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Um país se faz com livros e homens dispostos a lê-los

Matéria publicada em 26 de outubro de 2018, 08:28 horas

 


Tive que dar uma mexidinha na imortal frase de Monteiro Lobato: “Um país se faz com homens e livros.”, isto porque ouvi do escritor e contista Sérgio Sant’Anna em uma das mesas de debates durante a Flip, recém-terminada, em Paraty, uma frase epistolar: “O país deveria ter menos escritores e mais leitores.”
Uma frase para se pensar e chegar à conclusão que ele está… correto. Por quê? Algo assim, levado ao pé da letra, seria o fim para as editoras, empresas de papéis, gráficas, revisores, ilustradores e mais uma gama significativa de profissões que permitem que o livro chegue até as mãos dos leitores.
Na ponta desta cadeia produtiva está o leitor, para quem, de verdade, é feito o livro, e é quem, de alguma forma, emperra todo o processo. Certamente não é porque ele assim o quer, mas, com certeza, devido a uma série de fatores antes dele, que não conseguem azeitar a máquina e a tornam problemática e literalmente acabam por espantá-lo, quase que o retirando dessa cadeia. Simplesmente porque o preço do livro para o consumidor é próximo de um conto de terror.
Falo isto com propriedade, uma vez que são 35 anos vivendo para os livros e dos livros, na condição de autor e editor. São quase quatro décadas convivendo de perto com autores e livros, sempre numa busca frenética pelos leitores em feiras, bienais, saraus, workshop, recitais, palestras, encontros, lançamentos e o que mais houver com seus títulos que, ao final, buscam atrair com todas as forças aquele que gosta e ama ler.
Muitos são os eventos que acabaram por se tornar espaços destinados à venda de encalhe, em que um livro que, quando lançado há um ou dois anos, ou até menos, custava R$ 30,00, R$ 40,00 ou mais, pode agora ser comprado, ainda lacrado, por R$ 15,00 ou R$ 10,00, valores que muitas vezes nem pagam os custos da produção. E, mesmo com preços para lá de convidativos, não são poucos os malabarismos que se tem de fazer para que o leitor leve um exemplar.
As estatísticas nos grandes eventos literários dizem diferente do que aqui escrevo. Afiançam que cada leitor sai, em média, com até seis livros debaixo do braço, provando que este país lê absurdamente. Mas, de acordo com o levantamento recentemente divulgado no início deste ano pelo Banco Mundial, os estudantes devem demorar nada mais, nada menos, que 260 anos para atingir a qualidade de leitura praticada em países desenvolvidos.
Já outra pesquisa realizada pelo Instituto Pró-Livro e que teve apoio de várias instituições apontou que cerca de 56% da população acima de cinco anos de idade é classificada como leitora regular, ou seja, há pessoas que lê em pelo menos parte de um livro a cada três meses.

Este ano o índice de leitura per capita subiu de quatro livros para bem próximo de cinco, mas, se excluirmos os livros didáticos, o número despenca para quase três livros por ano. Em países desenvolvidos, a média é de sete livros por ano.
A pesquisa “Retratos da Leitura do Brasil” revelou um fato bem interessante: a Bíblia está entre as obras mais citadas pelos entrevistados acima de 18 anos. Felizmente salvou-se a fé.
Realmente, muita coisa tem que ser mudada para esta antológica frase de Monteiro Lobato ganhar corpo. Talvez não sejam necessários menos escritores, mas sim uma melhor qualidade dos textos publicados pelas editoras de livros, jornais e revistas, e canais que o façam escoar de maneira que sempre estejam acessíveis aos leitores, não apenas em livrarias, mas em locais onde o público possa vê-los, como em bancas de jornal, livrarias e bibliotecas móveis, supermercados, lojas de conveniência, magazines, teatros, cinemas, casas de espetáculos, entre outros. A princípio pode parecer uma ideia um tanto quanto estranha, mas não de toda sem sentido, pois é ir onde o povo está. Isto sem se esquecer de preços convidativos, algo que cative o leitor logo no primeiro olhar.
Somente assim, com homens e mulheres capazes de pensar e avaliar tudo o que nos é imposto, deixaremos de ser subordinados, porque é fato que a nossa palavra, ações e, sobretudo, o nosso voto deve ser respeitado acima de tudo. Estamos em maior número e não será meia dúzia de seres estranhos a nós que nos ditará regras esdrúxulas. Ler ainda é a saída para se ter um país igualitário e democrático.


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2 comentários

  1. O difícil é jovens dispostos a lê-los…
    Acham que vão aprender por osmose.

  2. Eu penso que as redes sociais estão dando uma ajudinha colocando o povo para escrever e com isso pensarem para escrever. Quem sabe o nosso povo volte a essa prática?

    Acho que o Diário do Vale podia colaborar, tbm, desafiando o povo da região a ler e escrever. Um exemplo tenho visto por aqui trazendo os estudantes para visitarem a redação do jornal. Creio que podemos fazer mais.

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