segunda-feira, 21 de outubro de 2019

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Por nossas raízes

Matéria publicada em 21 de setembro de 2019, 08:00 horas

 


Em tempos de sociedade do desempenho e de modernidade líquida, vale refletir sobre como trabalhamos o nosso tempo interno

No filme Pocahontas, da Disney, toda a sabedoria da floresta está contida na grande árvore, aquela entidade que guarda todos os segredos e todos os saberes. É comum ouvirmos que o tempo de Deus é diferente de nosso tempo. Verdade absoluta. É interessante lembrarmo-nos que a natureza está sempre disposta a nos ensinar. Hoje, a lagarta rasteja, amanhã será a borboleta que voa. Verdade maior, o tempo é senhor do crescimento. Em tempos de sociedade do desempenho e de modernidade líquida, vale refletir sobre como trabalhamos o nosso tempo interno. Como aprendemos? Como nos desenvolvemos? Como nos relacionamos? Enfim, como vivemos?
No livro “Mayombe”, o autor Pepetela descreve a relação de alguns guerrilheiros angolanos com a natureza, os quais, vivendo dela e a respeitando, fundem-se à floresta como se eles fossem um só. Essa metáfora demonstra o quanto o convívio harmônico com a natureza contribui para a proteção dos indivíduos, uma vez que, na trama, o Mayombe ajudava os soldados em combate contra os portugueses. Contudo, no Brasil hodierno, essa realidade é refutada, já que questões econômicas e sociais impulsionam a degradação das florestas nativas, o que representa um empecilho à coexistência pacífica entre o homem e a natureza.
Vale pontuar as bases da economia do país como contribuinte para a problemática. Tal fato decorre da expansão, durante a Ditadura Militar, da fronteira agrícola para a Amazônia, o que levou à destruição desse bioma até os dias atuais. Isso ocorre porque o Brasil foi submetido a uma colonização de exploração, a qual estimulou o desenvolvimento de uma economia agrícola. Com isso, na sociedade hodierna, esse modelo agroexportador que hipervaloriza o lucro se perpetua, de modo a estimular, cada vez mais, a expansão do agronegócio em direção à região amazônica. Dessa forma, a massa equatorial continental perde sua característica com a degradação da natureza, causando alterações climáticas em todo o país, uma vez que, por ser uma floresta tropical, a Amazônia determina, a partir da evapotranspiração, a umidade desse rio voador, o qual mantém o equilíbrio ambiental.
Além disso, pode-se destacar que a passividade da população agrava a questão. Segundo o sociólogo Robert Merton, a profecia autorrealizável é um conceito que determina que uma previsão, assumida como verdade, torna-se uma crença, que influencia as pessoas de modo a provocar sua própria concretização. Nesse contexto, a apatia do povo, durante o Primeiro e Segundo Reinado, frente às decisões do governo – provocada pela exclusão da população da esfera política elitista -, estimulou a criação de uma ideia que defende o brasileiro como passivo em relação às questões nacionais. Desse modo, os cidadãos, ao assumirem esse prognóstico como verdadeiro, passaram a se comportar de maneira alheia à defesa dos bens naturais. Com isso, a permissão, a partir da indiferença, da degradação ambiental , respeitando a Terceira Lei de Newton – que defende que toda ação tem uma reação -, estimula uma resposta da natureza nas mesmas proporções de sua destruição, o que leva ao aquecimento global, uma vez que as florestas são responsáveis por diminuir a grande quantidade de gás carbônico emitida.
Torna-se evidente, portanto, que temos inúmeros empecilhos à preservação das florestas nativas. Cabe às autoridades, mas cabe a cada um de nós, cada cidadão, cada um que habita este país e que possua intelecto racional, a cuidar e a preservar, assim como também a exigir que nossos governantes cuidem de forma efetiva do nosso maior patrimônio. As nossas florestas. A ideia é que saibamos olhar para a Amazônia, mas não somente à mãe de todas as florestas, mas que observemos as pequenas florestas, as pequenas árvores que estão a nossa volta, pois sempre haverá uma árvore capaz de nos ensinar aquilo que precisamos aprender. Será?
Por mais árvores, por mais harmonia, por mais integração com nossas verdadeiras raízes.

