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Os incêndios, a mentira e o presidente

Matéria publicada em 6 de setembro de 2019, 09:00 horas

 


Desprezo pela verdade levou a crise entre o Brasil e a França

Dados recentes, divulgados pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostram que o fogo já queimou 29.994 quilômetros quadrados de floresta amazônica, o equivalente a 4,2 milhões de campos de futebol. A área destruída é quatro vezes maior que a registrada em agosto de 2018. Além do número maior, as imagens de satélite mostram que cada foco de incêndio destruiu uma área maior de floresta, oitocentos metros quadrados contra 580 no ano passado. Foi toda essa devastação inédita que levou o presidente da França Emannuel Macron a chamar o brasileiro Jair Bolsonaro de mentiroso no dia 22 de agosto. Por ter prometido numa reunião anterior que iria defender o meio ambiente.

Bolsonaro diz que não é mentiroso, e exige uma retratação do líder francês. Toda essa questão da verdade e da mentira produziu um interessante paradoxo na Grécia clássica. Naquela época no ano 600 a.C, a ilha de Creta, no mar Mediterrâneo, era o lar de uma importante civilização. E o cretense Epimênides teria afirmado que todos os cretenses eram mentirosos, mas se Epimênides é cretense ele também é mentiroso. Se for mentiroso o que ele diz é falso e os cretenses dizem a verdade. Mas se o que Epimênides diz é verdade ele está invalidando o que disse porque falou a verdade.

No caso de Jair Bolsonaro não é preciso mergulhar em nenhuma armadilha lógica para constatar que o presidente brasileiro faz afirmações que se revelam inverdades. E afirmar uma inverdade é quase a mesma coisa que mentir. Vejamos o caso do Instituto de Pesquisas Espaciais, que aconteceu no início da atual crise ambiental. Em abril os dados do instituto apontaram um aumento de 88% no desmatamento da Amazônia. O presidente contestou os dados, disse que eram falsos e que o Inpe, um dos institutos de pesquisa mais sérios do Brasil, estava ligado as Ongs, as Organizações Não Governamentais. Episódio que levou a demissão do diretor do Inpe, Ricardo Galvão, no dia 7 de agosto.

Algumas semanas depois a NASA, agência espacial americana, que é órgão do governo Donald Trump, confirmou os dados de Inpe. Mostrando que as acusações do presidente não tinham fundamento. No dia  19 de agosto as queimadas se alastraram, e a fuligem atingiu a cidade de São Paulo, provocando uma nuvem negra que assustou os paulistas. E Bolsonaro declarou que os incêndios tinham sido provocados pelas Ongs, em protesto pela perda de apoio da parte do governo brasileiro.

Com o agravamento dos incêndios a polícia chegou às áreas queimadas e começou a descobrir os culpados. Gente como o fazendeiro Geraldo Daniel de Oliveira, que se encontra foragido. Ele é acusado de derrubar 20 mil hectares de floresta na área de proteção ambiental Trunfo do Xingu. Segundo o delegado José Humberto de Melo o grupo liderado por Oliveira já teria incendiado mais de 5 mil quilômetros de mata. E não existe nenhum vínculo entre este fazendeiro e as ONGs de defesa do meio ambiente como o Greenpeace.

Outro caso que chama a atenção foram as ameaças de morte feitas contra o jornalista Adecio Piran do jornal “Folha do Progresso”, no Pará. Piran denunciou o plano de pecuaristas e produtores rurais instalados nas margens da rodovia BR-163 que organizaram “o dia do fogo” incendiando a floresta no dia 10 de agosto. A polícia já identificou um policial aposentado, líder do grupo “Direita Unida de Novo Progresso” como autor das ameaças. Nenhuma participação de ONGs, seja nos incêndios, seja nas ameaças a imprensa foi constatada.

Resumindo, nos dois casos, nas acusações contra o Inpe e contra as organizações não governamentais, o presidente estava errado. E propagou inverdades.

O presidente também acusa Emannuel Macron de querer “internacionalizar a Amazônia”, mas em abril o próprio presidente Bolsonaro afirmou que tinha proposto uma parceria com o presidente Donald Trump para a exploração da Amazônia. Disse Bolsonaro: “Quando estive com o Trump conversei com ele que quero abrir para ele (Trump) explorar a região amazônica em parceria.” Ou seja, a ideia de abrir a Amazônia para os estrangeiros é de Bolsonaro e não de Macron.

Como dizia o meu professor de álgebra, “quod erat demonstratum”

 


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