O melhor filme do Jean Paul Belmondo - Diário do Vale
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O melhor filme do Jean Paul Belmondo

Matéria publicada em 14 de setembro de 2021, 14:55 horas

 


“O Magnífico” mostra a vida dupla dos escritores de fantasia e suas frustrações

Na semana passada, em meu comentário sobre a vida do ator francês Jean Paul Belmondo, escrevi sobre seus filmes mais famosos. Como “Acossado” com o mestre do cinema francês Jean Luc Godard e “O homem do Rio” filmado no Rio de Janeiro. Mas o melhor de todos foi “O Magnífico”, de 1973, que encerrou a parceria do ator com o diretor Phillipe de Broca. Ao contrário de “O homem do Rio”, que é uma simples comédia de ação e espionagem, “O Magnífico” é um retrato da vida dos escritores de romances baratos e uma sátira a moda dos filmes do James Bond que entupiu os cinemas na década de 1960.

O fenômeno 007 só é comparável a onda atual de filmes de super-heróis. Produtores do mundo inteiro queriam pegar carona no sucesso do James Bond. E produziram paródias e imitações envolvendo espiões franceses, italianos e até mexicanos! Nem Hollywood conseguiu resistir ao sucesso do espião britânico. E criou um superespião americano, o agente Derek Flint, interpretado pelo ator James Coburn.

Na época muitos escritores mal sucedidos ganhavam a vida escrevendo novelas de espionagem para o mercado de livros de bolso. Livros que eram vendidos nas bancas de jornais e consumidos avidamente por um multidão de donas de casa, funcionários de escritórios e adolescentes. Em “O Magnífico” Jean Paul Belmondo interpreta um desses escritores. Explorado pelo editor Georges Charon ele mora num apartamento em ruínas, num bairro pobre de Paris, e passa os dias datilografando as aventuras do agente secreto Bob Saint Claire. A única forma de lazer que ele conhece é jogar dama com os aposentados em uma praça do bairro.

E para escapar dessa existência miserável François Merlin, o escritor, mergulha em seu mundo de fantasias mirabolantes. Onde ele se imagina na pele de seu herói invencível e irresistível. Para se vingar do chefe, ele usa Charon como modelo para o arqui-vilão da história, o sádico Karpov, chefe do serviço secreto da Albânia e o maior inimigo do Bob St.Clair. A coisa vira um vício e todos aqueles que aborrecem o escritor na sua vida diária viram vilões da história que ele esta escrevendo. Incluindo os dois eletricistas incompetentes que provocam um curto circuito no banheiro do apartamento.

Essa existência dupla, entre a fantasia e a realidade, começa a escapar do controle do escritor quando ele conhece sua nova vizinha. Uma linda estudante de sociologia que alugou um apartamento ao lado do seu. Apaixonado, Merlin transforma a vizinha na agente Tatiana, namorada de Bob St.Clair na ficção. E resolve contar tudo para sua musa. Ela vê nos escritos de Merlin a matéria prima para sua tese de doutorado. E resolve visitar o editor Charon, que também fica impressionado com a beleza da moça e a convida para um jantar em seu apartamento. Vendo o chefe desprezível roubar a sua musa Merlin resolve se vingar dos dois na ficção o que provoca uma reviravolta nas aventuras do agente secreto.

O diretor Phillip de Broca conta essa história alternando as fantasias com a realidade de seu personagem. E aproveita para satirizar a violência exagerada e os absurdos dos filmes do James Bond e seus imitadores.  O resultado é uma comédia de ação que ridiculariza os filmes de sucesso dos anos 60. Além de mostrar a exploração e as condições de trabalho miseráveis a que eram submetidos os autores daqueles romances de espionagem. Que nunca desfrutaram da riqueza e da fama do Ian Fleming, o criador do James Bond.

Uma curiosidade. Na foto aí em cima, Belmondo e Jacqueline Bisset (Tatiana) atiram com metralhadoras dinamarquesas Madsen. No final dos anos de 1950 a Dinamarca exportou essas armas para as polícias do mundo inteiro. Elas chegaram a ser fabricadas no Brasil pela Industria Nacional de Armamentos, durante o governo Kubitschek. E durante o golpe militar de 1964 uma delas apareceu nas mãos do governador Carlos Lacerda, que prometia usa-la para defender o palácio Guanabara das hordas comunistas. O que mostra que não é de hoje que os políticos brasileiros gostam de posar para fotos exibindo armas. Heróis frustrados como o Bob Saint Clair.

 

Exagero: Belmondo e Jacqueline Bisset mandando bala


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