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O que você vai ser quando crescer?

Matéria publicada em 12 de maio de 2017, 12:38 horas

 


Futebol e facções do crime são modelos da juventude; no passado éramos ingênuos, mas sonhávamos alto

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O ônibus passou pela ponte em cima do Rio Paraíba e um grupo enorme de jovens jogava futebol em um campo a nossa direita. Era um dia de sol, segunda-feira, duas horas da tarde e aqueles adolescentes jogavam bola como se fosse domingo. Um senhor de setenta anos, sentado ao meu lado, comentou: “Ninguém quer saber mais de estudo nem de trabalho. Só querem jogar bola”. Respondi que pelo menos aquela garotada queria virar o novo Neymar ou o novo Messi. Tem um monte que sonha em ser bandido e entrar para uma dessas facções criminosas do Rio de Janeiro.

Tenho um vizinho que é professor de Ciências em uma escola do Ensino Médio. Ele comentou comigo sobre os alunos que escrevem as siglas do Comando Vermelho (CV) ou do Terceiro Comando (TCP) nas mochilas, carteiras e até nos muros. São as quadrilhas que estão em guerra lá no Rio e fecharam a Avenida Brasil semana passada. Esses são os modelos de comportamento de boa parte dos jovens brasileiros, principalmente aqueles que moram nas periferias das nossas cidades: Ser jogador de futebol ou então traficante.

Já comentei aqui, nesse espaço, sobre os modelos e os sonhos da minha geração. Nossos horizontes eram bem mais amplos e nossa imaginação não tinha limites. É claro que vivíamos em um mundo bem diferente, no início da segunda metade do século XX. O Rio de Janeiro ainda era a cidade maravilhosa e o crime era uma coisa que ocupava um espaço reduzido nos jornais e não fazia parte do nosso dia a dia.

No meu tempo de garoto o bandido mais famoso do Rio de Janeiro era o Tião Medonho. Que fez parte da quadrilha que assaltou um trem pagador da Central do Brasil, a ferrovia que fazia a ligação entre São Paulo e o Rio de Janeiro. O assalto e a caçada ao Tião Medonho provocou tanta sensação no Rio de Janeiro pacato daquela época que virou filme nacional: “O assalto ao trem pagador”, de Roberto Farias.

Mas não me recordo de que algum de meus coleguinhas de escola sonhasse em ser o novo Tião Medonho. Ele era só um bandido, que morreu trocando tiros com a polícia e isso não despertava a nossa empatia. O futebol já era uma mania nacional e o Brasil tinha conquistado a taça Jules Rimet, na Copa da Suécia. Pelé e Garrincha eram os “fenômenos” do futebol nacional naqueles anos da minha infância. Mas não eram nossos modelos de comportamento. A garotada até jogava uma pelada de vez em quando, mas tínhamos consciência de que não tínhamos talento suficiente para estar na seleção.

Era comum os adultos perguntarem para gente: “O que você quer ser quando crescer?”. Nossa imaginação voava. Tinha as profissões padronizadas, como médico, engenheiro, advogado, mas na verdade nosso sonho era pilotar uma nave espacial, como o Yuri Gagarin, ou pelo menos um jato supersônico como o Steve Canyon dos seriados da TV. Outra profissão de sonho era entrar para a Marinha e ser comandante de um submarino. Influência do filme “Vinte Mil Léguas Submarinas” que vivia passando nos cinemas.

Explorador era outra profissão muito cotada, devido aos filmes de aventuras na África. E os documentários sobre as primeiras escaladas do monte Everest. O Indiana Jones ainda nem tinha nascido naquele tempo, mas nossa imaginação nos levava a descobrir “cidades perdidas” no meio da selva ou desembarcar no continente Antártico em meio a uma multidão de pinguins.

Sim, éramos ingênuos, mas quantos desses garotos de hoje, que passam o dia jogando bola vai virar mesmo um astro do futebol? O importante é que sonhávamos alto. Acabamos virando jornalistas, advogados, médicos, mas não nos arrependemos dos nossos sonhos. Já os sonhos dos jovens de hoje me dão medo.

E pobre do país cujos jovens não sabem sonhar.

Assalto: Bandidos não despertavam admiração

Assalto: Bandidos não despertavam admiração

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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2 comentários

  1. Avatar

    A raiz desses males está na falta de planejamento familiar… muto sexo e pouco amor!

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    O que aconteceu? Décadas de hegemonia cultural esquerdista; de ataques à família, à liberdade, à tradição e ao bom senso; de doutrinação marxista nas escolas e universidades; de coitadismo e ativismo judicial; de aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente; da glamourização do crime e do uso de drogas; das novas teorias pedagógicas; de infiltração esquerdista na literatura, cinema, nas redações do jornais, televisão e no meio artístico; de Paulo Freire como patrono da educação brasileira. Anos moldando a cabeça da juventude e qual foi o resultado? Caos e violência!
    Aí vêm os hipócritas que defendem estas porcarias e ainda têm a cara de pau de falar que a culpa é do capitalismo, da CIA, da direita e do neoliberalismo.

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