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Uma mancada espacial chinesa

Matéria publicada em 20 de dezembro de 2019, 13:40 horas

 


Buraco negro gigante não é tão grande quanto foi anunciado; astrônomos ficaram perplexos

Há duas semanas astrônomos chineses anunciaram ter descoberto um buraco negro gigante. Além de possuir 70 vezes a massa do nosso Sol, a estrela negra ficaria relativamente perto, a 15 mil anos-luz de distância da Terra. O anúncio da descoberta, feita pelo astrônomo Jifeng Liu, da Academia Chinesa de Ciências, deixou os astrônomos perplexos. Porque, segundo as teorias atuais, um buraco negro estelar não pode ter uma massa maior do que 30 sóis. Eles se formam quando uma estrela gigante implode e, geralmente, ela perde a maior parte de sua massa na explosão.
Como é costume na comunidade científica internacional, outras equipes, independentes, tentaram comprovar a descoberta. E descobriram que os chineses estavam errados. Eles se confundiram ao medir a massa do objeto usando o efeito Doppler. Que é uma distorção na luz emitida por astros que se aproximam ou se afastam da Terra. Os dados foram conferidos por três equipes diferentes que comprovaram o erro cometido pelos chineses. O buraco negro não é tão grande quanto eles imaginaram e tem uma massa normal.
Existem buracos negros com milhões de massas solares, mas estes são os buracos negros galácticos, que se formam no centro de galáxias como a nossa Via Láctea. Já os buracos negros estelares, que se formam pela implosão de estrelas, são bem menores. E mais perigosos já que o seu tamanho, relativamente pequeno, indica que sua força gravitacional pode estraçalhar qualquer coisa que chegue muito perto.
A confusão chinesa foi provocada pelas características do novo astro, o LB-1. A maioria dos buracos negros é identificada pelas emissões de raios X. Que eles produzem ao absorver matéria de uma estrela companheira. Foi assim que os astrônomos descobriram o primeiro buraco negro na década de 1960. O Cisne X-1, que fica na constelação do Cisne. Entretanto, o LB-1 é um buraco negro diferente. Ele não absorve matéria de uma estrela vizinha e, portanto, não emite raios X.
Para observá-lo e medir sua massa, a equipe chinesa recorreu ao efeito Doppler. O desvio da luz para o azul ou o vermelho devido ao movimento de um objeto no espaço. Eles detectaram uma linha de emissão (uma parte do espectro produzido pela decomposição da luz) que parecia estar oscilando. E deduziram que ela era produzida por um disco de matéria em torno do buraco negro. A Academia Chinesa de Ciência chegou a produzir uma ilustração baseada nesta hipótese, que mostra o LB-1 cercado por um disco de matéria incandescente.
Ao medir as mudanças no efeito Doppler os astrônomos podem medir a velocidade dos objetos e a sua massa. O problema é que a linha de emissão usada pelos chineses não estava oscilando como eles pensaram. A ilusão foi criada por outra linha do espectro provocada pela absorção da luz por átomos no ambiente ao redor. As novas medições sugerem que o LB-1 é apenas um buraco negro comum, sem nada de extraordinário.
Antigamente um erro desse tipo podia custar caro. No ano 2137 antes de Cristo, dois astrônomos chineses, Hi e Ho, foram executados porque não conseguirem prever um eclipse. Mas, hoje em dia, o governo chinês é bem mais condescendente e sabe que a ciência é feita de sucessos e fracassos.

 

Confusão: A concepção chinesa do buraco negro


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