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Tomara que dê errado

Matéria publicada em 7 de fevereiro de 2020, 14:19 horas

 


Depois do lamentável episódio protagonizado pelo recém demitido secretário de Cultura, Roberto Alvim, o qual, flertou em um discurso descaradamente com o nazismo de Adolf Hitler, fala que trazia a marca de um dos homens mais importantes do ditador do Reich alemão, Joseph Goebbels, restou ao presidente, após demiti-lo da pasta, convidar a atriz Regina Duarte para assumir a Secretaria, sabedor que é do enorme apreço que ela tem pelo seu governo e um dos poucos nomes com credibilidade para mais uma substituição.
O que se apresentou de pronto e que foi chamado de “namoro” e depois de “noivado” entre o presidente e a atriz foi certa cautela por parte de Regina, que, antes de dar o seu “sim”, no último dia 29, após três reuniões com parte da equipe da Secretaria, buscou conhecer pormenorizadamente a pasta para que pudesse assumi-la com segurança.
Passado o tempo e já com o “casamento” com a Secretaria às portas da igreja, ou melhor, do Palácio do Planalto, Regina Duarte foi alvo das mais terríveis críticas, tanto do público acostumado a vê-la nas telas da TV, desde quando estreou em 1965 na TV Excelsior, quanto por parte dos seus colegas de profissão. Um dos mais vorazes críticos foi o ator, declaradamente petista, José de Abreu, que publicou em sua rede social a deselegante provocação: “Seu povo, o povo dele, do presidente Bolsonaro, não o povo brasileiro: ministros analfabetos, milicianos, corruptos, nazistas, militares e policiais assassinos, torturadores, pedófilos. Realmente, ela está preparada para o cargo”. Não satisfeito, após um erro da atriz no hasteamento da Bandeira, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, ele voltou a dizer: “Regina! Pede para sair. Vexame demais! Você vai fazer o brasileiro pensar que nós, da classe artística, somos todos idiotas como você!”.
Outro que direcionou a sua crítica à atriz foi seu colega de profissão, Lima Duarte, o eterno Sinhozinho Malta, personagem que viveu ao longo de muitos capítulos da novela “Roque Santeiro”, encenada entre os anos de 1985 e 1986. Houve cenas recheadas de humor e paixão entre ambos, transformando os atores em um casal icônico da TV brasileira. “É perfeito para o Brasil de hoje: Sinhozinho Malta na Presidência e Viúva Porcina na Cultura. Claro que é um Sinhozinho Malta, modéstia à parte, sem o charme do próprio. Bolsonaro e charme são duas coisas incompatíveis”, disparou o veterano ator.
O ator Pedro Cardoso, o eterno Agostinho de “A Grande Família” conhecido pela sua forma de colocar suas ideias, muitas vezes, de maneira rude, posicionou-se em relação à presença da atriz na Secretaria de Cultura: “Regina, ou qualquer Alvim, não é ninguém que possa fazer diferença. Ela irá apenas emprestar a sua biografia e fama para dar ares de maior simpatia ao cargo que o desastrado anterior maculou”.
As atrizes Carolina Ferraz e Antonia Fontenelle foram taxativas acerca da indicação da atriz: elas fizeram imediatamente questão de negar qualquer apoio a Regina Duarte. Carolina Ferraz foi um pouco mais além: gravou um áudio para atriz no Instagram, dizendo: “Regina, não imaginei que você fosse colocar minha foto ou a foto de qualquer um, colega nosso, sem até comentar ou pedir autorização da gente, né? Realmente, torço para que você consiga exercer e fazer a diferença em um governo que desprestigia tanto a classe artística”.
O número de insatisfeitos com Regina Duarte, dia após dia, foi engrossando: as atrizes Carla Daniel e Beth Goulart e os atores Luiz Fernando Guimarães e Mario Frias foram alguns dos insatisfeitos com a divulgação de suas imagens no Instagram da atriz. Ela buscava a todo custo somar colegas de trabalho em apoio a sua nova atividade.
Obviamente que não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos, e Regina Duarte sabe muito bem disso, tanto que já se desligou da emissora em que trabalhou por 50 anos, a Rede Globo. A atriz já teve que fazer inúmeras mudanças para se adequar ao novo cargo. Ela tem, do alto do seu conhecimento, todas as possibilidades de fazer história, mesmo que a dotação orçamentária da Secretaria em questão seja igualmente apavorante como um filme de terror, 0,6%.
Infelizmente, a torcida que se debruça à janela contra a escolha da atriz não é nem um pouco pequena. Apoios foram bem poucos, como, por exemplo, o do ator Carlos Vereza, ferrenho defensor do governo Bolsonaro. Ele foi convidado por Regina para ser o número 2 da pasta, assumindo, caso aceite, a Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto. Marcio Garcia, Rosamaria Murtinho, o cantor Bochecha, a novelista Glória Perez e o jornalista Alexandre Garcia, manifestaram-se, também, a favor da nova secretária de Cultura.
Independentemente de gostar ou não do atual governo ou da veterana atriz, acredito que o que deveria ser feito – nesse caso, um ato de inteligência acima de tudo – seria o de ajudá-la, tanto o público quanto os colegas de profissão de Regina Duarte, nessa difícil empreitada, de forma que ela faça sucesso, possibilitando, assim, que o Teatro, o Cinema, a Literatura, o Audiovisual, as Artes Plásticas, entre outros segmentos culturais, possam ter de volta os seus espaços, saindo do limbo em que se encontram no momento. Não é o momento de torcermos contra nós mesmos, porque nos estaríamos privando de tudo o que a Cultura nos possibilita como lazer e aprendizado.
Desejar o insucesso de Regina Duarte na função de secretária de Cultura é muito mais que matar a mocinha – a “Namoradinha do Brasil” – logo no primeiro capítulo da novela. Quem nunca sonhou e acreditou em finais felizes?

 

Secretaria de Cultura: Atriz já teve que fazer inúmeras mudanças para se adequar ao novo cargo


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