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Tesouradas em Machado

Matéria publicada em 14 de fevereiro de 2020, 14:33 horas

 


O Brasil é um país sui generis, quando você pensa que tudo vai entrar nos eixos, que teremos uma vida com menos surpresas e problemas, que as águas virão somente em março para fechar o verão, eis que elas chegam arrasando inúmeros estados brasileiros, ainda em janeiro e fevereiro.
Mas não é bem de chuva que eu quero falar hoje, mas essa conversa passa certamente pela estranheza das mudanças e das coisas fora da ordem que vivemos nessa Terra Brasilis.
Li outro dia um artigo que dizia que, na Islândia, a tradição do Natal é a de trocar livros. Além de evitar o consumo exacerbado, a prática incentiva a leitura e promove a cultura. Uma atitude como essa só tem pontos positivos, que vão desde a economia financeira e a sustentabilidade, até a promoção de hábitos simples e prazerosos, que, afinal, estão cada vez mais esquecidos. A leitura tem um papel fundamental na cultura irlandesa. Um artigo publicado pela BBC apresentou uma pesquisa sobre a relação entre os irlandeses e os livros, mostrando que muitos (uma em cada dez pessoas) são leitores tão ávidos que acabam se tornando escritores.
Outra matéria que chamou bastante atenção foi a que dizia que os franceses leem cerca de 20 livros por ano, cinco vezes mais do que os brasileiros. Na verdade, uma situação bem paradoxal, pois a venda de livros na França registrou, nos últimos dois anos, uma forte queda, mas ao mesmo tempo nunca se leu tanto naquele país. Em uma terra que tem o privilégio de contar com escritores do calibre de Marcel Proust, Victor Hugo, Alexandre Dumas e Gustave Flaubert, entre dezenas de outros, 88% da população se declaram leitores regulares, e lendo em média 21 livros por ano. Trata-se de uma comparação inquietante, se pensarmos em termos de Brasil, que tem igualmente nomes magníficos em suas prateleiras, mas apenas 52% são leitores, e eles leem menos de cinco livros por ano. Uma lástima.
Não cabe aqui desfilar um rosário de desculpas, como a de que o livro, no Brasil, é caro, inacessível e que devido ao valor do salário, é inconcebível ter uma brochura como item da cesta básica. O livro, sim, é caro, mas existem alternativas para driblar esse mal: há bibliotecas públicas e particulares de inúmeras entidades, ou ainda os “sebos” espalhados pela cidade. Se lêssemos pelo menos um livro por mês, essa média seria menos significativa, e saltaríamos felizes dos medíocres cinco livros para 12 livros por ano.
Um país que tem Guimarães Rosa, Cecilia Meireles, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Lygia Fagundes Telles, Oswald de Andrade, Cora Coralina, Ruy Barbosa, Rachel de Queiroz, Adélia Prado e Machado de Assis é merecedor de aplausos e até de leitores. Porém, não podemos viver sob a égide da censura insana e patética, como a que nos surpreendeu na última semana, no Estado de Rondônia. Aconteceu uma desastrada tentativa de recolher títulos da Literatura brasileira, como de Euclides da Cunha, Mário de Andrade, Rubem Fonseca, Ferreira Gullar, Caio Fernando Abreu, Machado de Assis, dentre outros. Ao todo, foram 43 títulos que receberam censura, obras que foram tachadas de inadequadas para crianças e adolescentes. Sem dúvida, um momento singular vivido pela nossa Literatura, em pleno século XXI: ignorou-se, com todas as letras, a importância de nossa identidade.
Para quem não sabe – acredito que o secretário de Educação de Rondônia, Suamy Vivecananda não sabe -, que Machado de Assis é um dos mais importantes escritores brasileiros, senão o mais importante de sua época. Sentar-se a uma mesa e sem o menor conhecimento prévio ir decidindo, de maneira indiscriminada, sobre a vida de autores e leitores é indiscutivelmente um assassinato literário sem direito à defesa.
Uma atitude tresloucada como essa despreza inteiramente a relevância de símbolos comuns, de narrativas e de crônicas, de um legado que somente agora, da noite para o dia, descobre-se nocivos aos jovens leitores. Se não fosse triste e horrorosa essa atitude, ela seria, no mínimo, engraçada, digna de figurar em algum programa de humor da TV.
O fato de o governo não concordar com o conteúdo das obras não quer dizer que as publicações sejam impróprias, pois trata-se de clássicos da Literatura. Na verdade, a leitura dessas publicações deveria ser incentivada, jamais censurada. Infelizmente, o governo do Estado de Rondônia não negou a existência da lista com os nomes das 43 obras censuradas, mas voltou atrás na sua decisão e disse que tudo seria devidamente explicado, se é que isso tem alguma possibilidade de explicação.
Tudo isso me faz lembrar do professor, advogado e deputado federal Ulysses Guimarães (morto em um acidente aéreo em outubro de 1992), quando afirmou: “A censura é a inimiga feroz da verdade. É o horror à inteligência, à pesquisa, ao debate, ao diálogo. Decreta a revogação do dogma da falibilidade humana e proclama os proprietários da verdade”.

Páginas: Franceses leem cerca de 20 livros por ano, cinco vezes mais do que os brasileiros

 

 


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