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Pinheiral, a cidade dos tucanos

Matéria publicada em 29 de julho de 2016, 13:35 horas

 


Aves buscam alimento nas palmeiras cheias de frutos; nem sempre o convívio desses animais silvestres com o ambiente urbano termina bem

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Há algumas semanas que eu acordo de manhã com o barulho dos tucanos na casa do vizinho. Engraçado que na minha infância não tinha tucano em Pinheiral. Era um pássaro que só víamos em ilustrações e no zoológico. De uns tempos para cá eles invadiram o bairro onde moro em busca de comida. Como um monte de outras aves silvestres expulsas de seu habitat pelo desmatamento. Infelizmente, enquanto escrevo essas linhas, o Parque Nacional de Itatiaia pega fogo.

Na rua onde moro os pássaros coloridos, com seus bicos enormes, encontraram comida farta. Todo o lado direito da Eduardo Pompéia, no sentido de quem desce a rua, é ocupado pelas residências do antigo Colégio Agrícola. São casas que servem de moradia temporária para os professores que dão aula naquela instituição, hoje Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia.

Todas as casas têm quintais grandes, cheios de palmeiras de vários tipos. Que ficam cheias de frutos em pleno inverno. É o caso da pupunha, que já foi chamada de “pão da Amazônia”.

Ela dá um pequeno fruto, que se for cozido durante uma hora, pode ser degustado com o café da manhã. Parece uma mistura de amendoim e fruta pão. Os tucanos, é claro, comem cru, quebrando a fruta com seus enormes bicos.

Outra palmeira que eles frequentam é a carnaúba. Os turistas são fascinados por esses bichos e no antigo desenho animado do Johnny Quest tinha um tucano que falava como um papagaio. Um erro típico de quem nunca encontrou um tucano de verdade. Tucano é muito colorido, mas o único ruído que eles fazem é um “crou, crou” semelhante ao de um corvo.

De tarde, quando o sol se esconde eles vão embora lá para as margens do Rio Paraíba. Outro dia contei uns seis comendo os frutos das palmeiras.

Outro visitante pouco comum são as pombas azuladas, que algumas pessoas chamam de “pomba mineira”. Antigamente esses pássaros não se aproximavam das áreas urbanas. Era preciso entrar em florestas densas para encontrá-los. Agora ficam nos fios da rua, esperando por uma migalha, um resto de ração de cachorro.

Triste realidade

Nem sempre o convívio desses animais silvestres com o ambiente urbano termina bem. Segunda-feira passada tinha uma coruja enorme, com asas de mais de meio metro, morta junto ao meio fio, perto da agência do correio. Não sei o que foi que matou aquele corujão, uma ave daquele tamanho não tem predadores naturais. Talvez tenha feito contato com um fio de alta tensão e foi fulminada. Ficou lá na sarjeta coitada, esperando para ser recolhida pela limpeza urbana. A única vez em que vi uma coruja daquele tamanho foi um exemplar empalhado no museu do Parque de Itatiaia.

Do outro lado do Rio Paraíba existia uma floresta enorme, que ia até Vargem Alegre. Isso há uns quarenta anos atrás. Foi tudo derrubado para virar pasto para o gado. Hoje os morros além do Paraíba estão cheios de bosques de eucaliptos. Que não dão frutos para nossas aves silvestres. Sem outra opção para conseguir alimento elas se arriscam na cidade.

Já abri a porta dos fundos e dei com um jacu no meio do quintal. É uma ave preta grande, que costuma aparecer lá para os lados do riacho do Cachimbal. Agora já está se acostumando com os seres humanos e se aventurando pelos quintais da área urbana.

De um lado é bom conviver com todos esses bichos coloridos e exóticos. Por outro lado é triste saber que a presença deles na cidade vem da destruição de seu habitat natural. O Brasil está acabando rapidamente com suas florestas e virando um imenso deserto. Outro dia o desmatamento na Amazônia bateu outro recorde, com o estado do Pará liderando no ranking da devastação.

E diante disso os bichos não tem outra opção senão buscar comida na cidade.

 

Visitantes: Tucanos chegam bem cedo

Visitantes: Tucanos chegam bem cedo

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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8 comentários

  1. Avatar

    Nossa bonita crônica, mas tucano que é bom nada, não sei aonde que Pinheiral tem tanto tucano!!

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      Tem sim Moradora, tb sou de Pinheiral e já vi muitos, eles aparecem mais nas imediações do capitólio, em quase toda a beira do paraíba e tb nos morros próximos ao antigo canteiro da conduto ( que agora tb estão sendo devastados para loteamentos).

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    No meu quintal tucano não tem vez é recebido a pedradas, lasco pedras mesmo, tenho muito medo que eles venham privatizar minha propriedade que me custou muito caro. Quando ouço falar neste pássaro que por sinal acho lindo, me da arrepios. Tucano perto de mim não tem vez.

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    Mais uma bela crônica Calife,parabéns.

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    A mais pura verdade!
    dia deste, um mico em meu jardim, longe de qualquer espaço típico…

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    >>>>>>>> LA O PT NAO ENTRA

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    Espero que não seja do tipo paulista, o tucano-ladrão-de-merenda.

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    Bela crônica. O mais triste de tudo é que existem animais que não se acostumam com ambientes humanizados, como os grandes predadores de tocaia (onças-pintadas, jaguatiricas, harpias, jacarés, etc.). Esses estão fadados ao desaparecimento juntamente com a mata, assim como os bichos arborícolas… Lembrando que o solo amazônico, sem a cobertura vegetal, não se recicla e tende a se desertificar por ser pobre em nutrientes, tanto que não há grandes celeiros agropastoris na área da Amazônia Legal. É 8 ou 80…

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