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Para o trem, quero descer

Matéria publicada em 19 de outubro de 2019, 07:00 horas

 


Solução de problemas decorrentes do desenvolvimento tecnológico consiste em uma questão de adaptação do modelo capitalista

A música trem bala “viralizou” recentemente no Brasil. Por quê? Se a arte é mesmo a manifestação do inconsciente coletivo? Jung estava certo? Será? “Pois a vida é trem bala, parceiro, e a gente é só passageiro, prestes a partir”. Não é mesmo?
O mundo evoluiu, ponto. Essa máxima é assustadora para quem tem mais de 50 anos. Sempre me pergunto se vou dar conta deste mundo, se estou vivendo adequadamente na contemporaneidade. Isso me faz rir, mas também me assusta.
Com as revoluções industriais e o crescimento do capitalismo, podemos usufruir de uma série de benefícios à humanidade como um todo, desde uma maior produção de alimentos até o surgimento de tecnologias de ponta, as quais, progressivamente, tornaram a vida humana infinitamente melhor se comparada ao passado recente. Contudo, esse mesmo cenário se mostra responsável pelo agravamento da poluição mundialmente e pelo estímulo do consumismo, o qual propicia uma sociedade cada vez menos harmônica e cada vez mais depressiva. Nessa perspectiva, pode-se verificar que o desenvolvimento tecnológico constitui-se a maior criação do homem, só devemos aprender a como lidar com seus efeitos, os quais, muitas vezes se mostram nocivos a nós mesmos, direta e indiretamente.
Em uma primeira abordagem, vale ressaltar que sem as tecnologias não haveria a produção de comida atual, a qual se denota mais do que suficiente para alimentar o mundo todo, todavia, um terço dela é desperdiçada anualmente. No passado, havia o temor de que um dia os alimentos se tornassem escassos. Esse medo se baseava na teoria de Thomas Malthus, intelectual que afirmava que devido ao crescimento urbano, presenciado no Fim da Idade Média, o índice populacional cresceria em progressão geométrica enquanto o a produção de alimentos em progressão aritmética. Na década de 1960, entretanto, essa teoria foi completamente desbancada pela Revolução Verde, que proporcionou o surgimento de diversas máquinas e de insumos agrícolas, que desencadearam a produtividade da Terra. Dessa forma, o campo depende fortemente das tecnologias provenientes da cidade, o que torna impossível voltarmos a uma vida mais simples.
Todo esse desenvolvimento, todavia, também permitiu a vinda de alguns problemas, como a poluição excessiva e o consumismo. Zygmunt Bauman, autor da teoria da Modernidade Líquida, aponta que as sociedades encontram-se fortemente marcadas pelo individualismo crescente, o que gera superficialidade e transitoriedade em relacionamentos interpessoais. Nessa perspectiva, pode-se atribuir parte desse quadro ao consumismo, fruto da necessidade de se sustentar o sistema capitalista, o qual atua estimulando um círculo vicioso de ansiedade e de frustração, no qual o indivíduo desse mundo contemporâneo busca a autorrealização em produtos materiais, o que potencializa as doenças do século XXI: depressão, ansiedade e estresse, por exemplo.
Outro aspecto, ainda nesse viés, encontra-se no livro “A sociedade do cansaço”, de Byung-Chul Han, no qual afirma que a sociedade contemporânea é a sociedade do desempenho. Exigimos demasiadamente de nós mesmos, como se fossemos máquinas, exigimos uma performance sobre humana. Isso nos estressa, nos exauri, nos cansa, nos mata. As novas tecnologias ditam, hoje, o nosso ritmo, isso é perverso, pois somos animais, não somos máquinas.
Percebe-se, portanto, que a solução de problemas decorrentes do desenvolvimento tecnológico consiste em uma questão de adaptação do modelo capitalista. Sob esse prisma, Aristóteles asseverava que, para se alcançar a felicidade, o ser humano deveria buscar um meio termo entre o excesso e a falta, a mediania. De mesmo modo, devemos buscar um equilíbrio para atenuar tais problemas. Afinal, tudo tende ao equilíbrio.
Talvez permitir olhar um pouco mais pela janela do nosso trem, a apreciar um pouco mais a paisagem, pois a vida é trem. Se bala ou a vapor, só depende de gente.
Boa Leitura,
TMJ!

Raphael Haussman. É professor, Coach, consultor e apaixonado por educação e desenvolvimento humano e, ainda, pai da Raphaela e do Theo.

