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O direito de ser esquecido

Matéria publicada em 18 de agosto de 2015, 07:00 horas

 


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– Quero que me esqueçam!
Foi essa uma das últimas manifestações públicas do ex-Presidente João Batista Figueiredo ao final de seu opaco mandato que terminaria em 1985 junto com o regime militar, antes de partir rumo ao ostracismo voluntário numa fazenda em Petrópolis.
Mas se o pedido de esquecimento não foi de todo eficaz (cá estou relembrando o General), também não o foi de todo inútil. Na história Presidencial recente, Figueiredo é de fato um dos menos lembrados.
Mesma sorte não haverá de ter os Presidentes contemporâneos. Veja a Dilma, por exemplo, não há um único dia em que não sejamos lembrados de sua existência, na TV, no Facebook, nas ruas, na fila do supermercado ou no WhatsApp.
Vivemos num mundo em que ser esquecido é tarefa das mais inglórias.
Até a Justiça e os credores esquecem de você, mas o Google não. Após 5 anos, um devedor tem o direito de ter seu nome varrido dos registros do SPC e a Justiça perde o poder de cobrá-lo. O deslize é esquecido. Mas se você fizer uma asneira qualquer e ela for parar na internet (na forma de texto, foto ou vídeo), sua pena não prescreverá jamais. Uma condenação perpétua e post mortem. Até mesmo seus tataranetos um dia poderão testemunhar a ‘celebrização’ do seu ridículo.
Tem horas que ser esquecido é mesmo melhor que ser lembrado. Talvez seja por isso que nos esquecemos do que fizemos no dia posterior ao porre. A amnésia alcoólica é uma válvula biológica que permite que possamos continuar caminhando de cabeça erguida mesmo após os piores vexames.
O esquecimento é tão importante que a própria Mitologia Grega tratou de personificar isso, na figura de Lethe, a Deusa do Esquecimento.
Na mitologia Grega, a Deusa Lethe resolvia o problema. No mundo digital, nem o Delete dá jeito.
O tema é assunto de uma proposta um tanto controversa na Europa, desde que o continente instituiu o “Direito de ser esquecido”, gerando ações judiciais contra o Google, para que este apague todos os registros que fazem referência a uma determinada pessoa, que teria o direito de não ser encontrada, nem ver informações a seu respeito perpetuadas na rede.
O assunto é polêmico porque em algum momento o direito à privacidade se contrapõe ao direito à liberdade de expressão.
O curioso é que são poucos os que recorrem a essa prerrogativa. Afinal de contas, as pessoas estão muito mais preocupadas com o “dever de ser lembrado” do que com o “direito de ser esquecido”.
A internet virou uma passarela virtual para desfilarmos nosso exibicionismo narcisista. Um mundo onde ser lembrado é muito mais urgente e importante do que ser esquecido.
Sorte mesmo teve o Figueiredo de ter saído do poder antes da invenção da internet.

Alexandre Correa Lima | alexandre.lima@diariodovale.com.br


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