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O fator humano e o ‘fabricante de viúvas’

Matéria publicada em 31 de janeiro de 2020, 14:30 horas

 


Nos acidentes aéreos o homem é sempre um elemento importante; F-104 foi criado no início da década de 1950 pelo projetista Kelly Johnson

O destaque no noticiário do último fim de semana foi a morte do astro do basquete, Kobe Bryant, e sua filha Gianna, na queda de um helicóptero nas colinas de Los Angeles. A aeronave era um moderníssimo Sikorsky S-76A, biturbinado. Um dos helicópteros mais modernos e sofisticados do planeta. Mas, não importava o modelo. O acidente aconteceu quando o piloto decolou no meio de um nevoeiro denso e voou a baixa altura por entre os morros de Los Angeles. Uma condição extremamente perigosa com qualquer aeronave.
Fatores humanos, como erros de julgamento do piloto ou sua incapacidade de reagir a uma situação inesperada, estão entre as maiores causas de acidentes aéreos. Mesmo uma aeronave perigosa, de pilotagem difícil, não apresenta riscos nas mãos de um piloto competente. Vejam o caso do famoso caça supersônico F-104 Starfighter da Lockheed, que ganhou a fama de “fabricante de viúvas”.
O F-104 foi criado no início da década de 1950 pelo projetista Kelly Johnson para ser o avião de caça mais rápido e eficiente do mundo. O resultado deixou a comunidade aeronáutica boquiaberta. O F-104 parecia um míssil pilotado, com sua fuselagem em forma de dardo e suas asas minúsculas. Em pouco tempo ele bateu todos os recordes de velocidade e altitude. Era capaz de ir do solo a 14 mil metros de altura em apenas quatro minutos e 22 segundos. Os pilotos diziam que o caça da Lockheed parecia uma dama: Belo, elegante e um tanto impulsivo.
Mas, era uma dama extremamente perigosa. Os primeiros modelos tinham uma turbina instável, que parava de funcionar sem aviso. E o assento ejetável para baixo não permitia que o piloto escapasse de uma pane a baixa altura. Foi o que matou o ás da aviação americana Ivan Kincheloe.
A Lockheed recolheu os primeiros modelos e fez várias modificações. Instalando uma nova turbina, mais confiável e um assento que ejetava para cima, o C-2. Na época os países da OTAN procuravam aviões mais modernos para equipar as forças aéreas europeias. E o F-104 foi adotado pela Alemanha, Itália, Bélgica e Holanda. Na Alemanha a performance do míssil tripulado foi um desastre. Cento e dez pilotos morreram em quedas do avião. Que foi batizado de “fabricante de viúvas”.
Curiosamente os italianos e belgas não tiveram problemas com a mesma aeronave. E a Nasa, a agência espacial americana, passou a usar o F-104 no treinamento de seus astronautas. Um piloto que adorava o F-104 foi Neil Armstrong, que mais tarde se tornaria o primeiro homem a andar na Lua. Armstrong usava um F-104 como seu transporte particular, usando o avião para visitar os vários centros de pesquisa da Nasa nos Estados Unidos. As 110 mortes de pilotos alemães são atribuídas a um treinamento deficiente, que os tornara incapazes de lidar com o avião de modo seguro.
Até mesmo os fãs do F-104 dizem que era um avião perigoso, que não admitia erros. Nas mãos de um piloto competente e cuidadoso, como Neil Armstrong, o avião era um sonho. Mas, um piloto menos experiente poderia levar o F-104 a uma condição de onde não seria possível escapar. A maioria dos aviões, principalmente as aeronaves comerciais, não é nem de longe tão exigente quanto o lendário caça da Lockheed. Mas exigem um mínimo de perícia e bom senso.

 

Perigoso: O F-104 do Neil Armstrong


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3 comentários

  1. Avatar

    O Caso do Kobe, a se confirmar o fator falta de visibilidade entre os motivos da colisão (e também por quê o voo se desenvolvia nessa condição), a aviação tecnicamente nem considera isso uma “queda”, mas um “CFIT” sigla de um termo em inglês que pode ser traduzido como “voo controlado contra o terreno”. A grosso modo, o aparelho poderia estar sob voo estável e nivelado nas mãos e pés do piloto. Se não havia mesmo visibilidade devido ao nevoeiro, então o piloto “não sabia” mais onde estava, para onde ia e aí veio o desfecho trágico.

  2. Avatar

    Calife voltando à boa fase…

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