domingo, 23 de fevereiro de 2020

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / Tomara que dê errado

Tomara que dê errado

Matéria publicada em 7 de fevereiro de 2020, 14:19 horas

 


Depois do lamentável episódio protagonizado pelo recém demitido secretário de Cultura, Roberto Alvim, o qual, flertou em um discurso descaradamente com o nazismo de Adolf Hitler, fala que trazia a marca de um dos homens mais importantes do ditador do Reich alemão, Joseph Goebbels, restou ao presidente, após demiti-lo da pasta, convidar a atriz Regina Duarte para assumir a Secretaria, sabedor que é do enorme apreço que ela tem pelo seu governo e um dos poucos nomes com credibilidade para mais uma substituição.
O que se apresentou de pronto e que foi chamado de “namoro” e depois de “noivado” entre o presidente e a atriz foi certa cautela por parte de Regina, que, antes de dar o seu “sim”, no último dia 29, após três reuniões com parte da equipe da Secretaria, buscou conhecer pormenorizadamente a pasta para que pudesse assumi-la com segurança.
Passado o tempo e já com o “casamento” com a Secretaria às portas da igreja, ou melhor, do Palácio do Planalto, Regina Duarte foi alvo das mais terríveis críticas, tanto do público acostumado a vê-la nas telas da TV, desde quando estreou em 1965 na TV Excelsior, quanto por parte dos seus colegas de profissão. Um dos mais vorazes críticos foi o ator, declaradamente petista, José de Abreu, que publicou em sua rede social a deselegante provocação: “Seu povo, o povo dele, do presidente Bolsonaro, não o povo brasileiro: ministros analfabetos, milicianos, corruptos, nazistas, militares e policiais assassinos, torturadores, pedófilos. Realmente, ela está preparada para o cargo”. Não satisfeito, após um erro da atriz no hasteamento da Bandeira, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, ele voltou a dizer: “Regina! Pede para sair. Vexame demais! Você vai fazer o brasileiro pensar que nós, da classe artística, somos todos idiotas como você!”.
Outro que direcionou a sua crítica à atriz foi seu colega de profissão, Lima Duarte, o eterno Sinhozinho Malta, personagem que viveu ao longo de muitos capítulos da novela “Roque Santeiro”, encenada entre os anos de 1985 e 1986. Houve cenas recheadas de humor e paixão entre ambos, transformando os atores em um casal icônico da TV brasileira. “É perfeito para o Brasil de hoje: Sinhozinho Malta na Presidência e Viúva Porcina na Cultura. Claro que é um Sinhozinho Malta, modéstia à parte, sem o charme do próprio. Bolsonaro e charme são duas coisas incompatíveis”, disparou o veterano ator.
O ator Pedro Cardoso, o eterno Agostinho de “A Grande Família” conhecido pela sua forma de colocar suas ideias, muitas vezes, de maneira rude, posicionou-se em relação à presença da atriz na Secretaria de Cultura: “Regina, ou qualquer Alvim, não é ninguém que possa fazer diferença. Ela irá apenas emprestar a sua biografia e fama para dar ares de maior simpatia ao cargo que o desastrado anterior maculou”.
As atrizes Carolina Ferraz e Antonia Fontenelle foram taxativas acerca da indicação da atriz: elas fizeram imediatamente questão de negar qualquer apoio a Regina Duarte. Carolina Ferraz foi um pouco mais além: gravou um áudio para atriz no Instagram, dizendo: “Regina, não imaginei que você fosse colocar minha foto ou a foto de qualquer um, colega nosso, sem até comentar ou pedir autorização da gente, né? Realmente, torço para que você consiga exercer e fazer a diferença em um governo que desprestigia tanto a classe artística”.
O número de insatisfeitos com Regina Duarte, dia após dia, foi engrossando: as atrizes Carla Daniel e Beth Goulart e os atores Luiz Fernando Guimarães e Mario Frias foram alguns dos insatisfeitos com a divulgação de suas imagens no Instagram da atriz. Ela buscava a todo custo somar colegas de trabalho em apoio a sua nova atividade.
Obviamente que não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos, e Regina Duarte sabe muito bem disso, tanto que já se desligou da emissora em que trabalhou por 50 anos, a Rede Globo. A atriz já teve que fazer inúmeras mudanças para se adequar ao novo cargo. Ela tem, do alto do seu conhecimento, todas as possibilidades de fazer história, mesmo que a dotação orçamentária da Secretaria em questão seja igualmente apavorante como um filme de terror, 0,6%.
Infelizmente, a torcida que se debruça à janela contra a escolha da atriz não é nem um pouco pequena. Apoios foram bem poucos, como, por exemplo, o do ator Carlos Vereza, ferrenho defensor do governo Bolsonaro. Ele foi convidado por Regina para ser o número 2 da pasta, assumindo, caso aceite, a Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto. Marcio Garcia, Rosamaria Murtinho, o cantor Bochecha, a novelista Glória Perez e o jornalista Alexandre Garcia, manifestaram-se, também, a favor da nova secretária de Cultura.
Independentemente de gostar ou não do atual governo ou da veterana atriz, acredito que o que deveria ser feito – nesse caso, um ato de inteligência acima de tudo – seria o de ajudá-la, tanto o público quanto os colegas de profissão de Regina Duarte, nessa difícil empreitada, de forma que ela faça sucesso, possibilitando, assim, que o Teatro, o Cinema, a Literatura, o Audiovisual, as Artes Plásticas, entre outros segmentos culturais, possam ter de volta os seus espaços, saindo do limbo em que se encontram no momento. Não é o momento de torcermos contra nós mesmos, porque nos estaríamos privando de tudo o que a Cultura nos possibilita como lazer e aprendizado.
Desejar o insucesso de Regina Duarte na função de secretária de Cultura é muito mais que matar a mocinha – a “Namoradinha do Brasil” – logo no primeiro capítulo da novela. Quem nunca sonhou e acreditou em finais felizes?

 

Secretaria de Cultura: Atriz já teve que fazer inúmeras mudanças para se adequar ao novo cargo


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*

Untitled Document