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Um povo que perdeu a elegância

Matéria publicada em 2 de junho de 2017, 07:00 horas

 


Falar palavrão e ser indelicado virou moda no Brasil; linguajar do senador afastado me trouxe memórias da infância

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Semana passada a televisão mostrou novamente a famosa gravação de um diálogo entre o senador afastado Aécio Neves e o empresário da JBS, Joesley Batista. No telejornal o diálogo do então senador, reclamando da polícia federal e do então ministro da justiça, Osmar Serraglio, é cheio de apitos eletrônicos para encobrir os inúmeros palavrões. Que foram publicados na íntegra pelas revistas semanais. A cada quatro palavras o senador solta um palavrão. Superando até a finada Dercy Gonçalves nas suas peças de teatro.
O linguajar do senador afastado me trouxe memórias da infância. Do tempo em que cursei o segundo grau na distante década de 1960. Naquele tempo falar palavrão era considerado deselegante e indelicado. Até mesmo na minha turma de adolescentes só se ouvia um palavrão em ocasiões excepcionais. Mas tinha um garoto na nossa turma que falava igual ao Aécio Neves. Em uma frase com dez palavras saíam uns cinco palavrões no meio. Achávamos engraçado e evitávamos convidar aquele colega para nossas festas de aniversário. Para evitar qualquer constrangimento com nossas mães. Para elas falar palavrão era uma total falta de decoro.
Isso foi nos anos 60, quando as pessoas se esforçavam para parecer elegantes e educadas. Nos anos de 1970 o palavrão começou a fazer sucesso. Primeiro com a atriz Leila Diniz, depois com a comediante Dercy Gonçalves. Mesmo assim usar palavras “de baixo calão” em uma conversa era algo tão exótico que fazia sucesso no teatro e na TV, devido a sua estranheza. Com o passar do tempo o povo brasileiro foi perdendo a elegância e a boa educação e os palavrões viraram a norma, entre as crianças das escolas de primeiro grau aos senadores da República. Ninguém estranha mais, virou regra geral.
Outro dia eu estava no ponto do ônibus e chegou uma mocinha de uns quinze anos, toda produzida com roupas e sapatos de grife. Uma típica patricinha, como se diz hoje em dia. Uma amiga se aproximou e perguntou à menina como tinha sido a festa da noite anterior. E a mocinha soltou em alto e bom som: “Tava boa pra…..” e largou um palavrão daqueles que só se ouviam em bordeis de terceira categoria. E lá se foi para a sarjeta toda a imagem de grife que ela deve ter gasto uma nota para ostentar.
Um palavrão semelhante saiu da boca do açougueiro, no supermercado, no dia seguinte. O que levou uma professora, que estava ao meu lado na fila, a comentar: “O povo não tem mais educação”. O problema é de berço. A minha geração achava estranho o palavrão porque crescíamos ouvindo dizer que não era certo falar assim. Nossos pais, mães e irmãos não falavam palavrões. Hoje em dia é diferente e as crianças crescem ouvindo aquele linguajar desde cedo. Seus ídolos, os jogadores de futebol, falam palavrão e eles simplesmente imitam.
Se o palavrão está na moda, regras simples de gentileza, como dar bom dia e boa tarde, estão caindo em desuso. Se passo por alguém na rua e a pessoa diz “bom dia” ou “boa tarde” pode ter certeza que se trata de alguém com mais de 40 anos. Os jovens de hoje não usam mais esse tipo de gentileza. Outra coisa é o costume de jogar lixo na rua. No meu tempo a gente aprendia, em casa e na escola, que lugar de lixo é na cesta de lixo. É outra coisa que não se ensina mais aos jovens.
Perto da rua onde moro tem uma escola municipal de primeiro grau. Segunda-feira passada eles distribuíram tangerinas para os alunos na hora da saída. E as crianças fizeram guerra de tangerina na rua, espalhando cascas e pedaços de laranja pelas calçadas em um trecho de mais de cem metros em torno da escola. É por isso que os turistas que visitavam nosso país reclamavam da sujeira nas ruas. Mas não se preocupem, a violência já espantou os turistas para bem longe.

Senador Aécio Neves (PSDB-MG) concede entrevista. Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Palavrões: Diálogo do ex-senador foi censurado na TV
(Foto: Arquivo)

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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11 comentários

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    É incrível como as ideias erradas e a falta de educação são tão contagiantes. É o resultado de décadas de coitadismo, em que o bandido é vítima e o pobre do cidadão é o culpado, pois a culpa é da sociedade. Precisamos de mais disciplina para as crianças, mas lá na esquerdolândia disciplina é sinônimo de autoritarismo e bagunça é sinônimo de liberdade.

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    Bananolandia

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    Questionando palavrõe sobre um candidato que só quria f…… o povo. Ainda bem que não foi eleito.

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    A gravaçao da fala do Mineirinho da Odebrecht, entre outros escândalos, continha os trechos “Tem que ser um que a gente mata ele (sic) antes de delatar e “eu não faço nada de errado, só trafico”.
    Mas o que escandaliza o Donald Trump do Brejo são os palavrões do bandido que ele tentou eleger.

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      A diferença é que quem votou no Aécio, hoje quer ver ele, Lula, Dilma e todos os corruptos na cadeia, enquanto que vocês querem ver o Lula presidente novamente e defendem os corruptos se eles forem do PT.

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    Ai ai ai meu DEUS!!!!

    Serio que neste caso ,o que estamos discutindo aqui são os palavrões?

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    Nossa como falar assim de uma pessoa que quase foi presidente desse país, já pensaram ele c/ esse linguajar em conversa com um outro presidente em visita ao nosso país. E o pior o nobre jornalista votou nele.

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      A César o que é de César

      Acho que falar palavrões é o menor defeito deste cidadão, mas deixou-se enganar por ele quem quiz ou quem só nutre ódio cego pelo PT.

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    الفتح - الوغد

    Realmente. Hoje em dia as crianças falam palavrão como se fosse algo natural, os adultos até acham bonito e não raro incentivam… Mas, covenhamos. Éramos mais polidos, porém nunca fomos elegantes…

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    Palavrão só se for em uma boa piada, contada entre adultos, ou para xingar da arquibancada o juiz de futebol e seus auxiliares, os bandeirinhas. Mas a FIFA anda castigando os clubes até nisso. Em tempo: não são sei se chamar técnico de “burro” é considerado xingamento contra o profissional do futebol ou contra o equino.

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    Pagador de impostos

    O pior, meu caro Calife, é que o fundo do poço ainda está longe. Vamos descer mais um pouco. Depois, quem sabe começaremos a longa e dura escalada de subida, em todos os sentidos.

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