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Quando a escola era risonha e franca

Matéria publicada em 4 de novembro de 2016, 07:30 horas

 


Antes da política e das ocupações, estudante ia à escola para estudar; ano letivo já é prejudicado por intermináveis feriados e greves

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A moda agora é ocupar escolas. Até as provas do Enem vão ser adiadas em algumas cidades porque os estudantes estão ocupando as escolas para protestar contra isso e aquilo. Além do estrago que eles provocam nas unidades de ensino, as ocupações são um desastre para o ano letivo, já prejudicado por intermináveis feriados e greves. Depois eles se queixam da dificuldade para conseguir um primeiro emprego. O ensino já é deficiente, e se não tem aula a maior parte do ano aí é que ninguém aprende nada mesmo.

No meu tempo não era assim e eu tenho gratas lembranças, não só do primeiro quanto do segundo grau. Que cursei no início da década de 1960, uma época de sonhos e esperanças bem diferente desses tempos sinistros atuais. No primeiro grau tive uma professora inesquecível, dona Juraci, que todo mundo chamava de dona Jura. Com ela a minha turma foi alfabetizada, coisa que considerávamos importantíssimo (para poder ler nossas histórias em quadrinhos favoritas). Naquele tempo não tinha internet e a garotada lia muito.

Dona Jura incentivava o hábito de leitura, como toda boa mestra. Uma vez por semana ela interrompia o ensino de gramática e matemática, pegava um livro e lia uma história para nós. Não me lembro quem era o autor dos livros que ela lia para a turma, mas teve uma história que ficou na memória. Da guerra da Iara contra as sereias.

Iara era uma sereia morena, de cabelos negros que vivia no rio Amazonas. Na história o rio era invadido por um bando de sereias nórdicas, loiras e muito branquinhas que chegavam montadas em cavalos marinhos. E tentavam assumir o controle das nossas águas territoriais. Iara, a sereia da Amazônia, montava uma resistência, combatendo as sereias nórdicas com a ajuda dos animais nativos. Como peixe elétrico e a sucuri.

O estilo me lembra o Monteiro Lobato mas acho que não é dele essa história. Sei lá. Depois do primeiro grau cursei o segundo em um colégio particular que ficava na zona norte do Rio de Janeiro. Os professores eram ótimos e lá quem contava histórias era a professora de inglês. Que lia histórias sobre piratas e tesouros escondidos em um livro cheio de ilustrações coloridas.

Na escola

Minhas matérias favoritas eram História e Geografia. As aulas de Geografia eram como um jogo onde a gente abria um atlas em cima da carteira e tentava localizar coisas interessantes como a ilha de Madagascar ou o pico do Monte Everest.

Nossas aulas de História não eram essa história socialista politizada que se ensina nas escolas hoje em dia. Eram sobre as grandes civilizações da antiguidade. Os egípcios com suas pirâmides e faraós, os gregos com seus filósofos e heróis fantásticos, os Babilônios com seus jardins suspensos. Viajávamos no tempo dentro da sala de aula. Quando o cinema exibia algum épico histórico o professor sugeria que fossemos assistir para comentar depois na sala de aula. A turma ia ver de qualquer maneira. Mesmo que fosse um filme italiano sobre o Hércules, cheio de exageros, o professor assistia com a turma e depois comentava os erros e acertos do filme em relação a reconstituição de época.

É interessante que, nos meus tempos de estudante, a política andava fervendo. Eram os tempos dos governos JK, Jânio Quadros e João Goulart. Mas nós, estudantes, não íamos a escola para fazer política. Nossa preocupação, no segundo grau, era conseguir o conhecimento necessário para ter acesso ao mercado de trabalho. Não queríamos ficar vivendo da mesada dos pais. E sabíamos que sem um bom conhecimento de português, matemática e inglês teríamos dificuldade de conseguir um bom emprego.

Aproveitamos muito bem aquelas aulas. Anos depois reencontrei uma das meninas mais animadas da minha turma. Ela tinha feito Mestrado em Matemática e dava aulas. Outros colegas viraram advogados, micro empresários, radialistas. Já os estudantes de hoje eu não sei o que vão ser. Tenho até medo de pensar.

 

 História: As aulas sobre o Egito antigo eram fascinantes


História: As aulas sobre o Egito antigo eram fascinantes

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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21 comentários

