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Vencedores, pilhagens e gigabytes

Matéria publicada em 26 de novembro de 2019, 10:10 horas

 


Ao vencedor as batatas! Aliás, não apenas as batatas, mas também esculturas de Rodin e pinturas de Van Gogh.
A lógica do mais forte. Não é de hoje que o vencedor de batalhas, bélicas, culturais ou comerciais, acaba por pilhar o que encontra pela frente. Do ouro inca ao sexo das ameríndias.
Baseado em fatos reais, o filme Caçadores de Obras Primas narra a improvável criação de um esquadrão no final da segunda guerra mundial com a missão de resgatar obras de arte pilhadas pelos nazistas que corriam o risco de serem incineradas com a derrota iminente dos alemães. Além da inusitada constatação que um psicopata sanguinário como Hitler possuía sensibilidade artística, o filme reacende um antigo debate: a quem pertencem obras de arte e monumentos históricos expatriados, alguns instalados nos maiores museus do mundo?
Não há quem não se impressione, no Metropolitan Museum de Nova York, com a Tumba de Perneb, de 4400 anos de idade, comprada do governo egípcio em 1912. Ou com o Obelisco de 3300 anos e 227 toneladas instalado na Praça da Concórdia de Paris, presenteado aos franceses em 1836.
Apesar da origem lícita desses dois monumentos, os acervos dos museus do mundo são pródigos em obras, peças e artefatos de origem bastante duvidosa e muitos países estão começando a demandar que sejam devolvidos aos seus locais de origem.
Poucos anos atrás foi a famosa mesquita da cidade espanhola de Córdoba, transformada em Catedral no século XIII, que se viu no centro de uma incendiária discussão, reivindicada pela população muçulmana para que volte a ser um local islâmico. A polêmica suscitou o desejo de que o templo seja comprado pelo Estado, para que continue sendo um monumento que pertence às pessoas e não a uma religião específica.
O tema é complexo. Muitos defendem que essas obras são patrimônio da Humanidade e estarão melhor protegidas em museus sérios do que em seus países de origem, alguns sem a adequada cultura, ambiente ou recursos para preservá-los. Quem visita o Egito se assusta com a quantidade de cidadãos vendendo supostos pedaços de pirâmides, a maioria falsos, embora nem todos. Monumentos de inestimável valor arqueológico têm sido destruídos em guerras, como os sítios mesopotâmicos do Iraque. Brasileiros derrubam centenárias árvores de mogno da floresta como se brincassem de boliche. Não fomos sequer capazes de proteger a Jules Rimet, taça do tricampeonato mundial de futebol, derretida por larápios e transformada em joias que hoje enfeitam o pescoço desenrugado de alguma emergente de gosto duvidoso.
Mas e as pilhagens contemporâneas? Quando baixamos (ilegalmente) um filme, livro ou CD de música para não pagar não estamos praticando uma forma moderna de pilhagem? Sei que é fácil cair na tentação de nos imaginarmos como libertários promovendo a disseminação da cultura sem os malévolos muros capitalistas do dinheiro. Romântico. Mas a criação artística ou intelectual também é propriedade de alguém. E se você se deu ao trabalho de baixar, ouvir ou assistir, é porque tem algum valor.
Você pode justificar dizendo que esses músicos já estão ricos, ganham muito dinheiro com shows e o dinheiro da venda de CDs não lhes fará falta. Faz sentido. Mas quando o artista não é rico nem faz shows lotados as pessoas compram o CD legalmente ou baixa do mesmo jeito? Bom, ninguém mais compra CD, seja lá de quem for.
Esticando o raciocínio, quer dizer que se o proprietário for rico não tem problema furtar? Sob essa ótica, assaltar bancos seria um crime escusável?
E no caso de um escritor pirateado, que leva cinco anos para escrever um romance, (via de regra) é mal remunerado pela atividade editorial e não pode ganhar dinheiro com shows?
Todas essas perguntas são incômodas porque tateiam um problema para o qual não temos respostas ainda. A primeira lei em defesa dos direitos do autor foi criada na Inglaterra em 1710, mas agora as novas tecnologias estão criando um ambiente no qual a informação e o entretenimento fluem com tamanha facilidade que não conseguimos mais enxergar valor palpável neles.
A fantástica cultura da gratuidade que impera na internet fez com que não aceitemos mais pagar por tudo aquilo que é virtual, seja notícia, filme ou música. Alguns modelos de “aluguel” começam a ganhar alguma tração, como Spotify ou a assinatura “Prime” da Amazon, por exemplo. Céticos dizem que isso promoverá a “Uberização” do trabalho artístico.
Talvez porque um traço distintivo das obras digitais seja sua replicabilidade. Uma Monalisa é uma obra física e só pode estar num lugar de cada vez. Mas um arquivo de áudio, texto ou vídeo pode ser multiplicado zilhões de vezes sem perder suas características originais. Uma era de abundância que gera grandes paradoxos. Nunca o capital intelectual valeu tanto e nunca a informação foi tão barata. Talvez a valia esteja mais no que você é capaz de produzir com a informação, e não na informação que você produz.
Estamos definitivamente em um mundo em transição, onde os valores e conceitos estão mudando numa velocidade muito maior do que nossos limitados chips nativos podem processar. A mesma tecnologia que mata negócios antigos faz nascer um mercado mundial de massa que produz bilionários num clicar de olhos.
Muita coisa vai mudar ou no mínimo se transformar, só não sabemos exatamente como. Vejamos os veículos impressos. Devido à dificuldade financeira cada vez maior, já há bilionários filantropos financiando projetos alternativos de imprensa, o que aproximaria o jornalismo tradicional do modelo dos museus: valiosos e importantes, mas comercialmente inviáveis.
Ainda vai levar um tempo para descobrirmos o que é pilhagem e o que é democratização da informação no meio dessa batalha sob o qual se ergue esse admirável mundo novo.
Ao vencedor, os gigabytes!

Alexandre Correa é professor da FGV, escritor e palestrante corporativo. Ele está no YouTube, no Facebook, no Linkedin, no Instagram, no SPC e no Serasa. E não está no Tinder porque sua mulher não deixa.

 


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