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Os países mais felizes do mundo

Matéria publicada em 30 de julho de 2019, 10:18 horas

 


Saiu a lista dos países mais felizes do mundo. E dos mais infelizes também. A prestigiosa ONU assina o estudo World Happiness Report, endossado por um time de pesquisadores das mais renomadas universidades do planeta, como Columbia University, London School e Vancouver School of Economics.

Costumo suspeitar desses rankings mágicos que tentam quantificar o incontável ou arrumar fórmulas concretas pra conceitos pra lá de abstratos. Mas dado o estrelato acadêmico dos realizadores, vamos conceder a devida dose de credibilidade.

Nos extremos positivo e negativo das 156 nações pesquisadas, sem muitas surpresas. Encabeçam a lista países europeus ricos e de reconhecida qualidade de vida, como Finlândia, Dinamarca, Noruega, Suíça, Holanda e Suécia e fecham o ranking alguns dos países mais pobres e problemáticos do globo, como Sudão, Afeganistão, Tanzânia, Ruanda e Iêmen.

Já sabíamos que os nórdicos têm uma qualidade de vida bárbara e que não é possível ser feliz onde se morre de fome.

A julgar pela análise desses extremos fica quase impossível não relacionar dinheiro – ou progresso material, pelo menos – com felicidade. É mais ou menos isso, mas não apenas isso. Desenvolvimento econômico é um fortíssimo preditivo da felicidade de um país, mas não o único. A Síria, por exemplo, não está (ainda) no rol dos países mais pobres, mas mergulhada numa sangrenta guerra civil, encabeça o amargo 149º lugar, ladeada por Botsuana, Haiti e Malawi. O México, por outro lado, está na posição 23, uma à frente da rica e poderosa França.

E o Brasil? Repleto de problemas, mas cheio de felicidade. Estamos na 32ª posição. Já estivemos melhor, mas para um ranking de 156 países é uma ótima performance, e melhor ainda por estarmos à frente da Argentina, na posição 47.

Seja como for, se é difícil definir qual é a felicidade média de um indivíduo, imagine de um país. Pesquisando com meus botões, descobri que quem começou o enrosco foi o Butão, um pequeno país asiático localizado nas montanhas do Himalaia. Em 1972, o Rei Jigme Singye Wangchuck, incomodado com os indicadores do país, declarou que o PIB (Produto Interno Bruto) não tinha nenhuma importância, o que valia mesmo era o FIB, a Felicidade Interna Bruta, inspirada em valores espirituais e holísticos mais condizentes com a cultura Budista daquelas plagas. Questão de perspectiva.

– Meu PIB é pequeno, mas olha o tamanho do meu FIBÃO!

Medir felicidade é mesmo tarefa ingrata. Tem gente que só fica feliz quando o Flamengo ganha (mesmo que o oficial de justiça esteja à porta penhorando a geladeira), tem mulher que só fica feliz com um sapato novo, tem gente que acorrenta sua felicidade a uma única pessoa, tem infeliz que só é feliz guardando dinheiro enquanto outros só o são esbanjando. E ainda têm os masoquistas, tipos mais estranhos, que só são felizes quando estão infelizes.

Felicidade é assim mesmo, difícil de obter, mais ainda de explicar, pra cada um significa uma coisa. Um conceito individual, mas socialmente formado. Fico feliz quando recebo um aumento, mas se meu colega de mesa ganha um aumento maior, fico mais infeliz do que antes do aumento. Há estudos com esportistas que mostram que quem ganha medalha de bronze é mais feliz do que quem ganha medalha de prata, pois este fica se torturando com a ideia de que “perdeu o ouro”.

Montesquieu dizia que não seria difícil ser feliz, mas o problema é que queremos ser mais felizes do que os outros, e como sempre achamos os outros mais felizes do que eles realmente são, nunca estamos felizes.

Felicidade é uma coisa que nos escapa pelas mãos, como um sonho bom que acaba assim que você o percebe. Uma sensação fugidia, impossível de aprisionar. E se aprisionar é porque felicidade nunca foi, pois a felicidade é livre. Perseguir a felicidade é inútil, a antessala da infelicidade.

E do ideal poético e contemplativo do passado, parece que estamos adentrando a era da escravidão da felicidade. Temos a obrigação de sermos felizes, saudáveis, bem sucedidos. Doze metas por dia, cinco orgasmos por noite, sete hábitos das pessoas altamente eficazes. Um colosso de responsabilidades cada dia mais difícil suportar.

Então desencane, aproveite o melhor da sua vida, esqueça a invencível competição com os outros e viva em paz com seus valores que a felicidade chegará sem você perceber.

Se quiser uma ajudinha, mude para um desses países nórdicos da lista, que pelo jeito oferecem mais instrumentos para ser feliz.

Mas vá agasalhado, porque faz um frio do cão.

Alexandre Correa Lima é Diretor da Mind Pesquisas e ministra palestras em todo o Brasil, abordando temas como inovação, criatividade, longevidade e tendências. É autor do livro “Pesquisas de Opinião Pública”. Visite www.alexandrecorrealima.com.br e as redes sociais do autor.

 


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2 comentários

  1. Avatar

    Felicidade é um estado de espírito. Quem está em paz está feliz. Feliz com o seu flamengo mesmo tomando a sua geladeira ou celebrando o volta Lula mesmo sofrendo e não enxergando outros na mesma situação.

    O interessante que entre os 10 países, 6 são monarquias e os outros 4 misturados são repúblicas parlamentaristas ou não república nem monarquia como a Suécia. Em 2017 eram 7 monarquias.

    As monarquias tem características de ter um rei ou rainha que conduzem o povo visando gerações equilibradas, e assim mantêm a paz tendo como consequência a felicidade. Felicidade e dinheiro são de extremos opostos. Há os ricos com felicidade passageira e há tbm os pobres com felicidade a perder de vista.

    No Brasil como se manter em paz abrindo os jornais e vendo os POLITIQUEIROS achando que são os donos do governo e do nosso dinheiro?

  2. Avatar

    Não sei quais são os critérios adotados, mas certamente não servem para aferir grau de felicidade. Isso é uma coisa que se vê no rosto das pessoas. Os escandinavos são sisudos, ao passo que os moçambicanos estão sempre sorrindo e festejando em sua pobreza material… Não precisa ir longe, basta interagir aqui com alguém da classe média e com um peão de chão de fábrica… Como diz o ditado, o dinheiro não traz felicidade. No máximo, ajuda a trazer…

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