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Por que é bom ter ideia ruim?

Matéria publicada em 9 de abril de 2019, 10:13 horas

 


Dizem historiadores, arqueólogos e cavernólogos que a gente andava por aí dormindo em cavernas, se balançando em cipós e fugindo de bicho no meio da noite escura. E agora a gente tá aqui no ar condicionado split, voando pelos céus a 900 por hora, curtindo uma comidinha gourmet e criando textos proto cabeçoides para se exibir nas redes sociais. E sabe por quê? Por causa da nossa capacidade de imaginar e do poder das boas ideias.
Mas será que é bom ter ideia ruim?
Se a gente chegou onde a gente chegou é por causa do poder das boas ideias. Mas ter ideia ruim também pode ser uma boa ideia.
Em primeiro lugar porque o processo criativo costuma gerar qualidade a partir da quantidade. É a velha máxima dos 99% de transpiração para 1% de inspiração. É no meio daquela baciada de ideia de jerico, daquele bololô de ideias meia boca (ou meias bocas?) que se garimpa as ideias geniais. Não tem como ter apenas ideias boas, porque as ideias são geradas de maneira espontânea e pouco controlável. A minha experiência profissional mostra que as primeiras safras de ideias são normalmente as ideias mais obvias e as associações mais fracas. Portanto, as ideias ruins são praticamente o prelúdio das ideias boas. Keep walking que a fila anda depressa demais.
Em segundo lugar, muitas vezes uma boa ideia é gerada pela soma de duas ou mais ideias ruins. Uma ideia ruim pode dar gancho para uma outra ideia ruim alçar voo e as duas juntas virarem uma ideia realmente boa. A grande sacada muitas vezes é apenas a soma de duas ou mais ideias, que sozinhas são fracas demais para parecerem uma boa ideia.
Morango sozinho é um pouco azedo. Chantilly sozinho talvez seja um pouco sem graça Mas se você juntar o morango com o chantilly fica muito melhor. E se juntar o suspiro, vira merengue, que é uma ideia realmente boa. Desde que você não esteja de regime.
Em terceiro lugar, muitas vezes a ideia boa vem travestida de ideia ruim ou precisa do ambiente correto para que seja percebida e reconhecida como boa. Voar, até o começo do século XX, era uma tremenda ideia de jerico. Aliás, era tão fora da realidade que estava mais para delírio do que para ideia. Mas hoje seria uma péssima ideia dizer que voar não é uma boa ideia.
Ou veja o caso do AirBNB, que hoje é uma ideia bilionária. Quando essa ideia foi apresentada despertou todo tipo de questionamento e crítica, porque era tão inovadora e ao mesmo tão simples, que parecia óbvia demais para ser uma boa ideia.
Mas talvez o mais difícil no meio disso tudo seja discernir o que é uma boa ideia de uma ideia ruim. Uma ideia pode ser boa para mim e ruim para você, ou boa dependendo do contexto. O nazismo hoje é claramente uma ideia ruim, mas foi considerado uma boa ideia pela maior parte do povo alemão nos anos 40. A democracia parece uma boa ideia, mas já foi abominada por grandes pensadores da Humanidade, que criticavam o fato de que a opinião de pessoas ignorantes pudesse ter o mesmo peso da opinião dos grandes pensadores e estudiosos.
Então é isso, pra ter boas ideias é preciso ter ideias ruins também. E a ideia ruim de hoje pode ser a ideia genial de amanhã.
Portanto, tenha ideias e ponha a cachola pra funcionar, porque foi ela que nos tirou da escuridão das cavernas e nos deu a luz.
Espero que tenha gostado da ideia deste texto.
Fiat lux!

Alexandre Correa Lima é professor da FGV, escritor e palestrante corporativo. Conheça mais sobre seu trabalho no YouTube, Facebook, Linkedin e Instagram.


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