Os brasileiros e o encanto pelo fascismo

by Diário do Vale

 

Nesses tempos bizarros em que vivemos, é comum vermos os analistas políticos tentando analisar o fenômeno do crescimento da extrema direita no Brasil. Mas o fascínio de uma parte da população pelos regimes autoritários e pelas ideias da extrema direita não é novidade nenhuma. Na década de 1930 tivemos o movimento Integralista criador pelo escritor, jornalista e teólogo Plínio Salgado. Que copiava muita coisa do fascismo italiano, ainda que tentasse se dissociar do nazismo alemão. Afinal Salgado não compactuava com os ideais racistas de Adolf Hitler.

Observando o entusiasmo com que o povo da nossa região apoia o bolsonarismo e a extrema direita me traz na lembrança as histórias que minha mãe contava sobre o movimento Integralista em Pinheiral e adjacências. Os homens vestiam a camisa verde, saudavam o grande líder e falavam em Deus, na Pátria e na Família. As moças aderiam ao movimento para estar ao lado dos seus namorados. A única coisa diferente era a falta de apoio da igreja. Afinal, naqueles tempos o Brasil era eminentemente católico e os padres evitavam, sabiamente, se envolver em política.

Tudo foi uma festa para os integralistas, até o presidente Getúlio Vargas dar o golpe de estado em 1937. Plínio Salgado apoiou a ditadura de Vargas, porque o presidente, feito ditador, tinha lhe prometido o cargo de Ministro da Educação. Mas dado o golpe o ditador abandonou o antigo aliado e dissolveu a Ação Integralista. Inconformados os integralistas pegaram em armas e tentaram tomar o Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, então sede do governo. Muitos morreram na ação e outros acabaram na cadeia. Plinio Salgado passou uns tempos exilado em Portugal, então sob a ditadura de Salazar. Quando voltou ao Brasil, fundou um novo partido e acabou sendo eleito deputado em 1958.

Durante o golpe militar de 1964 ele se filiou a Arena, o partido que mais apoiava o governo dos generais. Antes tinha sido um dos oradores da famosa Marcha da Família com Deus pela Liberdade que fez oposição ao governo de João Goulart. Como boa parte da classe média e do empresariado, os integralistas receberam a ditadura militar de braços abertos. Afinal tinha tudo a ver com os ideais que eles defendiam. Plinio Salgado morreu em 1975, mas não foi o fim do integralismo.

Em 2005, em pleno século 21, foi criada a Frente Integralista Brasileira, que tenta manter as antigas ideias do movimento. Atualmente os membros da FIB tem se aliado ao PTB e tentado participar do governo. Ainda que os integralistas critiquem o bolsonarismo pela aproximação com os Estados Unidos do Donald Trump e pelo liberalismo econômico. Como se vê nada de novo por aqui, nem mesmo o lema do Deus, Pátria e Família.

O que me faz lembrar um personagem do filme de ficção científica “O Abismo Negro”, da Disney. Depois de passar 30 anos perdido no espaço ele encontra viajantes da Terra e pergunta como vão as coisas no nosso mundo. Ao ouvir um resumo ele diz: “Novos nomes, mesmas notícias.”

 

Poster: Os integralistas também queriam salvar o Brasil

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2 comments

limpeza 29 de outubro de 2022, 11:19h - 11:19

Texto impecável, é triste demais ver que o país não aprende.

Paulo Roberto 29 de outubro de 2022, 10:42h - 10:42

A correção a ser feita é que o ataque chamado de Intentona Integralista foi na verdade ao Palácio Guanabara, na época moradia do Presidente da República.
Já na ditadura de 64 não se admitia oposição ao regime militar e chamavam o MDB de apenas uma oposição consentida ao governo, desde de que não tentasse ser maioria, pois as regras eleitorais mudavam conforme em cada eleição para o legislativo, aumentasse a possibilidade da Arena ser reduzida a menos de 2/3 das cadeiras no Congresso Nacional.

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