Nosso dicionário:

*A Música Trem bala “viralizou” – A música “Trem Bala”, de autoria de Ana Vilela, foi um grande fenômeno e alcançou grande popularidade.
*Inconsciente coletivo – O inconsciente coletivo não se desenvolve individualmente, ele é herdado. É um conjunto de sentimentos, pensamentos e lembranças compartilhadas por toda a humanidade. É um reservatório de imagens latentes, chamadas de arquétipos ou imagens primordiais, que cada pessoa herda de seus ancestrais. A pessoa não se lembra das imagens de forma consciente, porém, herda uma predisposição para reagir ao mundo da forma que seus ancestrais faziam. Sendo assim, a teoria estabelece que o ser humano nasce com muitas predisposições para pensar, entender e agir de certas formas.
*Jung – Carl Gustav Jung (Kesswil, na Turgóvia, Suíça, 26 de julho de 1875 — Küsnacht, em Zurique, Suíça, 6 de junho de 1961) foi o psiquiatra suíço responsável por fundar a psicologia analítica, que explora a importância da psique individual e sua busca pela totalidade.
*Revoluções industriais – Foram conjuntos de fatores que revolucionaram a forma de produção humana e, consequentemente, alteraram radicalmente as relações sociais. Entre 1760 a 1860, a 1ª Revolução Industrial ficou limitada, primeiramente, à Inglaterra. Houve o aparecimento de indústrias de tecidos de algodão, com o uso do tear mecânico. A segunda etapa ocorreu no período de 1860 a 1900, ao contrário da primeira fase, países como Alemanha, França, Rússia e Itália também se industrializaram. O emprego do aço, a utilização da energia elétrica e dos combustíveis derivados do petróleo, a invenção do motor a explosão, da locomotiva a vapor e o desenvolvimento de produtos químicos foram as principais inovações desse período. Alguns historiadores têm considerado os avanços tecnológicos do século XX e XXI como a terceira etapa da Revolução Industrial. O computador, o fax, a engenharia genética, o celular seriam algumas das inovações dessa época.
*Thomas malthus – Thomas Robert Malthus (Rookery, perto de Guildford, 14 de fevereiro de 1766 — Bath, 23 de dezembro de 1834) foi um economista britânico. É considerado o pai da demografia por sua teoria para o controle do aumento populacional, conhecida como malthusianismo.
*Idade média – A Idade Média é um período da história da Europa entre os séculos V e XV. Inicia-se com a Queda do Império Romano do Ocidente e termina durante a transição para a Idade Moderna. A Idade Média é o período intermédio da divisão clássica da História ocidental em três períodos: a Antiguidade, Idade Média e Idade Moderna, sendo frequentemente dividido em Alta e Baixa Idade Média.
*Revolução verde – Revolução Verde é o nome dado ao conjunto de iniciativas tecnológicas que transformou as práticas agrícolas e aumentou drasticamente a produção de alimentos no mundo. A Revolução Verde teve início na década de 1950 no México. Seu precursor foi o engenheiro agrônomo Norman Borlaug, que desenvolveu técnicas químicas capazes de dar maior resistência às plantações de milho e trigo, além de otimizar os métodos de produção agrícola.
*Zygmunt Bauman – Zygmunt Bauman (Pozna?, Polônia, 19 de novembro de 1925 – Leeds, Reino Unido, 9 de janeiro de 2017[2]) foi um sociólogo e filósofo polonês, professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia. Ficou mundialmente conhecido por sua teoria da “Modernidade Líquida”.
*Modernidade líquida – Conceito cunhado pelo filósofo e sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, o qual afirma em suas obras que vive-se em um tempo de inconstância no qual nada é feito para durar. O autor compara a inconstância das relações atuais aos aspectos de fluido, por isso o termo “Modernidade Líquida”.
*A sociedade do cansaço – Em seu livro “Sociedade do Cansaço”, Byung-Chul Han defende que a sociedade do século XXI é uma sociedade de desempenho. Segundo o filósofo, é preciso ter projetos, iniciativas, muita motivação, maximizar a produção, sempre, e quando não se consegue atingir as metas, muitas vezes autoimpostas, vem a sensação de fracasso, de estar sempre muito cansado.
*Byung- Chul Han – Byung-Chul Han, nascido na Coreia do Sul, em 1959 é um filósofo sul-coreano que se dedicou a analisar as estruturas da sociedade do século X, XI para entender como o modelo de produção da última fase do capitalismo tem interferido diretamente na vida psicológica das pessoas.
*Aristóteles – Aristóteles (Estagira, 384 a.C. — Atenas, 322 a.C.) foi um filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande. Seus escritos abrangem diversos assuntos, como a física, a metafísica, as leis da poesia e do drama, a música, a lógica, a retórica, o governo, a ética, a biologia, a linguística, a economia e a zoologia. Juntamente com Platão e Sócrates (professor de Platão), Aristóteles é visto como um dos fundadores da filosofia ocidental.
*Mediania – Aristóteles considera que os impulsos humanos podem levar o indivíduo a extremos em termos de comportamento, e esses extremos representam o vício (o contrário da virtude). Por outro lado, a virtude estaria no equilíbrio, no controle sobre esses impulsos na busca pelo ideal de equilíbrio.


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Um comentário

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    Nosso dicionário: para o trem que eu quero descer está errado, O correto é pare o trem que eu quero descer.

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