quarta-feira, 8 de abril de 2020

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / Os ideais de uma juventude perdida

Os ideais de uma juventude perdida

Matéria publicada em 1 de novembro de 2016, 13:30 horas

 


Jovens querem pertencer a facções criminosas; nossos modelos de comportamento eram muito influenciados pelos filmes

wp-coluna-espaco-aberto-jorge-calife

Os muros e portões da cidade de Pinheiral andam cheios de siglas de facções criminosas. É um monte de CVs e TCPs que são pichados de madrugada por menores de idade. Teria a pacífica Pinheiral se tornado alvo do crime organizado? Não, são apenas os garotos das famílias de baixa renda que têm como modelo de comportamento os bandidos dos morros do Rio de Janeiro. E sonham em um dia serem membros de uma facção criminosa, dessas que aparecem nos noticiários da TV.

Tenho um vizinho que é professor de biologia em uma escola de segundo grau. Ele conta como os garotos da sua turma vivem exibindo essas siglas dos bandidos que admiram. Ele tenta ignorar e levar a coisa na brincadeira. Outro dia ouvi uma mãe preocupada, comentando com uma amiga no ônibus, que o filho quer “entrar para uma facção”.

Sinal dos tempos. Já fui criança e adolescente, há muito, muito tempo atrás. E minha geração não sonhava em virar bandido. No máximo, em um momento extremo de pirraça e desilusão pensávamos em fugir de casa e entrar para a Legião Estrangeira. E defender a França em um forte, lá no meio do deserto.

Nossos modelos de comportamento eram muito influenciados pelos filmes que víamos no cinema e na televisão. Como os jovens de hoje. A diferença é que os filmes de antigamente tinham uns heróis mais românticos e menos cínicos. Como o Eliot Ness, que tentava defender a cidade de Chicago dos homens do Al Capone, com apenas um punhado de policiais federais.

Ness era o símbolo do policial honesto e incorruptível. E superelegante. Ele sempre ia trabalhar usando chapéu e roupas impecáveis. E enfrentava gangsters armados de metralhadoras Thompson com apenas uma pistolinha calibre 38.

Os policiais verdadeiros, de hoje em dia, vivem se queixando do armamento pesado usado pelos bandidos. Eles não conheceram o Eliot Ness, que nunca se queixou da sua pistolinha de araque. Ness era o herói do seriado “Os Intocáveis”, que passava as dez horas da noite e nossos pais proibiam que nós crianças, ficássemos acordados para assistir. Mas assistíamos as chamadas, que passavam de tarde. E tinham os melhores momentos de cada episódio. Com um bocado de imaginação criávamos o resto. Mas o policial impecável de Chicago não era o nosso único herói.

Também sonhávamos em ser pilotos de jatos supersônicos, comandantes de submarino nuclear, e astronautas, claro! Afinal, a corrida espacial estava começando e as lojas viviam cheias de brinquedos espaciais.

Outra de nossas “profissões de sonho” era ser arqueólogo. Ainda não existiam os filmes do Indiana Jones, mas as histórias em quadrinhos já tinham popularizado a figura do arqueólogo. Sujeitos que viajavam para os recantos mais remotos do planeta, enfrentando desertos escaldantes e florestas tropicais cheias de índios. Para desenterrar ruínas de civilizações perdidas. Isso sim era uma profissão romântica.

Fico surpreso que poucos jovens da minha geração tenham seguido a carreira militar. Afinal, alguns dos seriados do nosso tempo eram verdadeiros comerciais das forças armadas. Sentávamos diante da TV, olhando embasbacados para o coronel Steve Canyon pular para dentro da cabine do seu F-102 Delta Dagger supersônico e erguer o polegar para os mecânicos, dando ordem para se afastarem. Ou o capitão Lee Crane girar o periscópio do submarino Sea View e avisar: “Tudo livre, mergulhar! Mergulhar!”.

Acho que o que frustrou nossos sonhos infantis foi a eterna penúria das nossas forças armadas. A gente sabia que se entrasse para a aeronáutica ia voar em um Catalina ou em um DC-2, nunca em um Delta Dagger supersônico. E os submarinos da nossa Marinha eram sobras da Segunda Guerra Mundial. Com eles nunca iríamos emergir no polo norte como o almirante Nelson. Mas valia a pena sonhar.

 

 Herói: Eliot Ness e sua ridícula pistolinha


Herói: Eliot Ness e sua ridícula pistolinha

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br

 

 

 


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)

7 comentários

  1. Avatar

    Eram o futuro do Brasi, agora são o presente!

  2. Avatar

    verdade molecada quer ser bandido,é o sinal do brasil piorando cada vez, mais e ce esta molecada continuar assim o crime tende á piorar cada vez mais e mais.

  3. Avatar

    A ilustríssima e brilhante geração do Donald Trump do Brejo já foi jovem. Era a juventude que deu certo. O que temos hoje é parte do seu legado. Parabéns, viu?

  4. Avatar
    Emissário do Mestre

    Jorge Calife, parabéns pela análise tão bem fundamentada, essa é a parte da história que é varrida pra baixo do tapete, o papel destrutivo da mídia ocidental de muitos anos pra cá, que humanizou o mau e desumanizou os que defendem a sociedade, e tem o governo também que só dá mau exemplo…enquanto isso serão construídas mais cadeias!

  5. Avatar

    Jovens de família humildes, desestruturadas. Muitas vezes não há caminho mais fácil para o dinheiro, a fama e o reconhecimento. O mais difícil eles não podem ou simplesmente não querem, pois contraria sua natureza, seu meio ambiente… Há sim aqueles que pretendem ser esportistas, militares, policiais, comerciantes, seguir qualquer outra profissão, mas esses são só humildes, têm uma família sólida e um caráter forjado em bons exemplos desde pequenos. Apesar da miséria material, têm princípios e sentem vergonha…

    • Avatar

      Graças a Deus embora não pareça a maioria e do bem .O estereótipo das classes menos abastardas e que dá essa impressão de que a maior parte e do mal ,alias de onde vem o gari ,o motorista , o policial , o banconista do bar , a empregada (quase da família) , o porteiro , o professor , o metalurgico, o vigia entre muitas outras profissões?

    • Avatar

      Porém não discordo que a juventude esta cada vez mais perdida , eu mesmo vejo isso bem de perto

Untitled Document