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O maior piloto que você nunca ouviu falar

Matéria publicada em 30 de janeiro de 2019, 08:43 horas

 


As livrarias do mundo estão lotadas de biografias de sucesso. Pelo menos as livrarias que ainda restam no mundo, já que poucas delas continuam tendo sucesso. Se serve de consolo, pelo menos não haverá livraria para vender a biografia da morte das livrarias.
Gosto muito de livros e biografias. Muitos anos atrás, cavucando nas estantes escondidas de uma livraria londrina achei a biografia de um piloto irlandês contemporâneo do Ayrton Senna. A biografia de alguém que tinha tudo para fazer um tremendo sucesso, mas foi um baita fracasso, se é que é possível definir a vida de qualquer pessoa em termos como sucesso ou fracasso.
Tommy Byrne foi possivelmente o piloto mais veloz de sua geração, mas sua carreira foi um conto de fadas ao avesso. Ele foi o maior piloto da história que jamais conseguiu fazer história. Aliás, é esse o subtíutulo da sua biografia: o maior piloto de corridas do qual você jamais ouviu falar.
Sendo um dos melhores (ou “o melhor” como imodestamente se intitulava), o que faltou então? Persistência e trabalho duro?
Não. Tommy era um irlandês de família humilde, cujos pais pelejavam para sustentar a prole. Não tinha grana, nem apoio, nem influência e nem muito estudo. Só tinha talento. E se matava de trabalhar, não apenas nas pistas, mas nas profissões mais subalternas e humilhantes que apareciam.
Mas a equação do sucesso é bem mais complexa do que a soma romântica de talento, trabalho duro e oportunidade.
Tommy era um estranho no ninho. O circo do automobilismo é reduto de pessoas endinheiradas ou com patrocínio para bancar os custos caríssimos das categorias de base. Todos os aspirantes a campeão pagavam para correr (Ayrton Senna, inclusive). Tommy era o único que era pago para correr, porque se não fosse assim morreria de fome.
Não era apenas dinheiro que faltava. Tommy também não tinha capital intelectual nem apoio para construir uma carreira. Ele não entendia que o automobilismo era um negócio: atrás dos pistões e cilindros havia uma empresa, com balancete de receitas e despesas. Tommy não soube gerenciar a própria carreira, se relacionar com as pessoas certas e nem buscar os patrocínios. Achava que seu talento bastaria. Não bastou.
Além disso, era marrento e encrenqueiro. Colecionava títulos e desafetos pelo caminho. Durante a juventude se envolveu em confusões de todo tipo, participava de furtos, teve um filho que não assumiu, usou drogas e levava uma vida um bocado desregrada.
Tommy flutuava nas curvas, achava ângulos improváveis e baixava tempos impossíveis, mas não tinha inteligência emocional.
Por ter sido o piloto mais rápido e bem sucedido das categorias de base, havia um acordo de que a toda poderosa McLaren poderia contratar o piloto para correr na Fórmula 1. E Tommy Byrne foi arrasador no teste da McLaren. Fez de longe o melhor tempo em todas as voltas. Mas o fato é que o chefão da escuderia Ron Dennis, simplesmente não ía com a fuça do irlandês marrento e encrenqueiro de Dundalk. Ele não o queria na McLaren, não importando o quão talentoso fosse. Não foi escolhido. Tommy era veloz, mas não soava confiável.
Acabou indo correr por uma escuderia sem nenhum suporte e um péssimo carro (Theodore), o que acabou por determinar seu fracasso na F1. Tudo o que se seguiu foi como uma corrida em marcha ré: voltou a correr categorias de base em acordos cada vez menos favoráveis, mas sempre voando como se fosse não houvesse amanhã, na certeza que o reconhecimento tardio chegaria.
Nunca chegou e quando a ficha caiu Tommy não tinha dinheiro pra viver, nem carro pra correr, nem família pra abraçar. E então se afundou na bebida e na depressão.
Foi resgatado do abismo existencial por um antigo amigo que arrumou um emprego de instrutor de direção em Ohio, onde permaneceu até escrever a biografia que caiu em minhas mãos.
Ele já estava quase conformado com sua sina incumprida. A vida é cheia de curvas e capotar faz parte das corridas. A idade não traz apenas rugas, mas sabedoria também.
Aí então descobriu que durante o teste da McLaren que poderia ter mudado os rumos da sua vida para sempre, os mecânicos da escuderia tinham recebido ordens para baixar a potência do motor do piloto durante os testes, supostamente para “proteger” o veículo do estilo de direção agressiva do piloto. Ou seja, ele foi muito mais veloz que seus concorrentes mesmo tendo um carro regulado para correr menos. Ele foi “mais melhor” e arrasador ainda do que supunha ter sido. E mesmo assim foi rejeitado. A revelação desse fato reabriu antigas feridas.
A maior mágoa de Tommy foi nunca ter sido respeitado como o grande piloto que foi. Descobriu tarde demais que conquistar troféus não é o mesmo que conquistar Grandeza.
Foi o mais veloz nas pistas, mas as duras lições da vida foram aprendidas da maneira mais lenta e dolorida possível.
Tommy foi o maior de todos os pilotos que até então você nunca tinha ouvido falar.


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