  1. Avatar

    Entendi o saudosismo do colunista porque guarda na memória uma professora excelente (Dona Consuelo) que foi marcante na minha vida como professora, em vários quesitos! Mas estudar naqueles tempos não era tão risonha para mim e ainda não vejo tão risonha, via tradicionalismo educacional e ainda vejo muito. Mas eu era ávida por conhecimento, isso foi se perdendo nos jovens de hoje, sabemos sim. A tecnologia trouxe conhecimento rápido, mas pouco filtro das informações, muito modismo, apelo da mídia, consumismo exarcebado, mentes que pensam muito menos e seguem muito mais, seja quem for. Entendi também todas as colocações anteriores, mas vou dar minha humilde opinião…
    Acho importante o que é dito sobre o aluno ocupar escolas, pois no final o maior prejudicado será ele mesmo! Vejo muitos partidos que são de esquerda, que inflamam a garotada com discursos, principalmente através da UNE e depois de um tempo se rendem ao ¨sistema¨. Foi assim com o PT entre tantos outros partidos esquerdistas. Lembro-me das Cruzadas, há uma passagem histórica que relata um fato em que colocaram crianças e jovens segurando o estandarte da Igreja Católica desafiando um exército para provar que Deus estava com eles. Resultado: morreram todas as crianças e jovens e o exército oposto ganhou a guerra massacrando todos. Concordo que lugar de jovens é na escola e não na política, a não ser em grêmios estudantis ou grupos de conscientização política, isso eu já participei muito, sem me filiar a partido algum. Quem tem que tomar a frente são os adultos, através do voto consciente, para que as coisas mudem, através das passeatas pacíficas e até não consigo discordar da greve dos professores, que acaba sendo legítima por si só. Os jovens tem que ter aulas, sou de escola púbica e recebo alunos vindo do Rio de Janeiro já com muita defasagem de ensino devido às escola ocupadas. Será que está resolvendo a situação? Governador Pezão anunciou pacote de controle das dívidas públicas que vai afetar o trabalhador, pensões, inativos, aposentadorias etc, além da PEC 421 que transmita no Governo. Acho importante que o povo participe sim, mas os jovens ficam prejudicados, até o ENEM virou um caos, quase foi cancelado. Que os adultos, principalmente aqueles que agitam a UNE cumpram suas convicções e não apenas busquem um eleitorado que em seguida fica esquecido. Vendo muita gente se promovendo às custas da luta do trabalhador e depois esquece o povo. Veja muita intenção política e pouca intenção verdadeira. Cabe ao povo separar o joio do trigo, votar em quem quer mudanças e oferece condições reais para o povo, principalmente não votar em pessoas que tiveram envolvimento com corrupção. Do que adianta ocupar escolas, se em uma eleição os adultos vão votar em quem se envolveu em crime político? Quer um exemplo simples, em nossa cidade, por exemplo, foi tão absurdo o candidato a prefeito que perdeu ficar tão perto da vitória e perder por pouco, sendo que já teve envolvimento na máfia das ambulâncias. Para que então tanta ocupação se o prefeito do Rio agora será um líder evangélico? Se as pessoas misturam religião com política. Nada contra a religião, espero do fundo do coração que os cariocas não tenham errado essa escolha, mas há coisas que não se misturam com política: religião, parentes, coligações partidárias e votos vendidos. Precisamos repensar e refletir se nosso voto está sendo consciente mesmo! Isso sim fará a diferença! O resto ainda é coca-cola, só faz pressão, mas depois acaba o sabor! E o sabor vai ser amargo para os estudantes, no final das contas! …

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    Perfeito Cálice.Sou de umas gerações depois de você mas ratifico tudo que você disse.Agora escola é politicagem barata,ideologia de gênero e fanatismo de todo tipo.

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    Geração perdida! Vai acabar virando colunista do Diário do Vale!

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    O povo é mal educado, atacam o colunista de graça, o que ele escreveu está correto, o romantismo acabou, temos uma geração de caçadores de pokemon, grosseiros e alienados.

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    pagador de impostos

    O passado, o nosso e o dos outros, normalmente é de cor azul. Todos nós temos essa tendêcia em super valorizar as coisas que já se passaram. Mas, convenhamos, havia mais seriedade com a educação. Tanto por parte da maioria dos alunos, dos pais dos alunos e também, por que não? Por parte da maioria dos professores.

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    Engraçado… se o seu ensino era tão bom assim, o que faz aqui com uma coluna mixuruca no Diário do Vale??? Por que não escreve na Follha, Estadão, o Globo????

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    Só trocamos qualidade por quantidade … inegável que “naquele tempo” 40% dos adultos não eram alfabetizados, e que era feito raro alguém ter concluído o segundo grau; Hoje em dia, frequentar escola é fato quase universal, mas infelizmente não impede de ver completos analfabetos funcionais em plena idade adulta.
    Alunos com fraca formação básica ingressam nas faculdades particulares de péssima qualidade bancadas com o populista financiamento estudantil, achando que estão fazendo bom negócio, e no fim só conseguem no mercado de trabalho um emprego não especializado que na década de 60 só o “ginásio” era o bastante.
    Enfim, o cenário hoje está tão ruim quanto o de antes, tomara que no futuro melhore, e sinceramente não sei se é vandalizando escolas e perdendo o ano letivo que conseguiremos isso…..

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      Pois é, nosso presente brilhante é o legado daquela situação brilhante da década de 1960… E da brilhante juventude de então, é claro…

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    Colunista filhinho de papai. Se estudou até o 2º Grau em 1960 era porque tinha dinheiro pra ser sustentado aquela época. A maioria dos seus contemporâneos exercem profissões subalternas e com baixa remuneração.

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    no meu tempo a gente respeitava professor,não tinha invasão de escola,a gente aprendia,coisa que hoje não é mais ensinado.
    conheço gente de faculdade que não sabe nem escrever.no meu tempo era muito melhor.

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    PROFESSORES COMUNISTAS (PT), DOUTRINANDO PEQUENOS IDIOTINHAS.

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    Eu ia fazer um texto ,mais sinceramente to decepcionado com o que li nesta coluna

    Sugrio por favor que leam essas materias ponham no Google :

    “O que as ocupações das escolas públicas podem nos ensinar sobre educação/escolarização?”

    “A ocupação das escolas em SP, segundo um novo documentário que está no YouTube. Por Cidinha da Silva”

    “Ana Júlia, estudante que discursou na Câmara do Paraná, faz pronunciamento em comissão do Senado”

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    O Donald Trump do Brejo, ao ressuscitar esse clichê abominável “no meu tempo…”, talvez se esqueça que “no seu tempo”, 40% da população adulta eram de analfabetos: jamais puderam entrar em uma escola primária que fosse.
    Quiçá pense ele como o deputado golpista Marquezelli que para justificar o voto na PEC 421, contra a qual esses estudantes bravamente lutam, candidamente disse: “Quem não tem dinheiro não tem que fazer faculdade… os meus filhos vão fazer”.
    O “seu tempo” acabou. Tenho até medo de pensar em como seria se não tivesse acabado.

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