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Platão, o telefone celular e a arte do olhar

Matéria publicada em 8 de novembro de 2016, 07:05 horas

 


Homem moderno perdeu a capacidade de enxergar o mundo; homem comum se perde no labirinto eletrônico de seus comunicadores pessoais

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Entre os livros que estão chegando às livrarias um título chamou a atenção deste cronista. Chama-se “Inteligência visual” e a autora, Amy Herman, costuma treinar agentes do FBI e do serviço secreto americano na arte da percepção visual. Que consiste em ver os detalhes do ambiente que nos cerca, enxergando aquilo que a maioria das pessoas não vê. O que é muito importante, por exemplo, para agentes das forças de segurança que precisam procurar pistas em cenas de crimes.

O livro saiu pela editora Zahar e promete ajudar os pais a prestarem mais atenção nos filhos e os executivos a compreenderem melhor o que acontece nas suas empresas. A existência de um livro assim é muito útil na nossa era, da internet e do telefone celular, onde as pessoas vivem com os olhos presos nas telinhas e ignoram não só os detalhes, como toda a paisagem que os cerca.

No mês passado eu voltava de ônibus para casa em um cair de noite especialmente bonito. Era a noite da superlua, quando a Lua Cheia coincide com o ponto em que o nosso satélite natural está mais perto da Terra. Era um dia claro, com poucas nuvens e a Lua surgia enorme no horizonte. Toda avermelhada devido a refração da luz na poeira perto do horizonte. Uma lua cinematográfica mas pouca gente olhava para ela. A maioria dos passageiros do ônibus estava entretida com mensagens ou joguinhos eletrônicos nas telinhas dos celulares.

Para essa turma conectada é preciso um livro que ensine a reparar no mundo ao redor, e não nos detalhes como é o caso da “Inteligência visual”. Boa parte da humanidade está trocando a realidade real pela realidade virtual e vivendo em um mundo de sombras como os prisioneiros do Platão.

De onde veio esse Platão? Pode perguntar o leitor mais jovem. Platão foi um filósofo da Grécia antiga que se preocupava com a percepção que temos do mundo. Ele criou uma alegoria que ficou famosa, dos prisioneiros em uma caverna. Platão imaginou homens presos em uma caverna com uma abertura na parte de cima onde a luz do Sol projetava sombras do mundo exterior. Tudo que os prisioneiros conheciam do mundo lá fora eram as sombras sem cor e sem detalhes que o sol projetava nas paredes da caverna.

Platão achava que o homem, limitado por seus sentidos, era como os prisioneiros na caverna. A ciência mostrou que ele estava certo. O mundo que vemos é só uma faceta de uma realidade multiespectral muito mais ampla. Nossos olhos só enxergam a luz cujos comprimentos de onda vão do vermelho ao violeta. As cores do arco-íris. Mas além do violeta está o ultravioleta, para o qual nossos olhos são cegos. E abaixo do vermelho está o infravermelho, que as cobras enxergam.

Os astrônomos, que tentam visualizar o vasto universo lá em cima, desenvolveram instrumentos sensíveis as radiações que nossos olhos não enxergam. E assim eles podem fitar o Universo com os olhos de raios X de seus detectores, na faixa do infravermelho ou na radiação de micro-ondas. Cada uma dessas radiações abre uma janela diferente para o Universo, revelando mundos e realidades diferentes.

Enquanto isso, o homem comum, se perde cada vez no labirinto eletrônico de seus comunicadores pessoais. As pessoas não conversam mais, se conectam, mandam selfies e mensagens de texto. Viraram prisioneiras de uma caverna eletrônica, de um mundo de mentira, como os personagens da alegoria de Platão.

O que pode ser um comportamento suicida no caso das pessoas que usam o celular enquanto dirigem o carro. E leva o homem moderno para um distanciamento do mundo real inédito em toda a história humana.

 

 Detalhe: Livro ensina a perceber os detalhes


Detalhe: Livro ensina a perceber os detalhes

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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2 comentários

  1. Avatar

    Crônica muito boa e pertinente.Parabéns.

  2. Avatar

    Que texto maravilhoso e inspirador!

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