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Russ Garcia e a aurora da música eletrônica e espacial

Matéria publicada em 23 de junho de 2015, 07:00 horas

 


Gravação de 1958 ainda pode ser ouvida no YouTube; detalhe: no disco a nave que viaja pelo espaço é uma espaçonave comercial, levando passageiros em uma excursão pelo espaço

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Futuro: A música do espaço na Terra  ( Foto: Divulgação )

Futuro: A música do espaço na Terra
( Foto: Divulgação )

Meu pai era músico e morreu em 2001, já vão mais de dez anos. Frequentemente me lembro dos momentos mágicos que passei ao lado dele, e embarco em novas viagens de descoberta. Teve uma época em que ele trabalhou no departamento musical da extinta TV Tupi. Que funcionava nas antigas instalações do cassino da Urca, ali bem embaixo do Pão de Açúcar. Meu pai me levou lá várias vezes, para ver os bastidores de uma estação de televisão. E foi lá que travei meu primeiro contato com a obra do maestro Russell Garcia.
Às vezes eu ficava horas na praia da Urca, em frente. Vendo a fosforescência do planctom marinho iluminar as ondas de noite. Mas geralmente ficava fazendo hora no departamento musical da emissora. Que também abrigava uma enorme discoteca, cheia de antigos discos de vinil. Usados para fazer a sonoplastia das primeiras novelas da televisão. Um disco que despertou logo a minha atenção foi o LP “Fantástica – Música do Espaço Sideral” com a orquestra do maestro Russ Garcia”. Gravado em 1958, na aurora da era espacial pela Liberty Records de Los Angeles.
As faixas do disco tinham nomes instigantes como “Os Vulcões de Mercúrio”, “Os Monstros de Júpiter” ou “Nova – a Estrela Explosiva”. Era a trilha sonora para uma viagem imaginária pelo espaço sideral. Escutei aquele disco várias vezes enquanto meu pai cuidava do trabalho dele lá na emissora de TV, conferindo partituras e vinhetas. Eram sons realmente de outro mundo. Em 1958, quando o disco foi gravado a música eletrônica estava começando a nascer, junto com a alvorada da era espacial. Que tinha começado em outubro de 1957 com o lançamento do Sputnik russo.
Instrumentos eletrônicos, como esses sintetizadores que andam por aí, ainda não existiam. E os músicos de vanguarda, como Russell Garcia, inventavam. Para criar os sons de sua viagem sideral ele usou uma variedade de técnicas. Desde instrumentos convencionais, como harpas e flautas, a voz humana da cantora Marni Nixon e sons criados em estúdios. Para obter o som da lava borbulhante do vulcão ele soprou um tubo dentro de água com gelatina! Seu colaborador, o técnico de som Ted Keep, criou um gerador de ondas capaz de produzir graves e agudos nos limites da audição humana.
E o resultado ficou diferente de tudo o que se fez antes e depois. Uma mistura de jazz e música new age que tanto pode sugerir imagens de um horrível ataque alienígena (Monstros de Júpiter) de um desastre natural (Nova, a Estrela Explosiva) ou transmitir a solidão e o isolamento do espaço sideral (As Almas Perdidas de Saturno). O fato é que durante décadas a memória desse disco ficou rodando na minha mente. Já não recordava mais os detalhes como o nome do disco ou do maestro. Só lembrava da capa do LP: Um planeta Terra flutuando no espaço de onde saiam umas ondas eletrônicas. Aí, semana passada, em um ataque de nostalgia resolvi procurar no derradeiro baú de antiguidades. O YouTube.
E lá estava, o disco inteiro para ouvir de novo, nas versões mono e estéreo. Fiquei sabendo também que o criador dessa viagem espacial morreu em 2011, na Nova Zelândia, para onde emigrou depois que se cansou da vida em Hollywood. Depois de criar “Fantástica” ele fez as trilhas sonoras dos filmes “A Máquina do Tempo” (1960) e “Atlântida, o Continente Perdido” e musicou a série de televisão do advogado Perry Mason. Décadas antes de existirem músicos como Vangelis e John Williams, Russ Garcia foi o pioneiro, criando os sons da nova era da exploração espacial.
Detalhe, no disco a nave que viaja pelo espaço é uma espaçonave comercial, levando passageiros em uma excursão pelo espaço. Algo que só seria cogitado muitos anos depois.
Fiquem com a música espacial de Russ Garcia em: (goo.gl/ujBecd).

Jorge Luiz Calife | jorge.calife@diariodovale.com.br


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2 comentários

  1. Avatar

    Não se esqueçam de Kraftwerk considerados como os Beatles da música eletrônica.

  2. Avatar

    Interessante

    Sou entusiasta do estilo eletrônico, sobretudo o alemão dos anos 70.
    Daí podemos destacar Tangerine Dream, Cluster e outros… evidentemente também os ‘pais’ da música eletrônica: John Cage e outros.

    Obrigado pela matéria e parabéns pela gosto vanguardista.

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