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Umberto Eco, o marqueteiro e os idiotas

Matéria publicada em 26 de fevereiro de 2016, 08:00 horas

 


Reflexões depois de uma noite bem dormida; é triste constatar que os grandes pensadores do século XX estão morrendo

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Terça-feira passada acordei as cinco horas da manhã depois de uma noite de sonhos maravilhosos. Daqueles que a gente acorda e diz “Uau!”. Achei que precisava de um choque de realidade e acionei o controle remoto da televisão. Na tela colorida a esguia Monalisa Perroni apareceu anunciando mais um capítulo da Operação Lava Jato. Que é uma das novelas de maior audiência da telinha. Desta vez tinha sido preso o publicitário João Santana, responsável pelas campanhas que elegeram Lula e Dilma. É impressionante o número de pessoas envolvidas com esses dois que acabaram de algemas nos pulsos ou tornozeleira eletrônica.

O cerco se fecha cada vez mais. Um dia desses ainda vão prender os chefes dessa quadrilha que saqueou o Brasil. Quem viver verá. Mas não era sobre isso que eu queria escrever hoje. Queria lembrar o “professore” Umberto Eco, que nos deixou para sempre no último fim de semana. Um escritor, filósofo, crítico literário e ensaísta que deixou sua marca no mundo intelectual. Era um daqueles pensadores críticos que vão fazer muita falta nesta realidade medíocre em que vivemos. Para a maioria das pessoas que já ouviram falar dele, Umberto Eco era o autor do romance de mistério medieval “Il nome dela rosa” (O nome da rosa) que virou filme estrelado pelo Sean Connery. E cujo sucesso ele detestava.

Devido ao sucesso do livro Eco ficou conhecido como o autor de “O nome da Rosa” e tudo o que ele fez depois, incluindo o romance “O pêndulo de Foucout”, passou meio que despercebido. Em uma de suas últimas entrevistas Eco se comparou ao Gabriel Garcia Marques. Que também será eternamente conhecido como o autor de seu primeiro romance, “Cem anos de solidão”. Mas eu não tomei contato com a inteligência deste professor da universidade de Turim por causa do romance ou do filme. Ele era leitura obrigatória na faculdade de jornalismo por causa de um livro sobre a cultura de massas chamado “Apocalípticos e integrados”. Escrito em 1964 era considerado leitura obrigatória pelos meus professores. Entre outras coisas o professor de Turin fazia uma crítica as histórias em quadrinhos do Super-Homem que me conquistou de imediato.

Opinião

Umberto Eco era assim. Ele podia escrever sobre a filosofia medieval, sobre a política italiana do pós-guerra ou sobre histórias em quadrinhos e programas de televisão. Nos últimos anos vinha apontando sua metralhadora giratória para o mundo da internet. Em sua opinião as redes sociais deram voz aos ignorantes e aos idiotas. Permitindo que imbecis de todas as nacionalidades e credos mostrassem ao mundo a sua estupidez.

Falando assim pode parecer que Umberto Eco era um intelectual elitista. Nada mais longe da realidade. Se fosse elitista ele não perderia tempo com televisão e histórias em quadrinhos. Ele apenas se queixava do importuno que essa multidão, que acha que pode opinar sobre tudo, provoca em salas de discussão e sites especializados. Quando a internet se popularizou andaram dizendo que o jornalismo profissional ia acabar. Porque qualquer um poderia bancar o jornalista e usar a internet para fazer crítica ou dar as últimas notícias.

Não pode não. Jornalismo e crítica exigem conhecimento e responsabilidade. Sites de notícias criados por amadores já foram responsáveis por tragédias e pela propagação de boatos. Como no caso daquela mulher que morreu linchada, lá em São Paulo, depois que um blog “noticiou” que uma feiticeira estava raptando crianças.

É triste constatar que os grandes pensadores do século XX estão morrendo todos, e não há ninguém para substitui-los. Adeus professor, e descanse em paz. Porque para este cronista o senhor é muito mais do que o autor do nome da rosa.

Quanto ao sonho? Ah sim, eu estava mergulhando em um recife de coral do lado ocidental da ilha Eleuthera, nas Bahamas. Sem gastar nenhum tostão para estar lá.

Eco: Muito além de o ‘Nome da rosa’

Eco: Muito além de o ‘Nome da rosa’

 

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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6 comentários

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    Umberto Eco estava certíssimo! Prova disto são alguns comentários que aparecem neste site.

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    Coxinha de cidade-operária

    O Donald Trump do brejo e sua indignação seletiva. Volte a escrever sobre os mistérios da Via-Láctea ou sobre as lendas das antigas fazendas de café.

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    CHEFES DE QUADRILHAS? Sim. Qual deles? temos, em São Paulo(metrô), Rio(rio 2016), Belo Horizonte (saúde), Nordeste (metrô da Bahia)).Velho quadrilheiro, aposentado, que patrocinava (amante, na Europa) programa,presentes, chifre; com teu dinheiro.

    Olha cara, continue sua viagem, pelo cosmo. Fique, por lá.

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    Muito bom. Mas vou continuar a assistir aos seriados “Operação Lava Jato” e “Operação Zelotes” até os últimos capítulos, onde finalmente veremos o “Brahma” e sua corja trancafiados.

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    Leiam o livro e depois assistam ao filme. O livro é realmente muito bom e o filme também, com os devidos ajustes e “liberdades” a que o diretor se permitiu fazer.

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    Infelizmente, esta é a triste e imperdoável realidade. A rede social apresenta-se atualmente abaixo do nível aceitável do bom-senso. Acrescente-se que ainda quero ver um boboca transeunte enfiar a cabeça em um poste ou parede no meio da rua por estar com os olhos escancarados no celular. Vou rir muuuuuito!

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