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Uma ficção científica feita na China

Matéria publicada em 26 de março de 2019, 08:00 horas

 


“A Terra errante” faz sucesso na Ásia e faz parte de uma estratégia de superpotência

Cinema: Os chineses conquistam o espaço

Esqueçam os antigos filmes de Kung Fu, tipo “O Tigre e o Dragão. O novo sucesso do cinema made in China é uma ficção científica sobre viagens interestelares. “The wandering Earth” (A Terra Errante) estreou nos cinemas da Ásia no mês passado e já é a segunda maior bilheteria da história da China. A trama apocalíptica parece uma mistura do “2012”, do Roland Emmerich, com o “Armagedon”, do Michael Bay. Os efeitos especiais estão no mesmo nível das produções americanas e o roteiro inclui também um pai que deixa o filho pequeno para trás e parte para o espaço como o herói do “Interestelar” do Christopher Nolan.

Em chinês o filme do diretor Frant Gwo se chama “Liu Lang Di Qiu” e começa com um cenário apocalíptico. O Sol entra em colapso e começa a se dilatar ameaçando incinerar nosso planeta. O governo chinês, claro, bola um plano grandioso para salvar a Terra. Que consiste em instalar enormes motores de foguete em pontos estratégicos do mundo. Para tirar o planeta de órbita e leva-lo para outro sistema solar. O problema é que durante a viagem a superfície da Terra congela sem a luz do Sol, todo mundo passa a viver em cavernas e cidades subterrâneas.

A ideia lembra o seriado britânico “Espaço 1999”, que lançava a nossa Lua no espaço interestelar. No filme chinês a Terra passa por Júpiter, usando a gravidade do planeta gigante para se lançar em direção a outro sistema estelar. Na frente da Terra vai uma nave espacial com uma seção em forma de roda giratória, que lembra a Hermes do filme “Perdido em Marte”. Essa nave faz o reconhecimento da rota que será seguida pelo nosso planeta. E é nela que viaja o pai que deixou o filho na Terra.

O cinema chinês é tutelado pelo estado e nada se faz sem a aprovação do comitê central do Partido Comunista Chinês. Essa mudança de foco, dos filmes de Kung Fu que falavam do passado da China para um filme futurista, sobre viagens interestelares, faz parte de uma estratégia de superpotência. O cinema chinês esta seguindo os passos já percorridos pelo cinema norte-americano e russo, durante a corrida espacial da década de 1960.

Quando um país ambiciona se tornar uma superpotência tecnológica ele precisa formar uma massa crítica de cientistas e engenheiros. E para isso é preciso despertar nas crianças e nos jovens o interesse pelo estudo de ciências. Um meio fácil de fazer isso é através de filmes de aventuras espaciais e futuristas. Foi o que os norte-americanos fizeram na década de 1960, quando o país embarcou na corrida lunar com os russos.

Muitos cientistas e engenheiros da NASA, a agência espacial americana, contam que escolheram essa profissão depois de assistir a seriados como “Perdidos no Espaço” e “Jornada nas Estrelas”. Que mostravam uma visão otimista do futuro, com americanos colonizando outros planetas e explorando os confins da Via Láctea. Na Rússia dos anos 60 aconteceu a mesma coisa com os filmes do diretor Pavel Klushantsev imaginando um futuro onde eram os soviéticos que conquistavam o espaço.

A China tem planos ambiciosos para se tornar uma potência espacial. No início do ano a agência espacial chinesa conseguiu pousar uma nave robô no lado oculto da Lua, que nunca é visto da Terra. No ano que vem eles planejam iniciar a montagem de sua segunda estação espacial. A Tianhe 1 será uma plataforma de observação civil e militar. Mas o objetivo a longo prazo é montar uma base no polo sul da Lua. E certamente alguns dos jovens chineses que assistem agora ao “The Wandering Earth” serão os futuros tripulantes dessa base.

Coisa de primeiro mundo, claro. No terceiro mundo ainda se investe em filmes sobre lutadores e jogadores de futebol. Um dos motivos porque aqui o futuro passa longe.

 


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