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Sofrimento X Mudança

Matéria publicada em 7 de julho de 2017, 07:10 horas

 


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 “Nós sabemos quem nós somos, mas não sabemos quem nós podemos nos tornar.”

 Shakespeare

 

Sofrimento, palavra indesejada, emoção negativa que queremos ver sempre o mais distante possível de nós. Um sentimento que nasce de uma dor ou infelicidade, e muitas são as condições capazes de gerá-lo. Daí, devemos buscar ministrar o melhor dos remédios: a volta por cima, a tão importante e fundamental mudança.

O sofrimento pressupõe, muitas vezes, a necessidade imediata de avaliação, de busca, da quebra de paradigmas, de mudanças que irão significar a transformação desse sentimento negativo em felicidade, em algo que nos leve para frente, que nos provoque novas e boas ações, que nos faça fugir da inércia, saindo por completo da letargia e nos entregando à renovação.

O ato de sofrer revela-se uma sensação, consciente ou inconsciente, que se reflete na depressão ou na infelicidade. O sofrimento costuma estar associado à dor psicológica. A dor, portanto, surge na mente, não na realidade. Assim, não é a dor que transmite o sofrimento, mas a interpretação que nosso cérebro faz de determinadas situações ou ocorrências. Muitas vezes, supervalorizamos acontecimentos, bons ou ruins, e por conta disso nos agarramos a eles e não seguimos adiante, ficamos presos naquele instante quase eternizado. Saber nos enxergar como exatamente somos é algo primordial, assim como sempre buscar o lado positivo das coisas, nada de cultuar o pessimismo. Outra questão por demais pavorosa é ficar eternamente remoendo os pensamentos, dando a determinados assuntos o status de problemas graves ou insolúveis. Isso só serve para transformar tudo em um grande trauma, quase sem saída. É importante lembrar que, às vezes, é preciso perder aqui para ganhar mais à frente.

Segundo o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), sofrer significa muito mais do que sentir dor ou angústia. O sofrimento, na filosofia nietzschiana, é algo vantajoso na vida. Sem sofrimento não há vitória, não há sucesso. Embora muitos imaginem o sucesso como fácil e natural para algumas pessoas, na visão do referido filósofo não existe um caminho reto até chegar ao topo. “Não falem de dons ou talentos inatos”, ele escreveu. “Podemos listar muitas figuras importantes que não tinham talento, mas conquistaram seu mérito e transformaram-se em gênios. Elas fizeram isso superando dificuldades”. Nietzsche cunhou uma frase que marcou o significado do que é sofrimento: “Aquilo que não causa minha morte, torna-me mais forte”.

Mas, certamente, para fugirmos do sofrimento, precisamos ter força, buscar saídas, empreender mudanças. Só que mudanças não combinam com perdas, e sim com ganhos. São riscos que devemos de alguma forma assumir. O maior deles é não seguir o fluxo da vida com detida análise racional, não confiar tão cegamente no curso escolhido enquanto caminhamos, com trilhas e trechos conhecidos e seguros, intercalados por outros estreitos, acidentados e desafiadores. Creio que ousar seja a palavra de ordem nessa importante jornada. Correr riscos parece ser algo inevitável, mas, se estivermos seguros, conscientes do nosso desejo e do nosso papel, certamente vamos nos sagrar vencedores. Temos que pensar que o futuro que está logo ali à frente deve idealmente fluir das lições aprendidas do nosso passado de erros e fracassos, usando isso como arma de combate, nunca como uma bengala.

As mudanças, na maioria das vezes, estão associadas ao otimismo, que, por sua vez, carrega a marca do novo, do inédito, da descoberta. Tudo isso é o mais puro e necessário aprendizado. Na verdade, cada pessoa irá sentir e vivenciar essas etapas de uma maneira muito própria, pois se trata de algo extremamente pessoal, único – são momentos, experiências que cada indivíduo sente de uma forma, com mais ou menos intensidade. Ao final, a catarse acontece e sobrevém uma sensação inequívoca de renascimento, são as mudanças chegando e se instalando em nosso corpo, por todo ele.

A águia, que vive cerca de 80 anos, a meu ver, é o melhor exemplo para ilustrar o que representa o sofrimento e a mudança. Para as mudanças que fará em sua vida, ela depende somente de si mesma para sobreviver todo esse tempo. Entre os 40 e 50 anos de idade, ela precisa passar por uma série de transformações, que a levarão ao sofrimento extremo a fim de que possa sobreviver. A perda das penas, das garras e do bico, ações empreendidas por ela própria, até que tudo se renove e a deixe pronta para novos anos de vida e grandes voos. Temos que perceber que é através das mudanças que descobrimos as forças capazes de nos ajudar a erguer para a vitória.

 Coragem de mudar

Apesar das dificuldades, precisamos ter coragem para mudar, de preferência aproveitando oportunidades e caminhos bons e, sobretudo, novos. Tenhamos em mente que mudança é sinônimo de profundo aprendizado. Se a mudança, por algum motivo, der errado e houver a possibilidade de voltar atrás, não devemos ter medo ou receio: voltemos! Também temos o direito de errar em nossas escolhas, mas só nós podemos assumir todas as consequências de nossos erros. Lembremos sempre: em cada mudança, existe uma proporção de igual valor tanto para nos darmos bem quanto para nos darmos mal.

Então, é hora de parar e pensar. Pulsar é viver em constante movimento para a transformação. Não adianta querermos impor a perpetuação desse Universo que nos cerca. Nada é permanente, nada é para sempre, a morte das coisas e, sobretudo, das pessoas existe e não há como lutar contra essa regra imposta pela vida. Enquanto não aceitarmos essa irrevogabilidade, não conseguiremos encontrar a felicidade. O apego às coisas, à rotina e às pessoas que passam por nós muitas vezes nos impede de abrir espaços para o novo.

Nesse embate entre sofrimento e mudanças, ambos caminharão conosco por algum tempo em nossas vidas. Para cada pessoa, há um período próprio! Então, quando aceitarmos de verdade e por inteiro essa realidade e percebermos a inevitabilidade das mudanças, conseguiremos relaxar, iremos abandonar de vez o controle, entraremos em sintonia com a energia da fé e da continuidade natural do fluxo vivo e pulsante deste Universo. No entanto, será o nosso olho observador que vai discriminar e colocar em movimento a energia da manifestação de um determinado acontecimento, a nossa força aliada à nossa sensibilidade é que vai promover e traduzir a mudança. A partir daí, tudo ficará mais fácil de sentir e traduzir. Nunca nos esqueçamos de que somos merecedores de receber da vida o melhor que ela pode nos oferecer, e dependerá muito de nós promover essa maravilhosa transformação.

 

ARTUR RODRIGUES | [email protected]


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Um comentário

  1. Agradeço muito pelo que escreveu… construtivo e agradável!

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