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O foguete, os youtubers e o filme do Kubrick

Matéria publicada em 26 de outubro de 2021, 15:45 horas

 


Geração do milênio não consegue dialogar com os clássicos do cinema


Era uma noite chuvosa e com poucas opções de lazer, por isso fui no Youtube assistir ao lançamento de um foguete Ariane, lá da Guiana Francesa. Tinha vários canais transmitindo, mas sabe-se lá porque eu resolvi assistir num canal brasileiro. Tanto o comentarista quanto a audiência eram representantes da geração do milênio. Garotos na faixa dos 20 anos que nasceram na virada do século 20 para o 21. Todos empolgados para assistir ao lançamento do foguete europeu.
Mas o problema com os foguetes é que são máquinas muito volúveis. Raramente decolam exatamente no horário. Nunca me esqueço do lançamento do primeiro ônibus espacial, o Colúmbia, em 1981. Eu era estudante de jornalismo na época, e a Rede Globo colocou um repórter lá em Cabo Canaveral para transmitir a partida da nave ao vivo. Mas deu um problema qualquer e o lançamento atrasou uma hora. E o repórter, que tinha se preparado para falar durante alguns minutos teve que improvisar, falando o que lhe vinha a cabeça. Foi um festival de bobagens jamais visto. Finalmente a Colúmbia decolou e livrou a todos daquele constrangimento.
Com o Ariane 5 aconteceu a mesma coisa. A contagem regressiva foi interrompida faltando cinco minutos para zero. E a equipe da base levou uma hora para resolver o problema. O que deixou aquela turma do Youtube jogando conversa fora. Tinha que dar vexame e deu. Lá pelas tantas alguém perguntou ao comentarista, um cara que se interessa por foguetes e pesquisa espacial se ele já tinha visto o filme “2001: Uma odisseia no espaço”, a obra prima do cineasta Stanley Kubrick.
E o youtuber respondeu com franqueza: “Comecei a ver mas ainda não consegui terminar. É um filme antigo, datado, muito lento” E alguém na audiência completou: “Eu já tentei ver quatro vezes mas dormi no meio”. É a geração videogame. Se não tiver tiroteios e explosões a cada cinco minutos eles ficam entediados. Adultos com o déficit de atenção de uma criança de quatro anos. Daí essa versão apócrifa da Fundação, que esta passando na Apple TV, cheia de execuções, assassinatos, massacres. Tudo o que não tem no livro do Isaac Asimov, que eles achariam chatíssimo, como o filme do Kubrick.
A geração do milênio foi condicionada a esperar a satisfação instantânea, das redes sociais e zonas de conforto. Onde as curiosidades são mais valiosas do que os bens concretos e tudo é descartável. Eles acreditam piamente que o bilionário Elon Musk vai pra Marte naquele foguete do Flash Gordon que esta construindo. Uma viagem de seis meses, sem gravidade artificial nem proteção contra radiação. Parece que eles nunca assistiram ao retorno dos astronautas que ficam seis meses na Estação Espacial Internacional. Os caras não conseguem nem ficar de pé. Tem que ser carregados em cadeirinhas. E quem é que vai carregar a turma do senhor Musk quando eles chegarem em Marte, se chegarem.
Longe de ser datada, a tecnologia mostrada no filme 2001 ainda não foi superada e muito menos alcançada. Os caras que projetaram as naves do filme trabalhavam com o engenheiro Werner Von Braun no Centro Espacial Marshall da Nasa. E participaram do projeto Empire, o primeiro estudo sério sobre viagens interplanetárias. É por isso que as naves do filme tem estruturas giratórias, para criar uma falsa gravidade através da força centrífuga. Assim os tripulantes se acostumam, durante a viagem, com a gravidade do mundo que vão visitar. E abrigos anti-radiação.
Mas a garotada do Youtube acha que isso é coisa velha e superada. E ficam esperando o Elon Musk partir pra Marte naquele busca-pé gigante.
Vão ter uma tremenda decepção.

 

2001: Blindagem e gravidade simulada


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4 comentários

  1. Mas este filme e chato. Demais . ..esse 2001….sem pé nem cabeça….

  2. Um dia desses mesmo,conversei com um amigo professor universitário,das antigas, que já me disse : olha essa geração de hoje está perdida.

  3. Calife, imagine os pobres dos professores que tem de encarar esses seres numa sala de aula…

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