notícias na última quinta feira, oito de abril. Um enorme lagarto, de uns dois metros de comprimento, invadiu uma loja de conveniência na Tailândia, aterrorizando os clientes. Enquanto as mulheres gritavam e os homens corriam o bicho subiu calmamente em uma prateleira, derrubando pacotes e enlatados, a procura sabe-se lá do que. As imagens vinham com a legenda: “Dragão de Komodo invade loja na Tailândia”. Mas os especialistas no assunto logo duvidaram da afirmação. O lagarto gigante era genuíno, mas não era um dragão de Komodo.

Os dragões de Komodo são os maiores lagartos do mundo. E vivem apenas na ilha de Komodo, na Indonésia, o que lhes deu o nome. Não havia a menor possibilidade de um desses bichos ter fugido de sua ilha tropical, indo parar em uma loja, na cidade de Nakhon Pakhon, perto de Bangokok, na Tailândia, que fica a mais de dois mil e quatrocentos quilômetros de distancia. Os únicos dragões de Komodo que vivem fora de Komodo, são uns poucos exemplares preservados em zoológicos. E a informação foi logo corrigida pelas redes de notícias. O lagarto que invadiu a loja era um monitor, do tipo que existe nas florestas do sudeste asiático. Embora grande ele não é tão grande quanto o verdadeiro dragão de Komodo. Os funcionários da loja chamaram a polícia que chamou uma equipe de veterinários. Eles laçaram o cliente indesejado e o levaram para um bosque próximo. Eles explicaram que a Tailândia esta passando por um período de seca e o animal estava procurando um lugar mais fresco para se abrigar do calor.

O fato é que essa história do dragão de Komodo, que não era de Komodo, me fez lembrar de um momento traumático na minha carreira de jornalista. Tudo começou em uma pacata manhã de segunda-feira, no final de outubro de 1990, quando me reuni com minhas colegas da editoria de ciência do Jornal do Brasil, para a costumeira reunião de pauta.

A editora chegou entusiasmada com um filme que tinha visto no fim de semana. No filme, “Um novato na máfia” o Marlon Brando é um chefão da Cosa Nostra com um hábito peculiar. Ele gosta de se banquetear com animais ameaçados de extinção. O que é péssimo para seu novo empregado, um rapaz interpretado pelo Matthew Broderick. Ele é encarregado de tomar conta do último dragão de Komodo, que vai ser sacrificado e servido no jantar de gala do mafioso.

Quando a editora de ciência terminou de resumir o filme eu disse para ela: “Isso é ficção. Os dragões de Komodo não estão ameaçados de extinção”. Foi a conta. Nossa editora lembrava muito aquela personagem interpretada pela Meryl Streep no filme “O diabo veste Prada”. Ela adorava nos ocupar com pautas difíceis e complicadas de serem apuradas. Imediatamente ela olhou pra mim e disse: “Apure isso, ligue para a embaixada da Indonésia, se o filme esta errado isso dá uma boa matéria.” Liguei e ninguém na embaixada sabia informar a situação dos dragões de Komodo. A secretária da embaixada nem tinha ouvido falar neles. Insisti e consegui um telefone do ministério do meio ambiente da Indonésia. “Liga pra Indonésia e apura isso” insistiu a editora.

O problema é que a Indonésia fica do outro lado do mundo. Quando é dia lá, é noite aqui. E o responsável pelos dragões de Komodo só ia trabalhar depois de meio dia, meia noite aqui. Tive que ficar na redação do JB até as duas horas da madrugada para conseguir falar com o homem. Felizmente ele falava um inglês impecável e conseguimos nos entender perfeitamente. Ele negou qualquer ameaça de extinção e acrescentou: “Eles estão muito bem, na semana passada comeram um turista japonês que se distraiu. Só sobraram os sapatos”.

E no dia seguinte fiz a matéria que a editora queria. Com uma sensação de alivio. Afinal, não tenho dúvida de que, se não conseguisse apurar pelo telefone, ela ia me despachar para a Indonésia no primeiro voo disponível. E depois do que aconteceu com o tal japonês eu queria distância daqueles bichos.

Se vocês quiserem ver o vídeo do falso dragão na loja, ele esta disponível no Youtube, em

https://www.youtube.com/watch?v=Ygo4jUNuvqA

Susto: O dragão não era realmente de Komodo

 

 


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Um comentário

  1. Avatar

    Caramba Calife…nessa você deu bom dia a cavalo….e pagou o pato!
    Boa estória!

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