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Sobre deuses e homens 2: a missão

Matéria publicada em 6 de outubro de 2019, 06:00 horas

 


Debates entre ateus e religiosos só perdem em chatice para discussões entre direita e esquerda

A disputa entre ateus e religiosos no Facebook está incomodando quase tanto quanto a disputa entre direita e esquerda. Na qualidade de agnóstico , este colunista tem a certeza de que nenhum dos dois lados vai conseguir provar sua tese, e vão ficar eternamente enchendo a paciência de quem só quer rir de memes. Por isso, o colunista vai republicar um dos primeiros textos que saíram neste espaço, em julho de 2017.
A ciência já conseguiu explicar como surgiu o universo e como a vida na Terra chegou ao ponto em que estamos. Mesmo assim, boa parte da humanidade busca conhecer um suposto ser inteligente, imortal e todo-poderoso que teria criado toda a realidade que conhecemos. Ao longo da história, povos cultuaram milhões de diferentes deuses, e mesmo hoje há milhares de religiões, todas baseadas na existência de um ou mais seres supostamente superiores.
A tese que defendo é que não sabemos nada verdadeiramente sobre esse assunto. Assim, ninguém deve se colocar como dono da verdade nem discriminar os que acreditam de forma diferente.

Como se explica essa variedade de religiões?

Para quem acredita em seres superiores, me lembro de um trecho do livro “O príncipe invencível”, de Virgínia Lefevre, uma biografia romanceada de Alexandre, o Grande. Cito o livro de memória, portanto o leitor que perdoe alguma inexatidão.
Contam que Alexandre, uma vez, chamou o sábio de um dos povos que ele havia conquistado, perto de onde hoje é a Índia, e mandou que eles explicassem porque havia tantas religiões. O sábio pediu que ele conseguisse um elefante e três cegos de nascença. Alexandre conseguiu o que o sábio pediu.
Ele pôs um cego em frente à tromba do animal, outro perto das orelhas e outro perto das patas, depois disse a eles que eles conheceriam um elefante e deveriam apalpá-lo para descrever. Passados alguns minutos, pediu que descrevessem o bicho.
— O elefante é longo e mole como uma cobra — disse o que ficou perto da tromba.
— Não, ele é redondo e firme como uma árvore — argumentou o que ficou perto das patas.
— Vocês estão loucos, o elefante se parece com uma grande folha — respondeu o que ficou perto da orelha.
A discussão ficou cada vez mais acirrada e quase virou briga.
O sábio pediu que retirassem os cegos e o elefante e explicou ao conquistador o motivo da encenação:
— O ser humano sabe tão pouco e tem uma capacidade de entendimento tão pequena que, em termos cósmicos, é como um cego. Cada povo toca uma parte do deus e fica com a firme convicção de que o deus é aquela parte. Nenhum dos cegos que tocaram o elefante estava mentindo, mas nenhum deles conseguiu saber como é o elefante inteiro. Assim são os homens e suas religiões — disse.
Assim, se é que existe algum ser superior, é bem provável que estejamos muito longe de conhecer sua verdadeira natureza. Mesmo que tal ou tais seres tenham se revelado a seres humanos, o que entendemos sobre eles e seus desejos deve ser menos do que os nossos cachorros entendem sobre o que falamos com eles.

Há necessidade de deuses?

Há uma corrente de pensamento que acredita que o pensamento religioso é uma forma de preenchermos as lacunas do nosso conhecimento sobre o universo, o que explicaria o fato de povos antigos explicarem as mudanças meteorológicas com a intervenção divina. Junto com isso, a religião seria uma forma de criar uma esperança de que, de alguma forma, o ser humano sobrevive à morte do seu corpo.
No entanto, há milhões de pessoas que convivem bem com a ideia de que não existe nada depois da morte. Outra se satisfazem com a certeza de que o universo começou num big bang e continua se expandindo. Há também quem goste da ideia de que não há nenhum deus ou demônio para recompensar os bons ou punir os maus.
Deuses não são necessários – podemos viver sem eles – mas são úteis, já que servem de conforto para dúvidas e angústias de muita gente.

As energias e as forças

Nós não vemos a eletricidade, mas ela está aí, alimentando uma quantidade imensa de aparelhos e equipamentos. A eletricidade é uma forma de energia. Já o eletromagnetismo, que é o movimento dos elétrons em torno dos núcleos dos átomos, é uma força fundamental do universo.
Essas energias e forças hoje são bem conhecidas pela ciência e nós já aprendemos a lidar com elas e usá-las a nosso favor, mas nem sempre foi assim e ainda não é possível dizer que sabemos tudo sobre elas.
Mas nossa curiosidade – talvez a característica que mais nos ajuda a avançar como espécie – nos leva a especular sobre outras formas de energia e outras forças.
Nesse sentido, alguns humanos buscam conexões entre suas mentes – talvez a parte menos conhecida da nossa espécie – e o universo, através de meditações, como na Yoga, ou de rituais, como na Wicca e em outras práticas religiosas.

Akasha

Um conceito interessante é o de Akasha. Basicamente, é um banco de dados gigantesco que armazena tudo que se passa na mente de cada ser humano. Seria o correspondente religioso ao inconsciente coletivo de Jung.
Para algumas pessoas, gênios não seriam pessoas com a capacidade de criar conhecimento novo, mas seres capazes de minerar Akasha. E Akasha não seria apenas o acúmulo do conhecimento humano, mas o de todos os pensamentos de todas as espécies que existem ou existiram no universo, o que explicaria quando alguém descobre algo que não havia sido pensado por outros seres humanos.

