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Olivetti Lettera 32

Matéria publicada em 13 de dezembro de 2019, 13:49 horas

 


Nasci em uma época em que somente existia computador em filmes, como em “2001: Uma Odisseia no Espaço”, um filme de ficção científica dirigido por Stanley Kubrick e lançado em abril de 1968. Essa tecnologia, tão imprescindível atualmente, começava a dar as caras. A partir desse filme, que fez história, tivemos uma ideia do que nos reservaria o futuro, sempre incerto.
Celular nem em sonho! O que havia eram telefones fixos e orelhão, que era, até então, apenas uma orelha grande. Diante disso, o que nos permitia a comunicação com outra pessoa era feito à mão, através da escrita, fazendo uso de caneta ou de lápis.
Mas havia uma opção que não era para todos os mortais. Eram necessários muitos Cruzeiros para se comprar uma máquina datilográfica manual, porque a elétrica ainda não havia sido inventada. Na verdade, a invenção da máquina de escrever manual se deu através de Henry Mill, em 1774. O italiano Pellegrino Turri introduziu, em 1888, o sistema de teclado, aperfeiçoando, assim, o produto; mais à frente, em 1843, o mecânico norte-americano Carlos Thuber criou um modelo com maior rapidez de escrita.
Primeiro, surgiram as manuais; algum tempo depois, as eletromecânicas, com base em funcionamento mecânico, o qual era auxiliado por um motor elétrico que ajudava a diminuir o esforço e dar maior agilidade à escrita. Mais à frente, surgiram as eletrônicas, com acionamento dos tipos em margaridas ou esferas. Essas máquinas eram capazes de alcançar maior velocidade, bem como uma melhor qualidade de impressão.
A empresa Remington, que até então só se dedicava à produção de armas, foi a primeira a investir por completo na produção de máquinas de escrever, já com a configuração muito próxima da que se conhecia em todo o mundo. A partir de 1880, as máquinas de escrever passaram a ser adotadas pelo mercado corporativo; era o olhar voltado para a preparação de documentos comerciais.
Por aqui, a norte-americana Remington foi a primeira a se instalar no país, mais precisamente no Rio de Janeiro, em 1948; logo a seguir, a sueca Facit, em Minas Gerais, no ano de 1955; e, por último, a italiana Olivetti, que começou a produzir suas máquinas em São Paulo a partir de 1959. Ainda surgiram, na esteira do sucesso das máquinas datilográficas, a Precisa e depois a IBM, está última totalmente voltada para a produção de máquinas eletrônicas para escritórios.
Meu universo de estudante e depois profissional começou em 1975, a bordo de uma Olivetti Lettera 32, presente de minha mãe. Era uma máquina de escrever portátil criada por Marcelo Nizzoli, em 1963, como sucessora da popular Olivetti Lettera 22. A 32 era a máquina mais popular entre os jornalistas e estudantes daquela época.
Nas teclas dessa máquina antológica e que guardo até hoje nos meus acervos profissionais, escrevi muitos dos meus trabalhos escolares; depois, a partir de 1983, comecei minhas incursões datilográficas escrevendo meus livros. Em 1988, através das teclas dessa saudosa máquina, nasceu a minha Editora, que em 2020 completará 32 anos de fundação.

A partir de 1880: Máquinas de escrever passaram a ser adotadas pelo mercado corporativo

Histórias

Ainda em 1983, presenciei já que trabalhava ao seu lado, o místico escritor Paulo Coelho escrever em sua Olivetti Lettera 32 elétrica (a dele era top de linha) músicas, artigos e livros, estes principalmente, que se tornaram os mais vendidos em todo o mundo. Igualmente surpreso por saber que muitos dos principais comerciais da TV, como os da série Bombril e do primeiro sutiã, aquele que “a gente nunca esquece”, os quais se tornaram emblemáticos, e que nasceram da cabeça criativa de Washington Olivetto foram escritos em uma Olivetti Lettera 32. Já o escritor Cormac McCarthy usou um mesmo modelo comprado em 1963 para escrever todas as suas obras de ficção, roteiros e romances.
Essa máquina e tantas outras trouxeram ao mundo grandes textos jornalísticos, assim como letras de músicas e livros de autores consagrados, como: Jorge Amado, Agatha Christie, Nelson Rodrigues, Alfred Hitchock, Clarice Lispector, Erico Verissimo e tantos outras imortais personalidades da nossa arte.
A inesquecível Olivetti Lettera 32 e similares, hoje obsoletas, marcaram a história do mundo, pois foi por meio delas que a humanidade produziu seus grandes textos. Com o advento dos computadores, que hoje dominam o planeta, elas saíram de cena, porém é impossível nos esquecermos dessas simpáticas máquinas, vendidas aos montes nas cores vermelha, azul e verde, e pesavam quase seis quilos. Elas certamente ficarão para sempre na lembrança e no imaginário daqueles que tiveram o prazer de trabalhar com elas, assim como eu que, anos a fio, contando com sua singela precariedade, desenvolvi um dedilhar febrilmente em suas inesquecíveis teclas. Elas indiscutivelmente eram as melhores máquinas que se podia oferecer, sempre com enorme profissionalismo, e que hoje são apenas saudade.

 

 


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Um comentário

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    Texto notável. É desse tipo de escritor que o DV precisa. Mostrar à galera de hoje como foi o nosso aprendizado(Meu, particularmente) . Parabéns Artur, mais um artigo que dá gosto de ler.

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