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Quando o sucesso pode ser algo muito ruim

Matéria publicada em 3 de dezembro de 2019, 10:17 horas

 


Filmes viram séries intermináveis e remakes péssimos; autor não é obrigado a criar uma continuação

Na semana passada passei pela porta do cinema e já estavam vendendo ingressos para a pré-estreia do episódio 9 de Guerra nas Estrelas, que a geração atual chama de Star Wars. Gosto muito de cinema e de ficção científica, mas não tenho a menor vontade de assistir a mais esse capítulo da saga interminável dos Jedis. Todas as ideias boas do primeiro filme se esgotaram no terceiro episódio, aquele que passou nos cinemas em 1982. Nos últimos 30 anos aquela ideia, que era genial e criativa, no primeiro filme de 1977, foi sendo explorada até a exaustão. Até virar uma caricatura de si mesma.
São os males do sucesso. Se um filme faz um sucesso moderado o autor não é obrigado a criar uma continuação. A menos que ele ache que há elementos na história que justifiquem um segundo ou terceiro episódio. Mas, no caso desses blockbusters do cinema, a justificativa é ganhar o máximo de dinheiro que uma franquia possa render. E aí as ideias vão sendo diluídas, recicladas, até que o que sobra é um fantasma do original.
Foi o que aconteceu, por exemplo, com os filmes do agente secreto 007. Os primeiros filmes do James Bond foram um fenômeno na década de 1960. Ninguém nunca tinha visto nada igual e todos os estúdios começaram a produzir suas imitações do 007. Tinha James Bond francês, italiano, mexicano e até turco. Mas, ninguém superava a criatividade dos primeiros filmes, com a interpretação perfeita do ator escocês Sean Connery.
Na época um estúdio rival produziu uma paródia do 007, com o humorista Woody Allen. A partir do único romance do autor que não fora comprado pela United Artists. No filme “Cassino Royale”, de 1967, Allen era o doutor Noé, o irmão baixinho e feioso do James Bond, que perdia todas as namoradas para ele. E se vingava virando um super vilão.

Apelando

Dez anos depois a série oficial do 007 começou a apelar para o humor. Porque ninguém levava mais o personagem a sério. O autor tinha morrido e não havia mais romances inéditos para serem filmados. O fundo do poço foi atingido no último filme com o ator Daniel Craig. Em “007 Contra Spectre”, de 2015, o herói descobre que o vilão é na verdade seu irmão menos dotado. Ou seja, passaram a tirar ideias até da paródia de 1967.
Com Guerra nas Estrelas aconteceu a mesma coisa. No último episódio, exibido nos cinemas em 2017, “Os Últimos Jedis”, a frota de espaçonaves dos rebeldes passa o tempo todo fugindo da naves dos vilões. Uma ideia que foi copiada do seriado “Galáctica – Astronave de combate”. Que foi criado em 1978 para pegar carona no sucesso do primeiro filme do George Lucas. Como “Guerra nas Estrelas – Uma nova esperança”, “Galactica” envolvia batalhas entre naves espaciais e tiroteios com armas de raios laser. Era considerado uma space opera inferior, feita para a televisão. Sem o charme e a criatividade dos filmes do George Lucas.
Nada como um dia depois do outro. O sucesso de Guerra nas Estrelas gerou uma infinidade de continuações e remakes, que esgotaram completamente a ideia original. Enquanto isso, “Galactica”, por ser “a prima pobre de Star Wars”, só teve uns 18 episódios na série original. E não esgotou sua temática. Por isso foi possível produzir um remake em 2003, que foi muito influenciado pelo ataque terrorista do 11 de setembro e a guerra no Iraque.
A Disney, dona dos direitos de Star Wars, já percebeu isso. E cancelou vários filmes que seriam feitos com personagens secundários. Para evitar que a saga dos Jedis tenha o mesmo destino da “Jornada nas Estrelas”. Outra franquia que foi explorada até a exaustão.

 

 


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