E nós com isso?

Estas são apenas algumas considerações sobre a fé. Tenho visto muitas pessoas discutirem na tentativa de impor aos outros o seu pensamento. Sinceramente, isso é uma estupidez. Conversar e apresentar argumentos é natural para o ser humano. E se todo mundo pensasse igual não haveria o que argumentar.
Se você vir uma manifestação de pensamento que não concorde com a sua, argumente de forma educada.
Não precisamos nos matar por causa do que não sabemos nem por aquilo em que acreditamos.

 


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8 comentários

  1. Avatar

    Que texto bacana, eu me equilibro entre ser ateu e agnostico, gosto de estudar as filosofias religioas, respeito cada tradição, e acredito que esse exemplo do indiano é bem educativo e didiatico. No entanto, o que me preocupa no momento é o uso da regilião como forma de estelionato e de concentração de renda. As religiões podem e cumprem um papel de pregar a bondade e o respeito, mas tambem, como em muitos momentos da história, foram usadas para massacrar, expoliar e corromper. Todos devem ficar atentos, pois, só existe o enganador por que há quem se deixe enganar.

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    Muito bom! A religião é o ópio do homem…

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    Nos feitos da terra o homem não estava com Deus! Pode tu explicar?

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      Como bem disse a Bíblia: ‘Diz o rolo em seu coração: ” Deus não existe!” Corromperam-se e cometeram injustiças detestáveis; não há ninguém que faça o bem.’ ( Salmos 53:1-3). Assim é com todos que preferem basear seus argumentos na ignorância e no conhecimento humano aparte de Deus! O autor desse artigo,que se declara “Agnóstico”, de uma forma sútil tenta provar e dar respaldo ás suas convicções com base em seu raciocínio falho, pois faltou argumentar sobre um assunto de suma importância da crença em Deus: A Fé e sua natureza! Deixemos que a Bíblia mesma explique essa palavra: “Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos. Pois foi por meio dela que os antigos receberam bom testemunho.’ ( Hebreus 11:1,2). E sobre a veracidade de que o mundo foi sim criado por Deus, a sua Palavra declara: ‘ Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a ovra de suas mãos.’ ( Samos 19:1) e tb : ‘ Do Senhor é a Terra e tudo que nela existe,o mundo e os que nele vivem; Pois,foi Ele que fundou-a sobre os mares e firmou-a sobre as águas. (Salmos 24:1,2). Queira o autor ou não, somos todos criaturas de Deus, vem como o mundo e o vasto universo. Se não fosse assim, como explicar o milagre da vida? Como explicar as leis perfeitas que regem as coisas existentes e o universo visível? Poderia tudo isso ser obra do mero acaso? Poderia tudo ter vindo á existência sózinho? Usando o ‘Raciocínio Lógico’ podemos responder que não, pois teria que ter tido alguém inteligente que projetou e criou tudo! Tb, o nosso conhecimento sobre o universo ainda é muitíssimo limitado. Mas isso por aí só, não pode provar que Deus não exista! Não pode o ser humano criado, finito e mortal compreender a mente do seu criador que é infinito e imortal! Deus se revela a nós através de sua criação e de sua Palavra, a Bíblia sagrada. Simples assim!

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    Quanta besteira. Sem Deus o homem não existe. A religião seja qual for ela conduz o homem de bem.

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    Em algum lugar no passado nossos ancestrais tomaram consciência sobre a ida sem volta após a morte dos entes queridos e sentiram a necessidade de que era preciso acreditar em algo para consolar.
    Sobre a atuação dos fundamentalistas, atualmente o sonho deve ser voltar aos tempos anteriores ao Iluminismo. Nada a ver com fascismo, como acusam seus opositores mais radicais, pois fascistas querem a religião à serviço do Estado, e não o contrário, como acontecia quando tudo teria que ser abençoado pelos líderes religiosos.

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    Ótimo comentário. Todos os conflitos que ocorrem no Oriente Médio e no Golfo é por causa das religiões. Evangélicos praticamente são o Oráculo do Presidente Bolsonaro. Por isso defendo o Estado Laico.

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      Os conflitos são por poder e dinheiro. A religião é no máximo um pretexto vagabundo para enganar bobos.
      Os curdos (maioria sunita) são mortos pelos turcos (maioria sunita), pelos sírios (maioria sunita governada por xiitas) e pelos iraquianos (maioria xiita).
      O conflito da Irã-Iraque durou quase 10 anos entre duas repúblicas islâmicas xiitas.
      O ISIS salafita mata indiscriminadamente xiitas, sunitas e salafitas que não forem aderentes aos seus princípios.
      Agora vocês querem resumir todos os problemas do Oriente Médio ao conflito de fronteiras entre um bando de palestinos esfarrapados que nunca foram uma nação e Israel e colocar isso na conta da religião.

      P.S.
      O Brasil é um estado laico.
      Quando você mata alguém, o juiz de direito e o juri te julgam e não o padre ou pastor.
      Quando você trai a sua mulher sem ela descobrir e se arrepende, você pode pedir aconselhamento ao padre, ao pastor ou ao pai de santo. O juiz de direito não está nem aí para isso.

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