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Uma viagem pela empatia

Matéria publicada em 22 de dezembro de 2018, 07:00 horas

 


Simples gesto de carinho e cuidado podem dar a dimensão desse valor

Vamos fazer uma viagem?

Roma antiga, século 2, dia 25 de dezembro. A população está em festa, para homenagear aquele que veio para trazer benevolência, sabedoria e solidariedade aos homens. Cultos religiosos celebram o ícone, nessa que é a data mais sagrada do ano. Enquanto isso, as famílias apreciam os presentes trocados dias antes e se recuperam de uma longa comilança.

Mas não. Essa comemoração não é o Natal. Trata-se de uma homenagem à data de “nascimento” do deus persa Mitra, que representa a luz e, ao longo do século 2, tornou-se uma das divindades mais respeitadas entre os romanos. Qualquer semelhança com o feriado cristão, no entanto, não é mera coincidência.

A história do Natal começa, na verdade, pelo menos sete mil anos antes do nascimento de Jesus. É tão antiga quanto à civilização e tem um motivo bem prático: celebrar o solstício de inverno, a noite mais longa do ano no hemisfério norte, que acontece no final de dezembro. Dessa madrugada em diante, o sol fica cada vez mais tempo no céu, até o auge do verão. É o ponto de virada das trevas para luz: o “renascimento” do Sol. Num tempo em que o homem deixava de ser um caçador errante e começava a dominar a agricultura, a volta dos dias mais longos significava a certeza de colheitas no ano seguinte. E então era só festa. Na Mesopotâmia, a celebração durava 12 dias. Já os gregos aproveitavam o solstício para cultuar Dionísio, o deus do vinho e da vida mansa, enquanto os egípcios relembravam a passagem do deus Osíris para o mundo dos mortos. Na China, as homenagens eram (e ainda são) para o símbolo do yin-yang, que representa a harmonia da natureza. Até povos antigos da Grã-Bretanha, mais primitivos que seus contemporâneos do Oriente, comemoravam: o forrobodó era em volta de Stonehenge, monumento que começou a ser erguido em 3100 a.C. para marcar a trajetória do Sol ao longo do ano.

 

Solstício cristão

As datas religiosas mais importantes para os primeiros seguidores de Jesus só tinham a ver com o martírio dele: a Sexta-Feira Santa (crucificação) e a Páscoa (ressurreição). O costume, afinal, era lembrar apenas a morte de personagens importantes. Líderes da Igreja achavam que não fazia sentido comemorar o nascimento de um santo ou de um mártir – já que ele só se torna uma coisa ou outra depois de morrer. Sem falar que ninguém fazia ideia da data em que Cristo veio ao mundo – o Novo Testamento não diz nada a respeito. Só que tinha uma coisa: os fiéis de Roma queriam arranjar algo para fazer frente às comemorações pelo solstício. E colocar uma celebração cristã bem nessa época viria a calhar – principalmente para os chefes da Igreja, que teriam mais facilidade em amealhar novos fiéis. Aí, em 221 d.C., o historiador cristão Sextus Julius Africanus teve a sacada: cravou o aniversário de Jesus no dia 25 de dezembro, nascimento de Mitra. A Igreja aceitou a proposta e, a partir do século 4, quando o cristianismo virou a religião oficial do Império, o Festival do Sol Invicto começou a mudar de homenageado. “Associado ao deus-sol, Jesus assumiu a forma da luz que traria a salvação para a humanidade”, diz o historiador Pedro Paulo Funari, da Unicamp. Assim, a invenção católica herdava tradições anteriores. “Ao contrário do que se pensa, os cristãos nem sempre destruíam as outras percepções de mundo como rolos compressores. Nesse caso, o que ocorreu foi uma troca cultural”, afirma outro historiador especialista em Antiguidade, André Chevitarese, da UFRJ.

 

E para nós?

