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O Nobel da Física e suas polêmicas

Matéria publicada em 10 de outubro de 2019, 07:05 horas

 


Prêmio de 2019 foi dividido entre a cosmologia e a pesquisa de exoplanetas

O Nobel da Física deste ano continua a provocar polêmicas. Geralmente, o prêmio é concedido a uma única área de pesquisa. Mas, este ano, a Academia Sueca se dividiu entre duas áreas de pesquisa bem diferentes. A cosmologia, que estuda a origem e o destino do Universo como um todo, e a busca por planetas fora do nosso sistema solar. Um dos premiados foi James Peebles, da Universidade de Princeton, premiado por um trabalho escrito em 1965, onde ele postulava a existência de uma matéria escura para que as galáxias pudessem ter se formado. E, desde então, os cientistas descobriram que o Universo está se expandindo a uma velocidade maior do que se esperava. O que só pode acontecer devido a existência dessa matéria invisível que nunca foi detectada.
A polêmica nesse caso é que o comitê Nobel ignorou o trabalho da astrônoma americana Vera Rubin. Ela mediu a velocidade das estrelas na borda das galáxias e descobriu a existência de uma força misteriosa que as mantinha no lugar. Força que ela também atribuiu à existência da matéria escura. Acontece que Rubin morreu em 2016 e o Nobel só pode ser concedido a pessoas vivas. Há quem acuse a academia de machismo por demorar demasiado a reconhecer o trabalho das mulheres cientistas. Até hoje só três mulheres receberam o Nobel de Física.
A outra parte do prêmio também provocou reclamações. Michel Mayor e Didier descobriram o planeta 51 Pegasi b depois de estudar as flutuações de luz de uma estrela. Foi o primeiro planeta extrasolar (ou seja, um planeta que orbita outra estrela que não o Sol) a ser encontrado no sistema de uma estrela semelhante ao nosso Sol. A descoberta foi anunciada em 1995. Antes desse trabalho de Mayor e Didier, já tinham sido detectados planetas orbitando pulsares, que são núcleos de estrelas mortas. Desde então já foram descobertos cerca de quatro mil planetas semelhantes.
O problema é que Mayor e Didier não foram os únicos pioneiros nesta área. Eles também foram auxiliados pelos astrônomos Geoff Marci e Paul Butler. Eles também tinham obtido dados semelhantes sobre o 51 Pegasi b e confirmaram a descoberta. Porque eles não foram incluídos na premiação? O problema é que Marci sofreu inúmeras acusações de assédio sexual por parte de suas alunas e se tornou uma figura polêmica no meio acadêmico. Parece que essas acusações fizeram com que a academia esquecesse a sua pesquisa.
Independente do comportamento dos seres humanos, estamos vivendo uma era de ouro da Astronomia. Só nas primeiras duas décadas do século XXI já conseguimos observar o Universo logo após a sua formação, há bilhões de anos, medindo a velocidade com que ele está se expandindo. Também se descobriu que sistemas solares como o nosso são comuns no Universo. Algo que era desconhecido até o final do século passado. E detectamos ondas gravitacionais emitidas por buracos negros e estrelas de nêutrons. Essa última descoberta foi honrada com o Nobel da Física de 2017.
Ao sondar os limites do espaço e do tempo os cientistas detectam o invisível e conseguem estender a percepção humana para muito além dos nossos cinco sentidos. Os exoplanetas são detectados devido as perturbações que eles provocam no movimento de suas estrelas e pela redução que provocam no brilho delas ao passar pelo disco luminoso desses sóis. Já a matéria escura é percebida pelo efeito que ela provoca nas galáxias e no Universo de um modo geral. Sem a matéria escura as galáxias se desintegrariam, lançando suas estrelas no espaço intergaláctico. E o Universo como um todo provavelmente implodiria virando um imenso buraco negro.
As pesquisas continuam e, atualmente, existe um sensor, a bordo da Estação Espacial Internacional que tenta detectar essa misteriosa matéria invisível. E na próxima década o telescópio James Webb deve nos dar a primeira imagem de um exoplaneta.

 

51Pegasib: O planeta que valeu um Nobel (Foto: Divulgação)


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Um comentário

  1. Avatar

    Acredito que o James Webb irá nos revelar coisas até então inimagináveis. É uma questão de tempo.

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