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Tomada de três pinos e outros choques

Matéria publicada em 19 de abril de 2019, 08:00 horas

 


O presidente Jair Bolsonaro, que acaba de somar seus 100 primeiros dias de governo, ainda está (como ele costuma dizer) em namoro com o seu novo papel, depois que deixou de ser deputado federal com 27 anos de mandato. Ele ainda não noivou e muito menos se casou com o povo brasileiro, ou seja, os quase 58 milhões de eleitores ainda estão esperando ações marcantes e objetivas do capitão, inclusive aqueles que preferiam ter Fernando Haddad no comando do país.
Mas o que Bolsonaro pensa mesmo é em simplificar as coisas, objetivando que o povo possa entender minimamente as questões ligadas ao governo. Ele pretende promover cortes de toda ordem, e o primeiro ato dessa mudança “radical” ele já tratou de fazer: extinguiu o horário de verão, inimigo daqueles que reclamam de acordar uma hora mais cedo durante quatro meses em muitos estados brasileiros.
A seguir, outro feito “significativo”: o corte do termo “excelência” no tratamento dado às autoridades, deixando, assim, o relacionamento menos distante, mas não necessariamente mais íntimo.
A próxima meta será o fim da tomada de três pinos, retornando ao que era quase nove anos atrás, quando o então presidente do Instituto Nacional de Metrologia e Tecnologia (Inmetro), Armando Mariante, obrigou, literalmente, cerca de 196 milhões de pessoas a gastar quase 1 bilhão e meio de reais para fazer a troca de tomadas em mais de 60 milhões de residências em todo o país. Agora, a tomada de três pinos parece estar com seus dias contados.
Tudo que a nova tomada prometera até então ficou no ora veja, simplesmente porque dependia de que as residências brasileiras fossem aterradas. É que o simpático terceiro pino só funciona em imóveis com aterramento, que seria uma barra de cobre de três metros cravada na terra. Uma pesquisa imediata fez cair igualmente por terra essa segurança, já que mais da metade das residências brasileiras não dispõe de aterramento elétrico. É bom que se diga que esse modelo, só é encontrado na África do Sul e em Lichtenstein, na Suíça, entre os participantes do IEC.
Outra medida que o presidente deseja colocar em prática o mais breve possível é o fim do Acordo Ortográfico (algo do qual falei aqui na semana passada). Esse acordo levou 19 anos para entrar em prática, somando as particularidades linguísticas dos países lusófonos. Se for revogado, trará de volta o trema, mexerá no hífen e relegará as letras K W e Y novamente ao velho quarto escuro do ostracismo. E o pior de tudo: professores, editores, revisores, profissionais do universo das publicações ficarão perdidos, isso sem contar os leitores, porque os livros atualizados tão recentemente deixarão de sê-lo e novas publicações, com a ortografia do passado recente, voltará a valer no dia a dia do nosso Português.
E as promessas não param. Além das já listadas, a ampliação do prazo de validade da Carteira Nacional de Habilitação (CNH), passando dos atuais cinco anos para dez, possivelmente. Também o fim da exigência de simuladores em autoescolas, conforme resolução de 2015 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran). Para melhorar ainda mais o quesito trânsito, o presidente quer dar uma mexida significativa nos radares e nas lombadas eletrônicas. Segundo ele, essa forma de punição aos motoristas não passa de uma arrecadação extremamente lucrativa por parte das concessionárias federais e que em nada serve para ensinar o motorista infrator. E para provar que não estava de brincadeira suspendeu a instalação de oito mil novos radares eletrônicos nas rodovias federais do país.
Os representantes das concessionárias não gostaram nem um pouco do que ouviram do presidente, e temem que a sociedade passe a demonizar de vez os radares. Eles alegam que um radar instalado em local correto é capaz de evitar graves acidentes. No Brasil, são registradas cerca de 40 mil mortes por acidente de trânsito ao ano.
Para fechar com chave de ouro, as urnas eletrônicas “sairão” de cena, ou, se tiverem uma chance, poderão até permanecer no cenário nacional, mas sofrerão algum tipo de mudança que permita serem auditadas quase que simultaneamente. O eleitor receberá diretamente da urna, uma espécie de recibo, um comprovante do voto que foi digitado. Acho que o presidente Bolsonaro não pensou em voltar tão ao passado, ou seja, retomar o uso das velhas cédulas de papel, assim como ainda é feito em boa parte do mundo. Isso certamente postergaria o resultado da eleição por alguns dias, diferentemente do que acontece hoje com as urnas eletrônicas: em muitos casos, em menos de duas horas já sabemos os nomes dos candidatos eleitos.
Boas para uns, tolas para outros, engraçadas para muitos, as mudanças propostas pelo presidente certamente são a cara de um novo governo, o qual ainda não mostrou, de verdade, ao que veio, mas dá sinais de que, mesmo com tais ações, quer o melhor para o país. Acredito que um voto de confiança deva ser dado. Afinal, torcer contra é o mesmo que tentarmos acertar o nosso próprio pé com um tiro dado por nós mesmos. Então, só nos resta aguardar as novas surpresas palacianas.


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5 comentários

  1. Avatar

    Recruta, bom dia.

    Só lamento que as críticas não venham com nome e email, seria por demais interessante conversar e ler através do que pode chamar de transparencia. Até porque sempre falo sério. Abraços cordiais.

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    Isto mesmo, boa idéia, de possse do voto impresso o cidadão sai da sessão eleitoral e vai direto apresentar para o representante da milícia da área que ele vota o seu voto comprovando que fez direitinho conforme combinado. Acorda meu amigo.

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    VC não pode estar falando sério. Como sei que vc não está falando sério aí vai minha resposta. kkkkk

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      EDUARDO PONCE DA MOTTA

      O voto impresso não fica com o eleitor, ele é depositado numa urna após o eleitor conferir que está igual ao que realmente votou. A apuração continua eletrônica e o resultado sai com a mesma rapidez atual. As urnas com votos impressos servem apenas para verificação aleatória da correção da apuração eletrônica e para um eventual pedido de recontagem dos votos. É apenas um modo de aumentar a segurança da votação, para que se tenha certeza de que a vontade do eleitor foi respeitada. A única crítica válida que se poderia fazer é quanto ao custo desse sistema, que tem impedido a sua implantação até agora.

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