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Vida

Matéria publicada em 3 de março de 2020, 09:14 horas

 


Era uma tarde abafada qualquer quando meia dúzia de magricelos imberbes apertou a campainha da casa número 100 onde eu morava e mantinha um estúdio caseiro num quartinho minúsculo. Um deles trazia ao colo uma lata de Neston, por razões até hoje ocultas para mim.
Um amontoado de amigos de escola juntos e misturados em duas bandas de rock.
Diamantes musicais ainda mal lapidados e esbanjando o frescor e a vitalidade confrontadora da juventude. Eram meados dos anos 90 e logo nos tornaríamos amigos.
Ao longo de mais de 25 anos que nos separam do soar daquela primeira campainha, colecionamos muitas viagens, risadas, porres, finais de futebol e shows juntos.
No meio dessa turma estava ele. Discreto, culto, bom guitarrista, faro apurado para encontrar raridades musicais, fala suave, daqueles que acham que as grandes causas da vida podem ser melhor discutidas molhando as palavras numa mesa com amigos de verdade.
Casou com uma amiga de turma e teve um filho lindo, que aos três anos de idade descobririam ser portador de um síndrome cerebral raríssima e pelo qual empreenderam uma sofrida e infrutífera batalha de dois anos que terminou da maneira mais dolorosa para o casal.
Precisaram alguns anos para que se recuperassem da perda e então tiveram mais dois filhos lindos. Um deles, a cara do pai.
No meio do ano passado esse meu amigo foi diagnosticado com um tumor raro no cérebro. Uma nova luta. Pra piorar, descobriu que tinha claustrofobia e as sessões de ressonância eram um inferno adicional.
Em outubro mandou uma mensagem para comemorar a cirurgia bem sucedida que o teria livrado do problema. Estávamos todos felizes, ensaiamos duas vezes juntos.
Em janeiro combinei com ele de sairmos, tomarmos um chopp para conversarmos sobre a vida e comemorarmos sua recuperação. Algumas horas antes ele pediu desculpas porque não poderia ir.
Alguns dias depois combinamos um ensaio entre amigos. Atolado no meio de compromissos e a revisão do meu segundo livro, pedi desculpas algumas horas antes e acabei não indo.
Há poucos dias veio a notícia. Teve um desmaio súbito na própria casa e na queda fraturou severamente o crânio.
Após uma semana de agonia familiar e boletins médicos indecifráveis veio a confirmação da morte cerebral.
Deixou dois filhos pequenos, esposa e uma legião de amigos órfãos.
E não tomamos nosso último chopp juntos.
E não tocamos nossas últimas músicas juntos.
E a vida segue sendo um enigma maravilhoso como os sonhos de juventude e impiedoso como a ponta do mais afiado punhal.

Alexandre Correa é professor da FGV, escritor e palestrante corporativo. Ele está no YouTube, no Facebook, no Linkedin, no Instagram, no SPC e no Serasa. E não está no Tinder porque sua mulher não deixa. É autor dos livros “Pesquisas de Opinião Pública” e do recém lançado “Longevidade Inteligente”.

 


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Um comentário

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    Os amigos se vão mas as boas lembranças ficam. A boa amizade é eterna e um dos sentimentos mais nobres desse mundo. Fica em paz meu amigo.

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