domingo, 17 de novembro de 2019

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / Um dia de Mandrake

Um dia de Mandrake

Matéria publicada em 22 de outubro de 2019, 09:26 horas

 


Ou porque os jornalistas nunca morrem de tédio…

O jornalismo é uma profissão cheia de surpresas. Tem momentos difíceis, lances perigosos, episódios insólitos, mas, as vezes, é muito divertida. Este que vos escreve teve a sorte de sair da faculdade de jornalismo direto para um dos maiores jornais do Rio de Janeiro. Onde o dia a dia era um aprendizado contínuo. O Brasil vivia um momento complicado, os últimos anos da ditadura militar e o início do período democrático. E as redações viviam em polvorosa. Mesmo assim havia momentos engraçados onde a turma descontraía da tensão causada pela busca da notícia.
Eu trabalhava no Jornal do Brasil, que ficava naquele prédio enorme, ali perto do Caju, onde hoje é um hospital de traumatologia. O JB era o jornal mais respeitado da capital e logo descobri que trabalhar lá nos dava uma espécie de status. Algo parecido com ser apresentador da Rede Globo hoje em dia. Choviam convites para festas, solenidades, lançamentos de livros, filmes, viagens. Nossa vida noturna era intensa e era comum chegar em casa no meio da madrugada depois de uma noite de autógrafos ou um jantar comemorativo.
E tinha uns pedidos incomuns. Uma vez uma revista feminina, dessas de capa colorida e lustrosa, cismou de fazer uma matéria sobre os heróis das histórias em quadrinhos. E mandou uma repórter atrás de jornalistas e intelectuais para falarem sobre o assunto. Não me lembro o nome da revista, mas era grossa como uma lista telefônica. Tipo uma versão brasileira da Vogue americana.
E eles queriam que cada entrevistado escolhesse o seu personagem favorito. Na época, aí por volta de 1986, todo mundo gostava dos heróis da era de ouro. A turma do Fantasma, Flash Gordon e Mandrake, que acabou esquecida, soterrada pelo tsunami de super-heróis da Marvel e da DC Comics. Mas, já tinha alguns personagens da era de prata que faziam sucesso, como o Surfista Prateado e o Homem Aranha. Mas, quando a repórter me perguntou qual era o meu personagem favorito eu fiquei com o pé atrás. Porque a matéria exigia que o entrevistado tirasse uma foto fantasiado como seu herói favorito.

Mandrake: Que não era o meu herói favorito

Até hoje o meu personagem favorito dos quadrinhos é o Flash Gordon. Mas eu sabia que se eu falasse no Flash eles iam querer tingir o meu cabelo de loiro e me enfiar em um collant futurista. Pensei duas vezes e escolhi outro personagem. Mandrake. O Mandrake era um mágico que andava de cartola e fraque. E hipnotizava os bandidos fazendo com que vissem coisas que não existiam. Assim, fui ao estúdio da revista, vesti a roupa de mágico, com cartola e tudo e tirei a foto para a matéria. Teve um coitado que escolheu o Surfista Pateado e acabou todo pintado de tinta metálica. Bons tempos aqueles.
Nosso maior concorrente era o jornal O Globo. Mas os jornalistas das duas empresas se davam muito bem e até trocavam informações. Um dia um colega estava no telefone, falando com alguém da redação do jornal dos Marinho quando pintou outro momento insólito. Ele olhou para mim perplexo e disse: “Uma mulher nua acaba de entrar na redação do O Globo e está desfilando pelada entre as mesas”. A mulher era a irmã de uma atriz de novelas da Globo, que tentava ser atriz de teatro. O crítico do Globo tinha esculhambado a peça e a moça resolveu protestar invadindo a redação inimiga, completamente nua.
Rapidamente os seguranças imobilizaram a nudista, embrulharam ela em uma capa e a jogaram no meio da rua. E a atriz tentou repetir a performance no nosso JB. Mas já tínhamos sido avisados e quando ela saltou do táxi os seguranças da empresa já estavam esperando e ela nem passou do portão.
É por essas e outras que jornalista pode morrer de tiro, enfarto, desastre de avião. Mas de tédio, nunca!

 


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)

Um comentário

  1. Avatar

    Uma crônica muito gostosa de ler, a melhor dos útimos tempos… Com a geração mimimi e politicamente correta de hoje, a heroína não seria nem Flash nem Mandrake, mas sim a peladona…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*

Untitled Document