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São as águas…

Matéria publicada em 6 de março de 2020, 12:46 horas

 


“Águas de Março”, letra escrita por Tom Jobim, em 1972, e cantada ao lado de Elis Regina, em 1974, no álbum “Elis & Tom”, acabou por patentear de forma indelével as chuvas que caem incessantemente neste mês de março.
Tom não viveu para ver as mudanças que têm acontecido nos últimos anos, isso de maneira marcante em 2019 e mais ainda em 2020. As chuvas, que prometiam dar uma trégua em março, mas que começaram a cair muito antes, ainda em dezembro do ano passado, fizeram do mês de janeiro um começo de ano sui generis.
O verão de 2020 chegou com tudo no dia 22 de dezembro, um domingo, às 1h19. Diferente do verão passado, quando sobrou calor e faltou chuva, o verão deste ano trouxe água em um volume espantoso. Uma estação sem El Niño e La Niña, porém, com fenômenos oceânicos-atmosféricos ocorrendo nas porções Central e Leste do oceano Pacífico Equatorial e, manifestando-se de forma violenta.
São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo são alguns estados que têm vivido embaixo d’água. Não foram poucas as cidades inundadas onde os seus moradores perderam suas casas e, muitos, a própria vida.
É fato que os grandes municípios brasileiros não foram planejados para respeitar os ciclos hidrológicos da natureza, no caso, a evaporação das águas e depois as precipitações que atingem as cidades. O normal seria a água se infiltrar no solo para, logo a seguir, desembocar nos córregos e rios, e depois no mar, permitindo, assim, o recomeço do ciclo. Mas, o que acontece, na verdade, é que a água encontra asfalto e cimento, solos totalmente impermeáveis que a impedem de se infiltrar. Tudo isso atrelado ao crescimento desordenado, fez com que as cidades se tornassem, a cada nova chuva, um caos, originando todo o tipo de prejuízo.
Obviamente que as mudanças climáticas têm um papel importante nesse processo, uma vez que a temperatura dos espaços urbanos, dia após dia, tem ficado maior, provocando uma grande quantidade de chuva em um período mais curto de tempo. Nossas cidades não estão preparadas para isso, nem mesmo com os piscinões, que buscam reter as águas para evitar as inundações a cada novo temporal.
O avanço imobiliário não observa as várzeas e os lençóis freáticos das cidades. Hoje se constroem edifícios gigantescos com subsolos de três, quatro, cinco pavimentos, e se esquecem de levar em conta a geologia onde o prédio está localizado. Tudo isso, na hora da construção, é colocado de lado, quando se devia embargar esses empreendimentos em áreas frágeis, e criar projetos de desimpermeabilização para facilitar a drenagem da água.
O que tem nos espantado ainda é o resultado da passagem das tempestades: bairros inteiros destruídos, quase sempre com perda total para os moradores, que veem suas vidas desabarem, observando seus pertences serem tragados de maneira avassaladora, algo que a cada ano se repete de maneira mais forte e agressiva.
O verão termina oficialmente no próximo dia 20 às 00h50. Até lá, muitos eventos de convergência de umidade ocorrerão, gerando instabilidade e, causando mais chuva forte e volumosa em vários pontos do país.
Na região Sudeste, os corredores de umidade continuam se formando, atingindo áreas mais ao norte; por isso, que São Paulo, Rio de Janeiro e o triângulo mineiro, incluindo Belo Horizonte e Vitória, terão mais chuvas.
Na região Sul, não existe a menor expectativa de melhora, e a tendência para seca e quente continuará por todo este mês. Com isso, há previsão de frentes frias, prometendo temporais na metade e no final do mês.
Na região Centro-Oeste, a expectativa também é de que os corredores de umidade se formem cada vez mais ao norte. As pancadas de chuva vão continuar e há risco de veranicos.
Na região Norte, a chuva será abundante na maior parte dessa área; a previsão é de que as pancadas de chuva aconteçam todos os dias.
Por fim, na região Nordeste, por causa do posicionamento da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), ao sul da sua posição climatológica, há previsão de que toda a costa Norte-Nordeste tenha acumulados bem acima da média histórica. Ou seja, a previsão é de chuva acima da média.
Enfim, tudo isso se resume em muito aguaceiro de proporções assustadoras e destruidoras. Enquanto isso, nossos “sempre consternados” governantes se alternam em culpar a natureza ou o seu antecessor. Com isso, pessoas vão perdendo os seus bens e as suas vidas, e os que ficam esperam que o próximo governo seja mais diligente, mais capaz e menos mentiroso.

Problema: Avanço imobiliário não observa as várzeas e os lençóis freáticos das cidades


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