O natal é um momento para celebrarmos, não apenas o cristianismo, mas também a união da família, de presentear e cultivar bons momentos ao lado de quem nós amamos. Mas se tratando de educação, será que conseguimos passar para nossos filhos quem é o verdadeiro aniversariante do natal? Independentemente de falarmos em religião, já que a história do menino de Jesus se mostra uma bela história carregada de valores essenciais para nosso convívio com o outro. Trata-se de uma história sobre amor, caridade, positividade e, acima de tudo, sobre empatia. A mais de dois mil anos, um homem, independente da sua crença, falou sobre a empatia, um dos mais valiosas habilidades para o século XXI. A ideia pode ser a de celebrar a humanidade e o amor que transcende as religiões, que transcende os dogmas e as crenças.

Será que estamos ensinando a empatia aos nossos filhos? Talvez simples gestos como nos abaixar para estarmos na mesma altura, falando olho no olho, ou um simples gesto de carinho e cuidado os ensinem a dimensão desse valor. Às vezes o silêncio também pode ser um ato de amor. Será que podemos ensinar nossos filhos, alunos, colaboradores e amigos de jornada com o silêncio ou mesmo com o espírito da empatia?

Talvez o maior presente que podemos dar aos nossos semelhantes seja a empatia e a certeza de que, se todos nós estivermos unidos, ninguém mais ficará sozinho. Se cada um de nós for, um pouquinho mais empático com nosso semelhante, certamente teremos mais empatia no mundo.

No mais, um natal especial e cheio de empatia a todos nós!

Boa leitura, TMJ!

Raphael Haussman. É professor, Coach, consultor e apaixonado por educação e desenvolvimento humano e, ainda, pai da Raphaela e do Theo. 

 

Nosso dicionário

Mitra – Deus do Sol, da sabedoria e da guerra na mitologia persa. Ao longo dos séculos, foi incorporado à mitologia hindu e à mitologia romana. Na Índia e Pérsia, representava a luz, significando, literalmente, em persa, “Divindade solar”. Representava também o bem e a libertação da matéria. Era filho do deus persa do bem, Aúra-Masda, e lutava contra os inimigos deste com suas armas e com seu javali Verethraghna.

Solstício de inverno – Solstício de inverno é um fenômeno astronômico que marca o início do inverno. Ocorre normalmente por volta do dia 21 de junho no hemisfério sul e 22 de dezembro no hemisfério norte.

Mesopotâmia – A Mesopotâmia é o nome dado para a área do sistema fluvial Tigre-Eufrates, o que nos dias modernos corresponde a aproximadamente a maior parte do atual Iraque e Kuwait, além de partes orientais da Síria e de regiões ao longo das fronteiras Turquia-Síria e Irã-Iraque.

Dionísio – É considerado também o deus grego da natureza, da fecundidade, da alegria e do teatro. Inspirador da fertilidade, ele também é chamado de deus da libido e na mitologia romana, seu nome é Baco.

Osíris – É o deus do julgamento, do além e da vegetação, sendo considerado um dos mais importantes e populares da mitologia egípcia.

Yin-Yang – São conceitos do taoismo que expõem a dualidade de tudo que existe no universo. Descrevem as duas forças fundamentais opostas e complementares que se encontram em todas as coisas: o yin é o princípio feminino, noite, Lua, a passividade, absorção. O yang é o princípio masculino, Sol, dia, a luz e atividade.

Forrobodó – Festança, baile caseiro, bem animado, com comezainas e bebidas.

Festival do Sol Invicto – Estudiosos modernos argumentam que esse festival foi colocado sobre a data do solstício, porque foi neste dia que o Sol voltou atrás em sua partida em direção ao o sul e provou ser “invencível”.

Saturnália – Era um festival da Antiga Roma em honra ao deus Saturno, que ocorria em 17 de dezembro no Calendário juliano e mais tarde se estendendo com festividades até 23 de dezembro.

