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Tempestade de primeiro mundo, país de terceiro mundo

Matéria publicada em 28 de abril de 2015, 06:34 horas

 


Tornado em Xanxerê mostra que o Brasil não está preparado, aquele país abençoado por Deus, onde não existe furacão nem terremoto era no passado, antes da mudança climática global

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Xanxerê: Sem aviso, sem abrigo, sem escapatória (Foto: Defesa Civil de Santa Catarina )

Xanxerê: Sem aviso, sem abrigo, sem escapatória (Foto: Defesa Civil de Santa Catarina )

O tornado que devastou a cidade de Xanxerê, em Santa Catarina foi digno de um filme americano. Algumas imagens da tormenta destruindo as torres de energia elétrica pareciam tiradas do filme “No Olho do Tornado”, exibido nos cinemas no ano passado. O que se viu em seguida foi uma demonstração de que o Brasil não está preparado para esse tipo de evento climático. O radar que poderia ter detectado a aproximação da tempestade estava quebrado. Mas mesmo que estivesse funcionando não teria ajudado muito. O único meio de escapar de um tornado é fugir para um abrigo no subsolo, coisa que não havia em Xanxerê.

Além de fazer filmes sobre tornados os americanos convivem com eles há séculos. Por isso aprenderam a se defender. O “corredor dos tornados” nos Estados Unidos começa no Texas e se estende pelo meio oeste, indo até os estados de Oklahoma e Kansas. Foi no Kansas que o tornado carregou a casa da menina Dorothy e a levou para o mundo mágico de Oz, no clássico de Hollywood. Nessas regiões as casas têm abrigos escavados no porão, onde as pessoas se abrigam quando um redemoinho se aproxima.

Além disso, o serviço de meteorologia dos Estados Unidos tem torres com radares Doppler instalados nas regiões mais sujeitas ao fenômeno. E sempre que se aproxima uma frente de tormenta, como a do dia 20 passado, o avanço da massa de ar é acompanhado por satélites no espaço. As pessoas ligam a televisão e recebem boletins de hora em hora. Se um tornado é detectado a televisão dá o alerta e avisa ao povo para procurar abrigo.

Nada disso existe no Brasil. Aquele país abençoado por Deus, onde não existe furacão nem terremoto. O problema é que isso era no passado, antes da mudança climática global. Nos últimos cinco anos foram registrados vários tornados na região sul e sudeste. Um deles causou muita destruição na cidade de Taquarituba, em São Paulo, em setembro de 2013. Outro atingiu a região de Itu, e agora um tornado classe F-2 na escala Fujita matou duas pessoas em Xanxerê e deixou três em estado grave. Podia ter sido muito pior. Por sorte era véspera de feriado, e como é hábito no Brasil as escolas da cidade estavam vazias. Em uma delas o tornado destruiu o refeitório e a quadra de esportes. Uma professora ouvida pela televisão explicou que a tempestade chegou na hora do recreio, se não fosse feriado o refeitório demolido estaria cheio de crianças.

Isso mostra que a mentalidade brasileira precisa mudar. Temos que nos ajustar a nova realidade do clima extremo. E a ameaça não é só nas regiões sul e sudeste. No mesmo dia em que o tornado F-2 arrasava Xanxerê uma tromba de água (tornado marítimo) foi filmada no Rio Amazonas. Outra já foi fotografada na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Essas trombas são tornados que se formam sobre o mar, rios e lagos. Elas não costumam causar muita destruição porque raramente avançam sobre a costa. Mas são perigosas para banhistas e pequenas embarcações. Nos Estados Unidos a Guarda Costeira monitora o fenômeno. Aqui apenas os curiosos prestam atenção e fazem imagens.

Esses fenômenos foram previstos há vinte anos pelos teóricos da mudança climática. Eles já diziam, em 1992, que o aquecimento global ia tornar as tempestades mais violentas e trazer os furacões para as latitudes mais altas. Trombas marinhas sempre foram comuns no mar do Caribe devido às águas mornas de corrente do Golfo. Agora frequentam a costa brasileira devido ao aquecimento do Atlântico Sul.

Em 2004 um pequeno furacão avançou durante a noite sobre a costa de Santa Catarina. O mesmo estado atingido pelos tornados. Quem mora nessas regiões deve se precaver e começar a construir um abrigo no porão ou no quintal de casa. Custa mais barato do que uma piscina e pode salvar a família inteira se o pior acontecer.

Jorge Luiz Calife/ jorge.calife@diariodovale.com.br


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Um comentário

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    Desculpe Calife, mas o fato de ser país de terceiro mundo nada tem a ver com a intensidade dos estragos. Xanxerê é uma cidade de colonização europeia, com IDH alto e muitas construções de madeira, igual nos EUA. Fosse nos EUA seria igual ou pior, como sempre vemos… Ao contrário do que vc disse, o Sul do Brasil (também Argentina, Paraguai e Uruguai) é uma das regiões mais sujeitas a ocorrência de tornados, embora a intensidade não costume ser tão forte a ponto de justificar o gasto (sempre exorbitante) com aparato preventivo…

    O que diferencia os EUA do Brasil, neste caso específico, não é a potencialidade dos estragos provocados, mas sim a forma de se lidar com eles, porém mesmo aí há controvérsias. Pergunte a algum morador de New Orleans à época do furacão Katrina o que ele pensa da assistência dada pela Casa Branca… Vc trocaria os tornados brasileiros pelos furacões estadunidenses?…

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