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Vamos procurar unicórnios?

Matéria publicada em 30 de novembro de 2019, 06:00 horas

 


Devemos discutir veementemente a publicidade infantil, já que o objetivo da mesma é fazer com que crianças entrem no ciclo de consumo

Domingo passado choveu aqui em casa, embora eu não seja de papel, fiquei com meu filho de três anos assistindo à programação infantil do seu canal preferido. Entre detetives de um prédio azul, bugados e miracolos, entre um suco e uma pipoca, eis que os comerciais sempre nos convidavam a comprar. Compulsivamente. Sem parar.
Isso me fez refletir um pouco sobre o apelo para o consumo. Vendem cachorrinhos adotados, cocô de unicórnio, vômito de fadas. Sério mesmo, se eu não tivesse visto eu não acreditaria. Aonde vamos parar, me perguntei e ainda estou me perguntando.
A criança, historicamente, sempre foi vista de formas variadas, pode-se citar a idealização da mesma na primeira metade do século XIX, período do Romantismo, por exemplo. Eis que tudo mudou na segunda metade desse mesmo século, sim, ela, a Revolução Industrial. Os paradigmas mudaram, buscou-se ampliar o público consumidor para a obtenção de mais lucro para os detentores do capital. Percebe-se, hoje, uma busca desenfreada para a inserção da criança no mercado de consumo, para, dessa forma, alimentar a “máquina” capitalista. Isso mostra o quanto a publicidade infantil brasileira atua, dentro de nossas casas, e isso é ruim, porque trata a criança, ser ainda em formação, como consumidor adulto.
Devemos discutir veementemente a publicidade infantil, já que o objetivo da mesma é fazer com que crianças entrem no ciclo de consumo cada vez mais cedo. Como consequência aos mecanismos publicitários temos, muitas vezes, a erotização das crianças, pois, como “adultos em miniatura”, consumirão mais. Dessa forma farão parte da sociedade líquida, citada na teoria do sociólogo Zygmunt Bauman, que afirma que tudo é líquido, fluido; que tudo pode ser comprado e descartado, inclusive as relações humanas.
Cabe salientar, ainda, que dentre os efeitos nocivos, corre-se o risco de que, ainda na infância, as crianças estabeleçam barreias sociais entre elas como, por exemplo, as que possuem determinados tipos de produtos e as que não possuem, as que consomem determinadas redes de “fast food” e as que não consomem. Nesse viés, pode-se potencializar o distanciamento social e valorizar ainda mais o individualismo, gerando, assim, um círculo vicioso: criança egoísta e consumista; o que corresponderá a um adulto também com os mesmos valores, o qual educará as próximas crianças com a mesma linha de pensamento.
O que devemos fazer, então? Será que olhar para nós mesmos? Para os nossos hábitos, para nossos históricos de consumo já não seria um bom início? Pois nossas crianças crescem nos vendo, crescem entendendo o que nos faz feliz. Se elas perceberem que precisamos comprar para nos realizar, certamente é isso que aprenderão. Mas, talvez, se perceberem que valorizamos mais o ser em detrimento do ter; que valorizamos mais o estar com os amigos e nos divertir de forma natural, sem tanta necessidade de consumo, talvez nossos filhos não queiram cocô de unicórnio. Nada contra o tal cocô do unicórnio, mas acho mesmo que as crianças iriam preferir procurar com os pais, em uma floresta, a existência de duendes, fadas e, quem sabe, de unicórnios.

Boa Leitura,
TMJ!

Raphael Haussman. É professor, Coach, consultor e apaixonado por educação e desenvolvimento humano e, ainda, pai da Raphaela e do Theo.

Nosso dicionário:

Detetives de um prédio azul, bugados e miracolos – Os três termos são nomes de programas televisivos com grande relevância destinados ao público infantil.

Romantismo – O Romantismo foi um movimento artístico e cultural que revolucionou a sociedade nos séculos XVIII e XIX, deixando para trás valores clássicos e inaugurando a modernidade nas artes. As obras românticas baseavam-se, então, em valores da burguesia, classe social que substituía a nobreza absolutista em diversos países.

Revolução Industrial – A Revolução industrial foi um conjunto de mudanças que aconteceram na Europa nos séculos XVIII e XIX. A principal particularidade dessa revolução foi a substituição do trabalho artesanal pelo assalariado e com o uso das máquinas.

Sociedade líquida – O termo faz referência ao conceito estabelecido por Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, o qual afirma que vive-se hoje em uma sociedade estabelecida por relacionamentos frágeis, voláteis, nada é feito para durar.

Duendes, fadas e unicórnios – Todos os termos nomeiam criaturas fictícias, de grande relevância no imaginário e cultura popular, as quais pertencem a diversos folclores.


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