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Perdidos no mundo virtual

Matéria publicada em 20 de janeiro de 2017, 07:05 horas

 


Viciados na internet não conseguem apreciar o mundo real; humanidade está virando uma raça de zumbis eletrônicos

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O filme “Águas Rasas” é um suspense sobre uma surfista perseguida por um tubarão branco em uma praia deserta do México. É um daqueles filmes modernos, cheios de cenas absurdas, com a personagem principal realizando feitos sobre-humanos. Mas tem uma cena, logo no início, onde o diretor Jaume Collet-Serra chama a atenção para um problema real do mundo moderno. A alienação das pessoas diante da internet, que devia ser apenas uma ferramenta de comunicação, como outra qualquer.

Blake Lively interpreta a estudante de medicina Nancy, que perdeu a mãe, vítima de uma doença incurável. A mãe sempre falava para ela sobre uma praia maravilhosa, em um ponto remoto da costa mexicana, onde tinha passado momentos inesquecíveis quando estava grávida. Decidida a reencontrar o paraíso perdido, Nancy viaja para o México, contrata um guia e ruma de carro para a tal praia.

Carlos, o guia mexicano, repara que a moça não tira os olhos da coleção de fotos no smartphone. Eles estão passando por um lugar maravilhoso, onde os raios do sol da manhã são filtrados pelas copas das árvores criando uma iluminação fantástica. Mas Nancy nem repara, hipnotizada pela telinha do celular. Ela deve ter gasto uma nota, em passagens de avião, hospedagens em hotéis, aluguel de carro para ir até um lugar especial, só para ficar olhando fotografias na tela do celular, alheia ao mundo real e maravilhoso em torno dela.

Não é uma situação de filme. Acontece na vida real com frequência. Outro dia alguém postou na internet a foto de quatro meninas, de uns oito anos de idade, sentadas em torno de um escorrego em um parque de diversões. Se fosse no século passado aquelas meninas estariam se divertindo nos brinquedos do parque. Mas na foto, típica do século XXI, as meninas ignoram o escorrego e estão todas entretidas com seus celulares. Atentas ao que é mostrado nas telinhas.

Zumbis

A humanidade está virando uma raça de zumbis eletrônicos, descerebrada por uma rede mundial de computadores. As vezes a internet me lembra a Skynet, aquela rede de computadores que tenta exterminar a raça humana nos filmes do “Exterminador do Futuro”. Na vida real os robôs não precisam caçar os seres humanos com androides exterminadores, como nos filmes. Eles estão assumindo o controle das mentes humanas graças ao fascínio hipnótico que o celular exerce sobre as pessoas.

Os pais são responsáveis por esse estado de coisas. Para não perderem tempo tomando conta dos filhos eles dão telefones celulares para as crianças cada vez mais cedo. E com isso os pequenos deixam de lado as brincadeiras típicas da infância, o convívio com os parentes e com as outras crianças e vão se tornando dependentes daquelas telinhas coloridas. Quando atingem a adolescência não conseguem mais nem dormir direito, ficam acordados de madrugada olhando as últimas postagens no WhatsApp e no Twitter.

No filme, Carlos, o guia mexicano, salva a bela Nancy da estupidez virtual, chamando sua atenção para a beleza do mundo lá fora. Ela pede desculpa, desliga o celular e admira a paisagem que pagou caro para ver.

Todo o dia eu vejo um monte de Nancys durante o percurso no ônibus, de Pinheiral para Volta Redonda. Elas colocam fones no ouvido e ficam grudadas nas telinhas. O ônibus segue pelo vale que envolve o Rio Paraíba. Garças cruzam o céu no final da tarde, o poente colore as nuvens com matizes espetaculares. E as vezes somos brindados com o nascer de uma lua cheia. Como a “lua do lobo” a primeira lua cheia de janeiro que iluminou a paisagem na semana passada.

As internautas nem viram. Para elas só existe o que está no WhatsApp.

Perdida: Blake Lively, entre a praia e o celular

Perdida: Blake Lively, entre a praia e o celular

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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4 comentários

  1. Avatar

    Fez-me lembrar da Praça Brasil com os ZUMBIS CONTROLADOS remotamente pelos americanos operando o monstrinho eletrônico e fazendo-os passar por cima do jardim e até dos arranjos de flores, por entre os carros, por dentro das lojas. kkkk

    Isso vem confirmar uma pesquisa encomendada por um navegador de internet (que não é o google) mostrando que os internautas não sabem a diferença da ferramenta “internet” e de uma rede social. Entre países o Brasil ficou em antepenúltimo lugar entre os países pesquisados, ou seja, só dois países ficaram abaixo.

    De acordo com a pesquisa 55% (55 entre 100) dos brasileiros acham que uma rede social é a internet.

    O primeiro lugar que apontaram é que são usuários do google.

    Se vc é usuário do google, cuidado, pois está sendo totalmente controlado remotamente. Não sabem eles que a internet é um mundo na palma das mãos, mas se deixam ser confinados pelo google através da tela do celular.

    Ah, existe muitos navegadores que nos dão muitas oportunidades, dentre eles um é livre, independente e não te obriga a nada, bem ao contrário do navegador do google.

    Saia do google enquanto ainda não se tornou um robô incapaz de apreciar a natureza a sua volta, mesmo dentro do ônibus da viação Pinheiral.

  2. Avatar

    Quem vai deixar de bater um papo com amigos, namorado(a) e familiares, agendar um compromisso ou mesmo fechar um negócio via WhatsApp e sua praticidade, ou ler notícias em tempo real, para contemplar paisagem Pinheiral x VR?
    Essa Síndrome do “Ah-no-meu-tempo-não-era-assim”…

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      Com o devido respeito, Sr. Geddel jucá, a síndrome à qual v. se refere não vem ao caso. O que se combate é a excessiva idiotice dos robôs em vias públicas, e igualmente, fora delas. É como bebida alcóolica: USE COM MODERAÇÃO!

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    Realmente, é assustador o que se vê em via pública, ou em qualquer outro lugar, no que diz respeito ao uso do celular. Os jovens, em sua excessiva maioria, tornaram-se meros ROBOLESCENTES , sem terem a mínima noção do comportamento idiota que assumiram, flagrados que são com os olhos hipnotizados por seus celulares. O mundo à sua volta deixou de existir, correndo até o perigo de serem atropelados na rua. Equiparo tais pessoas àquelas que, não sabendo comer um doce, se lambuzam. Enfim, são escravos comandados pelo neuromarketing. Pensem nisto!!

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