Cristianismo – Cristianismo é uma religião abraâmica monoteísta centrada na vida e nos ensinamentos de Jesus de Nazaré, tais como são apresentados no Novo Testamento. A fé cristã acredita essencialmente em Jesus como o Cristo, Filho de Deus, Salvador e Senhor.

Sextus Julius Africanus – Sexto Júlio Africano foi um viajante e historiador cristão do final do século II d.C. e início do século III d.C. Ele foi uma importante influência para Eusébio de Cesareia e todos os padres da Igreja posteriores que escreveram sobre a história da Igreja Católica, e em toda a escola grega de escritores de crônicas.


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6 comentários

  1. Avatar
    Vivendo e não aprendendo

    A maior causa de morte no mundo é a ignorância,fatos que ocorreram em outros momentos nos trazem perplexidade,na idade média na Europa achavam que os gatos eram seres do demônio,foram dizimados e 25 milhões de pessoas morreram de peste bubônica. Já se matou muito em nome de Deus e hoje o sectarismo é um campo fértil para novas desgraças e existem porta vozes muito próximo a nós.

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    Todo hipócrita fala em Deus,família e bons costumes,no juízo final arderão no fogo do capiroto.

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    Pode-se fazer um balanço histórico positivo do cristianismo, o qual levou a uma nova relação do homem consigo mesmo e a um novo modo de ser humanitário (basta ver no DV quantas iniciativas cristãs são feitas para ajudar os pobres).
    Hoje, fala-se muito de democracia, o que na boca de um comunista é uma incoerência e hipocrisia, pois a democracia da época moderna baseia-se no caráter sagrado dos valores garantidos pela fé cristã que são subtraídos na arbitrariedade das maiorias! Basta lembrar no balanço do século XX que mostra que, quando se retira o cristianismo (como na ex-URSS e seus países cativos), voltam a irromper, de repente, forças arcaicas do mal que estiveram banidas por causa dele. Pode-se dizer, de um ponto de vista puramente histórico, que não há democracia sem um fundamento cristão!
    Então, desejo Feliz Natal para todos aqueles que rejeitaram o comunismo, e não votaram no PT!

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      Mirian leitão do DV, desejo que em 2019 você leia um pouco mais antes que seu preconceito político interfira nos seus pensamentos. Em nome do Cristianismo a história nos conta das maiores atrocidades praticadas contra a humanidade. Cruzadas, exterminio dos povos Incas e Maias e massacre dos povos indígenas em toda as américas. A religião está sempre no centro de todas as rivalidades entre povos. Sabemos que o comunismo tem na sua doutrina o ateismo mas colocar a falta do pensamento cristão como base para falta de democracia é ser desonesto. Israel é uma democracia mas não aceita o cristianismo e tem todas as forças arcaicas no trato religiosos. Os palestinos que o digam.

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      Você defendendo os palestinos, devia mudar de disco, pois o PT fez isso durante os treze anos e meio em que roubou o Brasil! Agora, vamos defender os valores cristãos, vamos defender os judeus, que foram tão combatidos por vocês petistas!
      Você “Marcelo Bretas” diz que “a falta do pensamento cristão como base para falta de democracia é ser desonesto”, eu, no entanto, digo que você está errado, pois o escritor judeu Franz Oppenheimer afirmou categoricamente: “As democracias nasceram no mundo judaico-cristão do Ocidente. A história do seu aparecimento é um pressuposto fundamental do nosso mundo pluralista. Devemos também a essa mesma história os critérios com base nos quais as nossas democracias puderam voltar a ser verificadas, criticadas e corrigidas até hoje.” E o próprio Papa Bento XVI indicou que a subsistência das democracias está relacionada com a subsistência dos valores cristãos!
      Como diria o Cardeal inglês Newman: “O fim do mundo só é atrasado porque nós cristãos existimos, porque há uma rede internacional de comunidades espalhadas através do ecumenismo. A subsistência do mundo está ligada à subsistência da Igreja. Se a Igreja adoecer, o mundo se queixará por causa de sim mesmo.”

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