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Uma cidade perdida

Matéria publicada em 11 de outubro de 2019, 06:30 horas

 


No Brasil, o passado as vezes deixa muita saudade; nostalgia é menos comum na Europa e na Ásia

 

Outro dia uma leitora desta coluna veio me dizer que “gosta daquelas crônicas que falam da Pinheiral de antigamente”. Da época em que podíamos admirar o poente as margens do Rio Paraíba no mirante do Porto da Balsa. E íamos até Volta Redonda em quinze minutos num trem elétrico rápido e silencioso. Sem falar nas nossas praças, a Brasil e a Teixeira Campos, que eram verdadeiros jardins. Cartões de visita da nossa pequena cidade. Até que um prefeito resolveu cimentar tudo e acabar com o verde. Era mais prático, ainda que não fosse bonito.
Mas, não é só na nossa região. Aqui no Brasil o passado sempre deixa saudade. Como é o caso do Rio de Janeiro, capital do nosso estado, que já foi realmente uma “cidade maravilhosa” há muito tempo atrás. Onde podíamos desfrutar da intensa vida noturna e voltar para casa de madrugada sem medo de assalto e de bala perdida. A nostalgia do passado não existe só no Brasil, mas é menos comum na Europa e na Ásia, regiões onde o progresso é uma realidade e a sociedade e os serviços tendem a melhorar com o tempo. Nenhum europeu sente saudade do continente arrasado pela Segunda Guerra Mundial, do muro de Berlim ou das tensões da Guerra Fria. O mesmo é verdade no caso dos asiáticos, que gozam de uma prosperidade sem igual.
No Brasil, infelizmente, andamos para trás e a pequena cidade de Pinheiral é apenas um microcosmo que reflete o estado geral da nação. Só a corrupção e a incompetência podem explicar como foi que trocamos um transporte rápido e não poluidor por esses ônibus que levam 45 minutos para percorrer uma distância que o trem fazia em quinze. Pulando por cima de 33 quebra-molas e parando em sinais de trânsito. Como aquele sinal que colocaram em frente a UniFOA e que interrompe o trânsito por mais de um minuto. Sem falar que o trem carregava muito mais gente do que esses ônibus superlotados.

Pinheiral: No lugar da grama, o cimento (Foto: Arquivo/PauloDimas)

No passado…

Antigamente ônibus cheio era só na chamada “hora do rush”. O período em que as pessoas vão e voltam do trabalho, entre as cinco e sete da manhã. E às 18h e às 20h. Mas, isso foi no passado, hoje em dia o ônibus anda superlotado a qualquer hora do dia. Tanto o intermunicipal, que liga Pinheiral a Volta Redonda, quanto os ônibus urbanos de Volta Redonda. Metade dos passageiros paga para viajar em pé, agarrando-se naqueles ferros e sendo imprensados o tempo todo.
O problema foi a escolha que se fez no nosso país por um único meio de transporte, o rodoviário, que já se encontra saturado há muito tempo. O trem seria uma opção, mas continua a ser esquecida. É claro que isso acontece porque nossos prefeitos e vereadores não andam de ônibus. E a culpa também é do povo que continua a ser tocado pelas urnas como se fosse gado, votando em quem não conhece e sem qualquer consciência das consequências do seu voto.
Também sinto saudade das pescarias no Rio Paraíba, no tempo em que ele não era poluído. Cheio de peixes que sumiram depois que o rio virou uma verdadeira vala de esgoto. Vala de onde tiram a água que a população bebe. Saudades do casarão, que além de bonito era o marco inicial da cidade. No governo passado inauguraram com pompa um “parque das ruínas do casarão”. Semana passada fui até lá e descobri que, quatro anos depois de sua inauguração, o “parque das ruínas” também está em ruínas. Parte da fachada do casarão desabou. E o monumento com fotos da antiga fazenda e dos escravos colhendo café também se desintegrou. Eu já previa que não ia durar muito pelo simples fato de que os idealizadores se esqueceram de colocar uma cobertura para proteger a montagem da chuva e da umidade.
Mas é assim mesmo. É por isso que a minha leitora sente falta daquela Pinheiral da nossa infância. Bonita, acolhedora e onde a vida era muito mais saudável e tranquila.

 


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5 comentários

  1. Avatar

    Na Vila Santa Cecília, em Volta Redonda, onde hoje é uma fonte luminosa, antes, ali no centro, tinha um busto do Presidente Getúlio Vargas. Tempos inesquecíveis. Estava sempre ali com minha namorada. São muitas saudades!

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    Não sei o porque o Calife não muda de Pinheiral pois lá só tem coisa que ele reclama e não gosta. Vem para VR.

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    Considerando que a CSN tem quase 80 anos, e as outras empresas poluidoras da região e de São Paulo também têm muitas décadas de atividade, acho difícil que Calife tenha vivido um período não poluído do Rio Paraíba, até porque antigamente não havia a preocupação ecológica que só começou a ganhar força no último quarto do século XX…

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    Jorge Calife está muito romântico, que lindo. Eu também gosto dessas crônicas, trazem um frescor pra vida. Parabéns.

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