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Vida gourmet

Matéria publicada em 13 de dezembro de 2016, 13:18 horas

 


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Juro que me surpreendi com a variedade e o exotismo dos recheios: salmão defumado com cream cheese e cebola roxa, queijo brie com amêndoas torradas e geleia de damasco e mais um monte de combinação que mal saberia descrever. E não era nenhum sofisticado restaurante europeu. Estava no meio de um evento de rua e o restaurante era um caminhão adaptado, o famoso food truck.

Sou da época que tapioca era consumida com manteiga derretendo ou no máximo um queijo mussarela.

Não sei se é efeito dessa febre de reality shows de cozinheiros, mas parece que o mundo todo virou gourmet. Tudo agora tem a versão gourmet para rivalizar com a versão tradicional.

Tapioca gourmet, açaí gourmet, água gourmet, feijoada gourmet, hot dog gourmet. Simplicidade gourmet.

O ruim dessa onda é que junto com as invencionices os preços disparam.

Tomar um cafezinho custava 1,50. Mas o mocaccino macchiato caramelizado custa 18 pratas. Até a água está virando gourmet. Diz a lenda que na França já existem boutiques de água, o que eu sinceramente não entendo, já que sempre aprendi que a água perfeita é aquela que não tem nenhum diferencial: insípida, incolor e inodora.

Conheço algumas pessoas que aderiram à moda das cervejas artesanais. Existe até clube virtual, no qual você paga uma mensalidade quase igual à escola dos meus filhos, e em troca recebe regularmente por correio amostras de exóticas cervejas gourmet do mundo. Marcas desconhecidas com composições ininteligíveis (pelo menos para este ignorante que vos escreve), com embalagens deslumbrantes e vindas dos mais diferentes cantos do planeta: País de Gales, Austrália, Bélgica, Estônia ou Petrópolis.

Dia desses vi num aeroporto o preço de uma cachaça premium e achei que estivesse bêbado. O que fizeram com o preço da popular caninha?

Mas o pior é que a gourmetização da vida está extrapolando as raias da culinária.

Tenho um amigo que anda viciado em pedalar, arrumou uma turma faz pouco tempo mas está super empolgado. Aí ele me falou das bikes que a turma usa e quase caí do cavalo. A mais barata devia custar uns três mil, as mais incrementadas dezenas de milhares de dinaris. Se eu vender o meu carro talvez não seja suficiente pra comprar uma dessas bikes gourmet.

Eu sempre morri de medo de virar um profundo “conhecedor” dos bons vinhos, ofício que deu origem a palavra francesa gourmet. Atualmente é tão fácil agradar meu paladar inculto com uma garrafa de 17 reais, que me aterrorizo ante a possibilidade de só saciar milhas papilas pedantes com vinhos de safras nobres. Os taninos podem ser tiranos quando desvendados.

Estamos ficando uma espécie cada dia mais exigente e sofisticada e eu devo admitir que adorei a tapioca com queijo brie, amêndoas torradas e geleia de damasco.

Mas como as finanças não andam assim tão gourmet, vou vivendo feliz com minha velha bicicleta de alumínio, minha água mineral de galão e meu vinho de 17 mangos.

 

ALEXANDRE CORREA LIMA| alexandre.lima@diariodovale.com.br


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Um comentário

  1. Avatar

    Direto ao ponto…texto excepcional!

    Me lembra uma velha música dos Engenheiros do Hawaii: “Um dia super, uma noite super, uma vida superficial…”

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