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O difícil resgate do submarino argentino

Matéria publicada em 27 de novembro de 2018, 08:30 horas

 


Americanos recuperaram submarino russo afundado durante a guerra fria

No último dia 16 de novembro, a empresa Ocean Infinity anunciou ter localizado os destroços do submarino argentino Ara San Juan, perdido em 15 de novembro do ano passado. Fotos tiradas pelos veículos robôs, lançados do navio de buscas Seabed Constructor, mostram que o Ara San Juan se partiu em três pedaços que se encontram a 950 metros de profundidade, num canyon submarino. Os 44 tripulantes morreram instantaneamente quando o casco de pressão implodiu, mas as famílias têm aparecido na televisão pedindo uma operação de resgate. Que exigiria equipamentos que a marinha da Argentina não possui e custaria muito caro. A Ocean Infinity vai receber a soma de sete e meio milhões de dólares pela localização dos destroços.

Até hoje só houve um resgate bem sucedido de um submarino perdido a grande profundidade. Foi em 1974, quando a agência de espionagem norte americana CIA resgatou partes do submarino soviético K-129 de uma profundidade de 4900 metros no oceano Pacífico. A operação secreta, conhecida como Projeto Azorian custou 800 milhões de dólares na época, na cotação atual do dólar o custo seria de quatro bilhões de dólares.

O K-129 afundou em 1968, era um submarino lançador de mísseis nucleares e os americanos queriam se apoderar das ogivas e das máquinas codificadoras que ele levava. A operação clandestina de resgate foi proposta em 1970 pelo Assessor de Segurança Nacional, Henry Kissinger, e pelo secretario da defesa Melvin Laird. Como não existiam equipamentos para operar naquela profundidade o governo pediu a empresa Global Marine que construísse um navio especial para a operação, o Glomar  Explorer. Para evitar que o público e o governo soviético ficassem sabendo do plano o governo pediu a ajuda do bilionário Howard Hughes para criar uma historia falsa. Hughes concordou e anunciou na imprensa que estava construindo o navio Glomar Explorer para procurar nódulos de manganês no fundo do oceano.

No dia 20 de junho de 1974 o Glomar Explorer partiu do porto de Long Beach na Califórnia e chegou ao local do resgate no dia 4 de julho. Uma tecnologia especial permitia que o navio ficasse imóvel sobre um ponto no solo oceânico a quase cinco quilômetros de profundidade. No centro do navio existia uma estrutura semelhante a uma torre de petróleo de onde foi baixado o “veículo de captura”. Uma enorme garra de aço que desceu a 4900 metros de profundidade e agarrou os pedaços do K-129.

A operação secreta foi parcialmente bem sucedida, quando a garra puxou a proa de K-129 ele se partiu e somente a seção dianteira, incluindo a sala de torpedos foi recuperada. Mesmo assim a CIA conseguiu se apoderar de vários torpedos soviéticos com ogivas atômicas, o sonar e as cobiçadas máquinas de código. Também foram encontrados os restos mortais de seis tripulantes que receberam um sepultamento marítimo com todas as honras militares. Os detalhes da operação secreta só foram revelados seis anos depois e serviram de inspiração para romances de ficção como “A caçada ao outubro vermelho” do escritor Tom Clancy.

As fotos divulgadas na semana passada pela Ocean Infinity mostram a proa do Ara San Juan com os quatro tubos de torpedos expostos pela implosão do casco externo. Outras fotos mostram a vela, ou torreta do submarino tombada no fundo do oceano e a hélice, que se soltou do casco.

Hoje em dia, com a moderna tecnologia de robôs submarinos, é possível que uma operação de resgate do Ara San Juan custasse menos do que os quatro bilhões de dólares que os americanos pagaram para se apoderar do K-129. Mesmo assim o custo seria astronômico e fora da capacidade da combalida economia argentina. Como a maioria das vítimas de naufrágios os tripulantes do San Juan ficarão para sempre em seu túmulo submarino.


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2 comentários

  1. Anderson dos Santos Costa

    Uma pena o ocorrido. Só posso imaginar a angústia das famílias após tanto tempo sem saber do paradeiro de seus entes queridos. Que sirva de alerta para o Brasil também.

  2. Aí vale a máxima: respeitemos os mortos, mas cuidemos dos vivos… Apesar dos requerimentos plausíveis dos parentes, baseados em questões sentimentais, o governo deve ser razoável, não pode nem deve gastar muitos milhões de pesos para exumar das águas os restos mortais dos marinheiros, que ademais devem estar irreconhecíveis e talvez tenham se perdido… Aliás, o mar é um sepulcro tradicional para eles…

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