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O terremoto do Nepal e o susto da repórter Global

Matéria publicada em 1 de maio de 2015, 14:34 horas

 


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Jornalistas precisam estar preparados para tudo, até terremoto e tsunami, jornalismo é uma profissão de risco, ele exige que o profissional esteja pronto a encarar as maiores tragédias

A equipe do programa “Planeta Extremo”, da Rede Globo, teve uma oportunidade raramente concedida a jornalistas. Estar no meio de um terremoto grau 7 na escala de Richter. Ao contrário de furacões e tornados os terremotos são eventos imprevisíveis. Não dá para pautar uma matéria e dizer, agora vamos cobrir o terremoto. Mas a sorte estava lá, ao lado daquele pessoal da Globo que adora uma caminhada estafante. Eles estavam no Nepal quando a placa tetônica da Índia resvalou por baixo da placa eurasiana. E foram à única equipe de TV do mundo a transmitir a tragédia no momento em que acontecia.

Jornalismo, uma profissão de risco

Infelizmente não estavam preparados para isso. No dia seguinte a repórter do programa, Carol Barcellos estava no pátio da embaixada brasileira em Katmandu, entrevistando a embaixadora quando aconteceu um choque secundário. Que chegou a 6.0 na escala de Richter, o que por si só já é um abalo devastador. E o que fez a nossa intrépida repórter? Saiu correndo, gritando e precisou ser contida pelo segurança da embaixada. Parece que as expedições a geleiras e vulcões não a prepararam para uma sacudida do solo.
No caso a jornalista não estava correndo risco de vida. Ela estava no pátio da embaixada, em Katmandu, que fica em um vale. Não havia a menor possibilidade dela ser atingida por uma avalanche ou pelo desmoronamento de um prédio. Era uma oportunidade histórica de pegar o microfone, se equilibrar diante da câmara e dizer para o mundo: “A terra está tremendo de novo aqui em Katmandu, é um abalo bem forte, muito parecido com o de ontem”. Os colegas da Carol na CNN e na BBC dariam alguns anos de vida por uma oportunidade dessas. Mas a jornalista largou o microfone e saiu correndo espavorida. O vídeo vai bombar na internet e será outro daqueles momentos inesquecíveis do jornalismo global. Com direito a reprise na retrospectiva do ano.
Pânico semelhante só o da correspondente em Londres, Cecilia Mallan, durante a cobertura dos atentados em Paris. Ela estava visivelmente apavorada e se alguém chegasse por trás, e estourasse um saco de papel, a moça ia desmaiar ao vivo e a cores. Mas é preciso se acostumar, afinal o jornalismo é uma profissão de risco. Ele exige que o profissional esteja pronto a encarar as maiores tragédias e o lado mais negro da natureza humana. Somos humanos, claro que somos, mas precisamos manter a calma. Em casa, de noite, ou no quarto do hotel é permitido chorar ou tremer de medo. Na hora da cobertura nunca. Imagine o que aconteceria com essas moças da Globo se um dia eles tiverem que cobrir uma guerra.

Previsão já alertava sobre terremoto

Voltando ao terremoto, o número de mortos, enquanto escrevo essa crônica, é estimado em dez mil. Especialistas em sismologia já previam que o Nepal ia sofrer um abalo em larga escala, só não sabiam quando. Em 2013 o sismologista indiano Vinod Kumar Gaur deu uma entrevista a um jornal asiático dizendo: “Os cálculos mostram que já existe energia acumulada suficiente para produzir um abalo de magnitude 8, não sei quando, pode acontecer amanhã”. Mas o governo do Nepal achava que a região não ia ter um grande terremoto, porque ele já tinha acontecido em 1934. Se entendessem um pouco de geologia saberiam que isso não é garantia nenhuma.

Porque os terremotos acontecem?

Terremotos acontecem porque a Terra é um planeta geologicamente ativo. O que chamamos de terra firme é um conjunto de placas tectônicas flutuando em cima de um mar de lava. Essas placas deslizam e colidem umas com as outras. No caso do Nepal, o país fica em cima do ponto de contato entre duas placas. A Eurasiana e a Indiana. Na verdade foi a colisão dessas placas que criou o monte Everest, a maior atração turística lá daquelas bandas. E em um lugar assim os abalos sísmicos são inevitáveis. Infelizmente o governo do Nepal não estava preparado. Que nem a moça da Rede Globo.

Jorge Luiz Calife
jorge.calife@diariodovale.com.br


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Um comentário

  1. Avatar

    Por que se dar mais atenção à reação de uma repórter que ao evento flagrado pelas câmeras, esse sim digno de nota? Por que simplesmente não elogiar a imprensa brasileira por estar lá fazendo a cobertura? Quem presta mais atenção no figurino que no ato é fofoqueiro, e acho que isso vc não é…

    Já percebi que vc tem um certo ranço quando fala de Pinheiral ou do Brasil, principalmente nas comparações com seus pares, mas tenha a certeza absoluta de que uma repórter estadunidense ou europeia reagiria igual ou pior sob as mesmas circunstâncias. Mulher é emotiva por natureza e a maioria delas reage dessa forma impulsiva, seja ao avistar uma barata ou durante um tremor de terra. O profissionalismo e o alto controle desaparecessem em situações de risco. O instinto grita mais forte que a capacidade analítica da razão, ela simplesmente não tinha capacidade de perceber na hora que não havia teto pra cair na cabeça ou que o sítio era seguro…

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