Boa Leitura,
TMJ!
Raphael Haussman. É professor, Coach, consultor e apaixonado por educação e desenvolvimento humano e, ainda, pai da Raphaela e do Theo.

Nosso dicionário:
Sociedade do Desempenho – Em sua obra “Sociedade do Cansaço”, o sociólogo sul-coreano, Byung-Chul Han, defende que a sociedade do século XXI é uma sociedade de desempenho. Segundo o filósofo, é preciso ter projetos, iniciativas, muita motivação, maximizar a produção, sempre, e quando não se consegue atingir as metas, muitas vezes autoimpostas, vem a sensação de fracasso, de estar sempre muito cansado. Vive-se em uma época de extrema cobrança e, por isso, têm-se a ideia de se estar sempre cansado.
Modernidade Líquida – Conceito cunhado pelo filósofo e sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, o qual afirma em suas obras que vive-se em um tempo de inconstância no qual nada é feito para durar. O autor compara a inconstância das relações atuais aos aspectos de fluido, por isso o termo “Modernidade Líquida”.
Pepetela – Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, conhecido pelo pseudónimo de Pepetela (Benguela, Angola, 29 de outubro de 1941), é um escritor angolano.
Mayombe – Mayombe é um romance do escritor angolano Pepetela publicado originalmente em 1980.
Metáfora – É a figura de linguagem que consiste no uso de uma palavra ou expressão com o sentido de outra com a qual é possível estabelecer uma relação de analogia.
Coexistência – Segundo o dicionário, o termo coexistência é um substantivo feminino que faz relação a algo que convive harmoniosamente ou de maneira pacífica.
Bioma – O Bioma é um grande conjunto de ecossistemas interligados. De maneira geral, podemos dizer que os Biomas são grandes espaços geográficos que compartilham das mesmas características físicas, biológicas e climáticas, existindo um grande número de espécies de plantas e animais.
Colonização de Exploração – É um modelo de exploração do espaço colonial caracterizado por uma relação meramente mercantilista entre Metrópole e Colônia, o objetivo da colonização passa a ser apenas o lucro. Esse modelo ocorreu em grande parte dos países sul-americanos, inclusive o Brasil.
Agroexportador – É um modelo econômico baseado na produção de gêneros agrícolas e afins voltados para a exportação.
Massa equatorial continental – A Massa Equatorial Continental (mEc) é uma massa de ar que atua na América do Sul, principalmente no Brasil. Ela tem origem na região amazônica, mais especificamente no estado brasileiro do Amazonas.
Evapotranspiração – Evapotranspiração é a soma da evaporação da água pela superfície de solo mais a transpiração dos vegetais, passando para a atmosfera no estado de vapor, sendo parte do ciclo hidrológico.
Rio Voador – Os rios voadores são “cursos de água atmosféricos”, formados por massas de ar carregadas de vapor de água, muitas vezes acompanhados por nuvens, e são propelidos pelos ventos.
Robert Merton – Robert King Merton (EUA, Filadélfia, 5 de julho de 1910 — EUA, Nova Iorque, 23 de fevereiro de 2003) foi um sociólogo estadunidense considerado um teórico fundamental da burocracia, da sociologia da ciência e da comunicação de massa.
Terceira Lei de Newton – A Terceira Lei de Newton, também chamada de Ação e Reação, relaciona as forças de interação entre dois corpos. Quando um objeto A exerce uma força sobre um outro objeto B, este outro objeto B vai exercer uma força de mesma intensidade, mesma direção e sentido contrário sobre o objeto A.


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Um comentário

  1. Avatar

    Faz uma matéria falando sobre o que o esporte ensina as crianças.

    Da importância da educação Física.

    Noto que crianças que praticam esportes são mais felizes e inclusivas.

    Noto que como o esporte ensina a ganhar e a perder , as crianças ficam psicologicamente mais fortes para a vida.

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