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Somos a geração que descobriu o sistema solar

Matéria publicada em 21 de julho de 2015, 07:00 horas

 


Em 50 anos passamos das suposições para a realidade dos mundos; no meu tempo de criança os astrônomos acreditavam que as luas de Júpiter e Saturno não passavam de bolas de gelo

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Marte: Da concepção artística a foto real  (Fotos: Divulgação)

Marte: Da concepção artística a foto real
(Fotos: Divulgação)

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A passagem da sonda New Horizons pelo planeta Plutão, na semana passada, me levou de volta aos meus tempos de garoto. As crianças da minha geração colecionavam álbuns de figurinhas, como as de hoje, mas o assunto era diferente. No lugar dos jogadores de futebol e artistas colecionávamos figurinhas sobre astronomia, dinossauros e história natural. As figurinhas sobre a lua e os planetas eram muito bonitas, mas tinham mais imaginação do que ciência. Na época não existiam sondas espaciais e as únicas imagens dos planetas eram fotos desfocadas e borradas, feitas pelos telescópios aqui da Terra.
Na ausência de dados, os artistas usavam a imaginação. O americano Chesley Bonestell gostava de pintar imagens dos planetas vistos de suas luas. E suas “concepções artísticas” seriam de base para as figurinhas dos álbuns. Marte, por exemplo, tinha umas manchas verdes que deviam ser regiões cobertas de vegetação. E umas linhas, que podiam ser canais de irrigação construídos pelos marcianos.
Bonestell também ficou entusiasmado quando os astrônomos descobriram que a lua Titã, de Saturno, tinha uma atmosfera de gás metano. E pintou uma paisagem nevada com Saturno em quarto crescente em um céu azul anil. Colávamos essas figurinhas nos álbuns e imaginávamos como seria fantástico poder ir até lá, em um foguete espacial, e ver Saturno nascendo no horizonte de Titã, como vemos a Lua nascer aqui na Terra.
Não foi preciso. Com as sondas espaciais robóticas a minha geração descobriu o sistema solar, sem sair de casa. A partir de 1962 a agência espacial americana, Nasa, começou a enviar robôs para todos os mundos retratados pelo Bonestell em suas pinturas. E eles não eram como o artista tinha imaginado. Compare a ilustração de Marte aí em cima, feita em 1952, com a foto tirada nos anos 80 por uma sonda espacial. Não existem canais nem manchas verdes, Marte é um imenso deserto com regiões rochosas escuras. E não existem marcianos.
Saturno foi visitado pela sonda Cassini, que depositou um pequeno robô, o Huygens, na superfície de Titã. E descobrimos que não dá pra ver Saturno nascendo no horizonte titaniano. A atmosfera, que Bonestell imaginava azul e transparente, é formada por nuvens opacas, cor de laranja. Em Titã o céu é permanentemente nublado. Mas em outros aspectos, a realidade superou a imaginação.
No meu tempo de criança os astrônomos acreditavam que as luas de Júpiter e Saturno não passavam de bolas de gelo, sem graça nenhuma. É assim que elas aparecem nas pinturas de Bonestell. E quando os robôs chegaram lá foi uma surpresa. Io, uma das maiores luas de Júpiter, é um inferno de vulcões em erupção e lagos de lava borbulhante. Se um astronauta destemido tentar descer lá correrá o risco de morrer fritado e não congelado. E as luas de Saturno, como Enceladus e Mimas tem gêiseres, vulcões gelados que lançam água no espaço sideral.
Todos os livros e álbuns de figurinhas sobre astronomia incluiam uma concepção artística de como seria a paisagem desolada de Plutão. Um mundo coberto de neve, onde o Sol é pouco mais do que uma estrela brilhante no céu. Na época ninguém sabia que Plutão tinha o céu adornado por várias luas. Como Caronte, que só foi descoberta em 1978. Agora, todas as concepções da superfície de Plutão incluem Caronte no céu estrelado. Alguns artistas, como Don Dixon imaginaram lagos de gás neon liquefeito em Plutão. O estudo das imagens enviadas pela New Horizons vai determinar se isso é verdade ou não. As últimas fotos mostram áreas escuras com meandros que parecem rios.
Uma coisa é certa. O Universo é muito mais bonito e colorido do que imaginávamos. Só falta encontrar vida, mas a Nasa acha que isso não vai levar muito tempo.

 

Jorge Luiz Calife | jorge.calife@diariodovale.com.br


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Um comentário

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    A descoberta do Universo é algo espantoso. O interessante é que quanto mais sabemos sobre o cosmo, melhor entendimento adquirimos sobre o significado de nossa pobre existência aqui neste planeta Terra. Torna-se até uma piada o nosso cotidiano, repleto que é de comportamentos vazios e sem expressividade. Somos por demais insignificantes frente à inimaginável imensidão do Universo, até então conhecido. Mais surpresas científicas estão por vir, é só aguardar!

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