terça-feira, 23 de outubro de 2018

TEMPO REAL

 

Capa / Ciência – Por Jorge Calife / Poeira de estrelas

Poeira de estrelas

Matéria publicada em 22 de setembro de 2016, 13:53 horas

 


wp-cabeca-ciencia

Medições feitas pelo satélite Gaia, da Agência Espacial Europeia, permitiram a criação de um mapa 3D da nossa galáxia, a Via Láctea. O mapa contém as posições precisas e o brilho de 1,14 bilhão de estrelas mais os movimentos e distâncias de outras 2 milhões. Parece muito, mas não é. A região escaneada pelos instrumentos do Gaia representa apenas 1% da galáxia. Lançado ao espaço em 2013 o satélite de astrometria já cumpriu 14 meses de sua missão de cinco anos e deverá produzir o catálogo estelar mais preciso de todos os tempos.

Além de revelar nossa posição no universo com detalhes nunca vistos, os dados do Gaia ajudam a entender a evolução do grande redemoinho de estrelas de onde surgiu o nosso planeta.

O satélite Gaia é o sucessor do Hiparco, que a Esa enviou ao espaço no século passado. Ele foi lançado do centro espacial de Kourou, na Guiana Francesa, por um foguete russo Soyuz e entrou em órbita em dezembro de 2013. Sua posição atual é no ponto de Lagrange, onde as gravidades da Terra, da Lua e do Sol se equilibram. Equipado com um telescópio de 1,45 metros de diâmetro ele pode localizar planetas do tamanho de Júpiter orbitando outras estrelas e detectar novos cometas e até 500 mil quasares. Os quasares são núcleos de galáxias ativas no espaço profundo.

A foto ao lado mostra um perfil da Via Láctea com as estrelas mapeadas pelo Gaia. As duas manchas brilhantes na parte de baixo são galáxias menores, satélites da Via Láctea, a Grande Nuvem de Magalhães e a Pequena Nuvem de Magalhães. Que recebem este nome em homenagem ao navegador que deu a primeira volta ao mundo.

Nossa galáxia tem a forma de um grande redemoinho de estrelas. Mas como o Sol e a Terra estão dentro dela só podemos vê-la de perfil, como na imagem aí ao lado. Para ver a Via Láctea não é preciso ter um telescópio sofisticado ou um satélite como o Gaia. Basta ir para o campo, ou para o mar aberto, longe das luzes das cidades, em uma noite sem Lua. E olhar para cima.

Os bilhões de estrelas da Via Láctea formam uma faixa de brilho leitoso que parece percorrer o céu de um horizonte ao outro. Os antigos gregos olhavam para a Via Láctea e imaginavam o leite derramado do seio de uma deusa. Daí o nome. Nesta época do ano a constelação do Sagitário aparece bem alta no céu, por volta das 21h. É lá, na direção do Sagitário, que fica o centro da nossa galáxia. A sua parte mais densa, que vista aqui da Terra parece feita de poeira de estrelas.

A galáxia não é feita só de estrelas. Ela inclui uma faixa de poeira escura, que aparece no centro do mapa aí ao lado. Essa poeira escura é a matéria prima de onde vão nascer novas estrelas, para brilhar nos céus do futuro. Todavia, se o leitor estiver interessado em admirar este rio celeste de sóis distantes deve esperar a lua entrar em sua fase nova. Atualmente ela está em fase minguante, quase cheia no céu e seu brilho ofusca a débil luminosidade da Via Láctea.

Além de bonita, nossa galáxia é incrivelmente grande. Estamos a 30 mil anos-luz do seu centro e a galáxia inteira tem mais de 100 mil anos-luz de diâmetro. Um ano luz é a distância que a luz percorre em um ano, aproximadamente um trilhão de quilômetros. As nuvens da Magalhães ficam a 150 mil anos luz, o que significa leitor, que a pálida luz que elas emitem viajou 1.500 séculos para tocar a retina de seus olhos.

O espetáculo da Via Láctea nos convida a meditar sobre a insignificância dos seres humanos. Que estão destruindo o único planeta que tem para morar. Pode haver milhões de outras Terras em meio a esta poeira de estrelas. Mas estão fora do nosso alcance.

 

 Imensa: A Via Láctea e as nuvens de Magalhães no mapa da ESA


Imensa: A Via Láctea e as nuvens de Magalhães no mapa da ESA

 

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)

Um comentário

  1. Muito Bom

Untitled Document