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Quando a modernidade não funciona

Matéria publicada em 12 de outubro de 2018, 08:13 horas

 


Quando a modernidade não funciona

Biometria: Fracasso na hora da eleição – Foto: Wilson Dias/ABr

No país do voto compulsório, 30 milhões de brasileiros não participaram das eleições de domingo passado. Cerca de 20% dos eleitores ou não compareceram as urnas ou foram lá e desistiram depois de passar horas na fila. Um dos motivos foram os problemas com a biometria. O novo método de identificação do eleitor, que o governo empurrou pela goela a baixo da população (como de costume), não funcionou como esperado.

Esse é um problema que conheço muito bem. Há alguns anos o banco onde tenho conta cismou de implantar a tal biometria. Quem não fizesse o cadastramento biométrico ficaria limitado a sacar apenas duzentos reais nos caixas eletrônicos. Fui lá, coloquei minhas digitais na maquininha e a moça disse que estava tudo perfeito. Não estava. Sempre que preciso sacar dinheiro a máquina diz que não reconhece minhas digitais. É preciso tentar em vários caixas até encontrar um que reconheça.

Já reclamei com a gerente umas duas vezes. Ela sempre recadastra as minhas digitais e o problema persiste. É só colocar o dedo no sensor que ele começa: Ponha o dedo mais para cima, ponha mais para baixo, ponha para o lado. E finalmente vem o veredito: “Infelizmente não conseguimos reconhecer seus dados, prepare-se para informar sua senha”. Parece que o problema não acontece só comigo. Porque a última vez que fui ao banco eles tinham retirado o antigo limite de saques com a senha e já era possível retirar valores mais altos.

No caso das eleições aconteceu coisa semelhante. No ano passado o governo começou a ameaçar o rebanho eleitoral. Todos tem que fazer o cadastramento biométrico. Quem não fizer perderá o título de eleitor. Eles adoram ameaçar o cidadão com a perda do tal do título. Documento que nem existe nas sociedades mais civilizadas. Onde a democracia é um direito, não uma obrigação e o cidadão só vota se quiser. Se estiver motivado.

Em cidades como Salvador, na Bahia, formaram-se filas quilométricas para o tal cadastramento biométrico. O povo, paciente como sempre, ficou horas esperando para ser atendido. Agora, nas eleições, vimos o resultado de todo esse sofrimento. Um fiasco, um desastre. As tais urnas eletrônicas demoravam a reconhecer as digitais dos eleitores. Era preciso tentar várias vezes. E com isso teve gente desistindo de votar depois de esperar mais de três horas pelo lento processo de identificação biométrica.

Acho que ele problema vem da conexão da base de dados. É o que acontece com o banco. Quando você coloca o dedo no sensor do caixa eletrônico ele consulta uma base de dados que se encontra em outra cidade. E se a conexão não estiver boa naquele dia o aparelho não identifica a digital. O governo brasileiro, como os bancos, adora essas tecnologias modernas, que dependem de uma infraestrutura, de uma rede de alta velocidade, que simplesmente não existe no Brasil.

Outra coisa que inferniza a vida do povo é o acesso a serviços básicos. Como o Ministério do Trabalho e o INSS. O governo decretou que é preciso marcar esses serviços pela internet. Aí, o sujeito que precisa de uma simples carteira do trabalho leva semanas tentando acessar uma página sobrecarregada, depois descobre que não existem horários disponíveis naquele mês e para o mês que vem ainda não esta marcando. Com os idosos, que precisam de algum serviço do governo é pior ainda, já que eles não têm a facilidade de lidar com a internet que os mais jovens possuem.

Mas o povo está deixando de ser bobo. E não aceita mais ser tocado como gado de um curral para outro. O número recorde de pessoas que deixaram de votar mostra isso. Muitos tiveram o título suspenso porque não aceitaram ficar horas na tal fila quilométrica. E não estão nem aí para isso. A maioria nunca vai precisar de título para tirar passaporte. E quem perde mais com isso são os políticos, que ficam sem muitos votos úteis.


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5 comentários

  1. Meu nome é Zé Pequeno!

    Prefiro as urnas eletrônicas às cédulas de papel que viviam facilitando “fraudes eleitorais comprovadoramente”.
    Até que se prove ao contrário elas permitem eleições mais justas.

  2. Falou besteira, se você procurasse se informar saberia que a urna não fica conectada a nenhuma rede e toda base de digitais fica local em cada equipamento.
    Você como comunicador (acredito que seja) teria a obrigação de saber disso.

  3. Pagador de impostos

    O melhor serviço público no Brasil é o da receita federal, o que arrecada os impostos, que é o que interessa para as “incelências”. O resto… bem, o resto passa a ser um simples detalhe. Afinal, nós sustentamos toda essa gigantesca máquina pública ineficiente e burocrática.

  4. Muito bom! O grande motivo da existência da massa popular hoje em dia é legitimar pela “via democrática” o poder das oligarquias. O analfabeto desdentado nem vota… vai votar para quê? Está à margem da sociedade mesmo e assim continuará independentemente do resultado do pleito! A substância da moral política é a hipocrisia.

  5. Não recomendo ficar sem votar. Os sistemas da Receita Federal e Justiça Eleitoral interagem. Título cancelado suspende o CPF. Então não é uma boa ideia.

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