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Uma tarde no museu

Matéria publicada em 14 de setembro de 2018, 08:15 horas

 


Visitar o Museu Nacional era uma verdadeira aventura na vida real

Perdido: Duzentos anos de pesquisas viraram cinzas
Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

Como os leitores devem ter notado eu estava de férias quando o Museu Nacional pegou fogo no domingo, dia 2 de setembro. Só fiquei sabendo no dia seguinte e sinto que foi melhor ter sido poupado de assistir aquela tragédia cultural ao vivo e a cores. Lembrei-me das muitas tardes, da minha infância, que passei percorrendo os salões e observando admirado as inúmeras coleções de história natural, antropologia e história humana. Mais tarde, já adulto, voltei ao museu como jornalista, entrevistando seus pesquisadores que falavam, apaixonados, sobre a descoberta de um novo fóssil de pterossauro ou sobre a chegada dos primeiros humanos na América do Sul.
Quando vi as imagens nos telejornais pensei logo: A única coisa que vai sobrar é o Bendengó, o grande meteorito de cinco toneladas, encontrado no sertão da Bahia em 1784. Aquele pedaço de matéria cósmica resistiu a temperaturas de três mil graus centigrados durante a entrada na atmosfera da Terra. Não ia ser um simples incêndio que ia acabar com ele. E realmente, do magnífico acervo de 20 milhões de peças só sobrou mesmo este visitante das estrelas, que chegou a Terra há muito tempo. Já os fósseis, a coleção de animais empalhados, os esqueletos e as múmias egípcias sumiram na fumaça.
Outro dia um desses candidatos, que aparecem todo o dia na televisão, disse que vai “reconstruir o museu”. Em época de eleição político promete tudo, até o impossível. Como se fosse possível ir a uma loja com uma lista de compras e dizer: “Me dá duas múmias de três mil anos de idade, um crânio de 15 mil anos, três esqueletos de dinossauros com 100 milhões de a nos, 20 artefatos de culturas indígenas extintas” e por aí afora. Não dá, levou 200 anos para montar aquele acervo, e conseguir algo equivalente vai levar muito mais tempo. Há coisas que não dá para recuperar ou substituir por réplicas de plástico, depois que são perdidas estão perdidas para sempre.
Brasileiro não gosta muito de museu, acha que são “coleções de velharias”, mas é através dos artefatos e objetos antigos que reconstituímos nossa história, a história da vida na Terra. Ou seja, a busca por aquelas questões fundamentais sobre quem somos e de onde viemos. Coisa que não se consegue com replicas de gesso e plástico. Na mesma semana em que o Museu Nacional virava fumaça, cientistas do Instituto Max Planck, na Alemanha, anunciaram a descoberta de um ser humano híbrido de duas raças distintas de homens primitivos. Os Neanderthais e os Denisovan. O Neanderthal é aquele tipo clássico de homem das cavernas atarracado, que costumamos ver em desenhos animados e filmes. Os Denisovan foram uma das primeiras linhagens de homo sapiens. Por muito tempo os cientistas se perguntavam se essas duas espécies de homens primitivos não teriam se relacionado, tendo filhos híbridos. Agora sabemos que é verdade.
E como foi que esse pedaço da nossa história foi recuperado? Graças a análise do DNA, do código genético tirado dos ossos de uma menina de 13 anos que viveu há 90 mil anos onde é hoje a Sibéria. E isso só foi possível porque os pesquisadores tinham os ossos originais e não um molde de plástico. Foram os humanos que viveram na Sibéria que emigraram para as Américas, através de uma ponte de terra que existiu onde é hoje o estreito de Bhering. E se tornaram os primeiros habitantes do Brasil. Um desses humanos foi a Luzia, uma mulher que viveu há 15 mil anos e cujo crânio estava guardado no Museu Nacional. Jamais poderemos fazer um estudo semelhante com a nossa Luzia, já que dela só restaram réplicas de plástico.
Guardadas as devidas proporções o que aconteceu com o Museu Nacional e com o belo Palácio de São Cristóvão e semelhante ao triste fim do Casarão de Pinheiral. Nos dois casos tínhamos construções de importância histórica sob a guarda de universidades federais que não souberam preserva-las.
Tomara que não sigam o exemplo e transformem tudo no “Parque das Ruínas do Museu Nacional”.


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2 comentários

  1. A trajédia no Museu Nacional representou uma trajédia contra a cultura mundial. Foi deplorável os comentários do boconáro que não demonstrou o mínimo de respeito com o acervo perdido, que já anunciou que vai extinguir o Ministério da Cultura e que tentou denegrir a reitoria da UFRJ.

  2. Eu que sou um verdadeiro apaixonado por museus e que pretendo abrir um de tecnologia no ano que vem, fico muito triste pelo acontecido. Infelizmente, Brasileiro é um povo que não gosta ou não frequenta museus (não todos, mas a sua grande maioria). Espero que pelo menos esse acontecimento sirva de lição para os problemas em outros museus e que levem mais a sério o cuidado com os acervos. Muitos dos itens estão perdidos para sempre, isso é muito triste. Parte da cultura e história está perdida. Assim como você Calife, fui muitas vezes no Museu Nacional e aquele incêndio é para mim o equivalente a perda de um ente querido.

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