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Trem da vida

Matéria publicada em 22 de fevereiro de 2019, 08:09 horas

 


Os dias nunca são iguais, jamais. Nunca saberemos as surpresas que se apresentarão na curva da estrada ao longo das 24 horas do dia. Este ano, o trem-bala da vida tem seguido numa velocidade surpreendente, estonteante, e nos apresentando situações de toda ordem, sobretudo doloridas.
O Brasil, desde o início desse ano, foi vítima de terríveis catástrofes, esses fatos assustadores que nos provocam perguntas, sempre com o temor de que sejamos, em algum momento, vítimas do inusitado, sobretudo pelo descaso pelo qual passamos diariamente. As mortes ocorridas na cidade de Brumadinho, em Minas Gerais; no centro de treinamento do Flamengo (Ninho do Urubu), no Rio de Janeiro; no supermercado Uno, na zona Norte do mesmo estado; e os inúmeros desabamentos acontecidos no Rio e em São Paulo, em função das fortes chuvas, isso se falar dos outros estados, concentram-nos em um círculo de vulnerabilidade e insegurança.
Em apenas um mês e meio, não foram poucos os acontecimentos que nos abalaram, provocando uma comoção e uma imensa tristeza. Mortes que vão ficar para sempre na memória dos brasileiros, porque o descaso foi à tônica.
Estamos sendo engolidos por uma onda de fatos que somente depois de ocorridos é que se percebem as falhas. São sempre motivações de ordem política, descuidos que poderiam ser evitados porque era sabido qual seria o resultado se não fosse interrompido a tempo o seu desenrolar; mas, infelizmente, os erros foram bem maiores do que os acertos – e tudo aconteceu como se não fosse previsível.
As coisas se banalizaram de tal forma que o que choramos hoje, amanhã ou logo depois cai no esquecimento, isso porque outra tragédia já se avizinha e temos que estar prontos para novos sustos e lágrimas.
Quanto vale uma vida humana? Qual o preço de cada uma das quase duzentas vítimas desaparecidas na cidade de Brumadinho? E os adolescentes mortos na sede do Flamengo? Ou as vítimas dos desabamentos nos morros e tantos outros casos que nem uma centena de crônicas daria conta de enumerar?
O trem-bala nos atropelou, lamentavelmente, quando, na verdade, a sua mensagem deveria ser positiva, fazendo-nos ver e aproveitar os bons momentos com as pessoas que amamos. Mas isso parece uma utopia. Se não valorizamos o sentimento maior, que é o amor, a vida torna-se um mero lugar-comum, uma vez que o dinheiro anda ocupando parte substancial no coração de muitos.
Inundações, deslizamentos, furacões, erupções vulcânicas, terremotos, tsunamis e nevascas são eventos que transcendem, em escala temporal, a existência humana. Muitos deles, como inundações e furacões, são eventos cíclicos, e acontecem em determinadas regiões do planeta com periodicidade anual. O incrível é que aqui, onde esses eventos são praticamente inexistentes, a lei de Murphy parece atuar de maneira avassaladora, e tudo ou quase tudo do qual somos vítimas passa pelo descaso e pelo eterno postergar. Portanto, “se algo pode dar errado, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo a causar o maior estrago possível.” Essa é uma das variantes da famosa Lei de Murphy, enunciada nos anos 1960 pelo engenheiro da NASA Edward Murphy. Aqui no Brasil, se não temos, fabricamos eventos que nos destruam.
O Brasil, muitas vezes ufanista, discute o aumento do PIB e a melhora no poder de compra da população, mas também deveria debater sobre os desafios para um crescimento verdadeiramente sustentável, com infraestrutura eficiente. Mas é bom que se pense e que se saiba, sobretudo, que crescimento sustentável também deveria significar propiciar uma vida melhor para a sociedade e, portanto, proteger as populações de eventos catastróficos provocados pelo homem. Os recentes eventos de chuvas e inundações em diversas partes do país, assim como tantas outras catástrofes observadas nos últimos meses, evidenciaram que o Brasil ainda está muito distante de responder satisfatoriamente a esses eventos naturais. No nosso país, que os eventos sociais são iguais, pois eles acontecem de forma devastadora, assim como os que ocorrem na natureza.
Enquanto vivermos (des)cuidados pela inércia e a parcimônia de muitos políticos e dirigentes, vamos continuar chafurdados na lama do pouco-caso, e ficaremos reféns do trem da vida, que, na velocidade de um legítimo trem-bala, atropela-nos de maneira contundente, covarde e nem um pouco natural.


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